quinta-feira, 31 de julho de 2008

Mãe Ilha


Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.


A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.


A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.


E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.



Natália Correia

aprendizagens



Comienzo
a perder instantes.

A perderme.

Una décima de segundo.
Un milésimo de silencio.

Nada me despoja.
Todo me desnuda.

Es lo infinito que regresa.

Aprendo
a habitar el esplendor
de la sombra.


Ana Emilia Lahitte



Oscar Wilde



Qualquer um pode simpatizar com o sofrimento de um amigo,
mas o que exige mais classe
é a natureza de simpatizar com o sucesso de seu amigo.



Oscar Wilde



quarta-feira, 30 de julho de 2008

o mar



"O mar, às vezes parece um céu diáfano, outras pó verde.
Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha."



Raul Brandão


poema ao Homem


Frequentemente esqueço as palavras.
Esqueço-Me. Esqueço-Te.
E sem linguagem
desapareço.
Torno-me farol de imagens,
imperativo
que impedido de comunicar,
desvenda outro reino.
Gêmea de árvores e pedras
mas sempre estranha
que se entranha na garupa do vento.
Regresso tarde ou cedo...
a tempo
do tempo
das estações contemplar.

Relembro as palavras.
Relembro-Me
Relembro-Te

Presumo a urgência de Amar...



poema de Aya

poema



Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.




Alejandra Pizarnik

o amor



"O amor é uma troca entre duas correntes de energias, dois pólos opostos mas complementares. Não é o corpo físico que inspira o amor, muitas vezes ele só intervém no fim do processo como um culminar, só vem na sequência. O que inspira o amor é invisível. Em geral, dá-se mais importância ao corpo do que aquela que ele possui realmente. Colocados lado a lado, os cadáveres de dois seres que se amaram abraçam-se? Não, mas as suas almas, que são vivas, continuam a relacionar-se. É a vida nas criaturas que provoca atracção ou repulsa. Portanto, antes de os corpos serem atraídos um para o outro, houve correntes fluídicas que os levaram a aproximar-se; os corpos apenas seguiram o movimento, bem no fim deste processo."



Omraam Mikhaël Aïvanhov


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Siento el crepúsculo en mis manos


Siento el crepúsculo en mis manos. Llega a través del laurel enfermo. Yo no quiero pensar ni ser amado ni ser feliz ni recordar.


Sólo quiero sentir esta luz en mis manos
y desconocer todos los rostros y que las canciones dejen de pesar en mi corazón
y que los pájaros pasen ante mis ojos y yo no advierta que se han ido.


Hay
grietas y sombras en paredes blancas y pronto habrá más grietas y más sombras y finalmente no habrá paredes blancas.


Es la vejez. Fluye en mis venas como agua atravesada por gemidos. Van
a cesar todas las preguntas. Un sol tardío pesa en mis manos inmóviles y a mi quietud vienen a la vez suavemente, como una sola sustancia, el pensamiento y su desaparición.


Es la agonía y la serenidad.


Quizá soy transparente y ya estoy solo sin saberlo. En cualquier caso, ya
la única sabiduría es el olvido.



© Antonio Gamoneda
En Arden las pérdidas
Barcelona, Tusquets Editores, 2004

terça-feira, 15 de julho de 2008

***


A minha boca é uma chaga
O meu trabalho é silêncio
Eu e a noite dormimos juntos
e nunca dormimos.



Carlos Edmundo de Ory



POEMAS MUDADOS PARA PORTUGUÊS POR HERBERTO HELDER


Carlos Edmundo de Ory, poeta e ficcionista espanhol, nasceu em Cádiz em 1923. Filho do poeta modernista Eduardo de Ory , é um dos autores vanguardistas mais singulares e revolucionários do panorama espanhol actual. Com Silvano Sernesi fundou em 1945 o «Postismo», movimento de vanguarda, e desde então participa activamente em actividades surrealistas europeias. É também ensaísta, epigramista e tradutor. A sua obra, durante muito tempo ignorada, foi valorizada a partir de 1973, sendo traduzida em diferentes línguas. Desde 1953 que viaja sucesivamente pela França, Marrocos, Perú e Bruxelas. Entre 1955 e 1967 fixou residência em Paris, radicando-se, depois, definitivamente em Amiens como bibliotecário de «la Maison de la Culture». Da sua obra destacam-se títulos como «Técnica y llanto», «La flauta prohibida», «Los sonetos», «Lee sin temor», «Poesía abierta», «Metanoia» y «Aerolitos».





poema enviado por maria gomes

sábado, 12 de julho de 2008

reflexões


"Temos que descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós: temos de descobrir o herói, assim como o parvo, que reside em nossa paixão pelo conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria."


Nietzsche

Abdicação


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


Fernando Pessoa

quero escrever o borrão vermelho de sangue


Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector


sexta-feira, 11 de julho de 2008

rente ao chão


O pátio é agora um quadrado
de luz. Sem gatos nem sombras;
apenas o silêncio das paredes, intacto.
Rente ao chão, um exercício de entropia:
tabuletas gastas, loiça em cacos, o balde
cheio de pregos tortos, aguarelas refeitas
pela chuva, baús que guardam segredos,
estantes rendidas à poeira, um par de asas
falsas, a túnica com rasgões e duas malas
de couro manchadas pelo tempo, vazias.
Ao canto, o relógio partido e os
ponteiros soltos. Um deles
aponta para as nuvens, lá
muito ao alto. O outro aponta para
nós, para aqui, para estes inumeráveis labirintos.



José Mário Silva, in Nuvens & Labirintos, 2001


quinta-feira, 10 de julho de 2008

excerto II


Se vim para acompanhar a voz,
Irei procurá-la em qualquer lugar que fale,
montanha,
campo raso,
praça da cidade,
prega do céu __ conhecer o Drama-poesia desta arte. Sentir como bate, num latido na minha mão fechada. Como, ao entardecer, solta, tantas vezes, um grito súbito: _ Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste? _ Como me pede que não oiça, nem veja, mas deixe absorver , me deixe evoluir para pobre e me torne , a seu lado, uma espécie de poema sem-eu.

Em silêncio e cega,
deixo que me dispa da claridade penetrante,
da claridade nova,
da claridade sem falha,
da claridade densa
da claridade pensada,
me torne um fragmento completo e sem resto
para que passem a clorofila e a sombra da árvore. Assim, realizando eu própria o texto

e acompanhando-o,
constatei que a noite em breve se iria pôr,
deixando-me sem dia claro às portas da cidade. Não havia percurso, apenas um decurso e vários sonhos deitados em torno de uma mesa, sem que se visse quem dormia e estava a ser sonhado.
Eram animais que sonhavam, sonhos a preto e branco, mas mesmo assim, sonhos. Perguntaram-me se também eu os queria ter.
Como? Se a voz me transformara num poema sem eu?


Maria Gabriela Llansol
in " Onde Vais Drama-Poesia?"
edição Relógio D'Água




na página



mas o amor continua pela hora da morte...
ouve,
eu tenho uma lua nova,
dobro-a com os dedos,
na página.
o mar apagou-se não sei porquê!
e os sinos ousam no deserto, nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.



mariagomes
23.out.2005


poema


A poesia está guardada nas palavras-é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as
nossas).
Por esta pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.



Manoel de Barros


poema enviado por José di Cavalcanti Jr

na vida


Na vida,
é preciso tanto seriedade
quanto delírio.
Se tiveres mais de um pão,
vende um
e compra um lírio.


Li Tai Po

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O Jardineiro Míope



O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"Que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.



Sidónio Muralha (nasceu em Portugal, morreu no Brasil, em Curitiba)

campo de flores


Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.



Carlos Drummond de Andrade

o sal da língua



Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade


visitações , ou o poema que se diz manso



De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luisa Amaral


segunda-feira, 7 de julho de 2008

a mim filhos da viúva


viu-se de relâmpago e era negra
e como se uma chave fosse
uma chave foi
abrindo a porta do grande
palácio das buganvílias e dos loendros
lá dentro
sobre um pavimento de mosaicos
brancos e negros
duas colunas
suportavam sem esforço um globo celeste
e outro terrestre
duas esferas romãs
abertas e expostas à sua multitude
era uma espada de ferro quente
ondulada
: flamejante a invocadora de todos os sortilégios
entre colunas –
onde reinava o silêncio
,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui
não haverá espaço para a defesa porque
não haverá espaço para o ataque»



nisto uma bicéfala águia branca pousou
sobre a coroa do trono
e no tecto do palácio se escreveu
num ouro muito azul: «ordo ab chao»



Frederico Mira George, tempo do verão da era vulgar de 2006

domingo, 6 de julho de 2008

o fim do mundo


No fim do mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.


Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que as cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.


O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.



in "O Engenheiro" de João Cabral de Melo Neto
( enviado por Adelaide Amorim)

***



'A maior parte das pessoas realmente não nos interessa, pensei eu o tempo todo, quase todas as que nós encontramos não nos interessam, não têm para nos dar senão a sua mesquinhez das massas e a sua estupidez das massas e com isso nos aborrecem sempre e por toda a parte e naturalmente não temos por elas o mínimo interesse.'



Thomas Bernhard (1931-1989)
in Derrubar Árvores - uma irritação.
Lisboa: Assírio&Alvim, 2007


sábado, 5 de julho de 2008

basta-me


Basta-me
Basta-me morrer nesta terra
Ser nela enterrada
Dissolver-me e desaparecer no seu solo
Para então brotar como uma flor
E ser colhida pela mão de uma criança do meu país.
Basta-me permanecer
Abraçada ao meu país,
Como um punhado de terra,
Como um ramo
Como uma flor!


Fadwa Tuqan - poetisa
palestina


enviado por José P. di Cavalcanti Jr.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

queria falar do mar


queria falar do mar
gostava de ter dito algo como isto:
- foi o mar
que me fez começar a pensar no amor,
mais do que noutra coisa;
quero dizer,
num amor por que valha a pena morrer,
num amor que consuma uma pessoa.


yukio mishima

***


Volta o meu filho a casa.
Brisa marinha ainda nos cabelos.
Há medo conquistado
No seu andar e no prazer da viagem.

E de salgada espuma
Ainda arde em brilho a face requeimada.
Tão já fruto maduro
No odor bravio e ardor de estranhos sóis.

O seu relance é denso
De um segredo que nunca saberá
De leve enevoado
Ao vir da primavera ao nosso inverno.


Tanto o botão se abriu
Que o fito agora quase com terror
E a mim mesmo proíbo
A boca que outra boca já escolheu.

Os meus braços rodeiam
Quem para além de mim cresceu alhei
Entregue a um outro mundo —
Algo que é meu e tão de mim distante.




STEFAN GEORGE, trad. Jorge de Sena

***
Poeta e tradutor alemão, Stefan Anton George nasceu na aldeia de Büdesheim, Bingen (Alemanha), a 12 de Julho de 1868, e faleceu em Minusio, Locarno (Suiça), a 4 de Dezembro de 1933.
Nascido no seio de uma família católica, aos cinco anos de idade (1873), muda-se para a cidade de Bingen, onde o pai ganha a vida como taberneiro e negociante de vinhos. É na pequena cidade do Reno que Stefan faz a instrução primária, prosseguindo os estudos secundários no Liceu de Darmstadt (1882-1888). Nos anos seguintes faz as primeiras viagens pela Europa: Inglaterra, Itália, França. Em Paris, o convívio com os poetas Albert Saint-Paul, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé inicia-o na estética simbolista, tendo, inclusive, escrito diversos poemas em francês. Dedica-se também à tradução para a língua alemã do livro Les Fleurs du Mal, de Baudelaire (publicado em 1891), de excertos da Divina Comédia, de Dante, e dos sonetos de Shakespeare
.

***


Certa vez, perguntaram a Anaxágoras porque nascera. E ele respondeu sem vacilações:
_ Para ver o sol, a lua e as estrelas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

versos tolos III


Às vezes me pergunto:__ O que vim fazer neste planeta?
Não encontro resposta. Sequer sei a música daquela tarde de
janeiro, num lugarejo chamado Olhos d'Água, no sertão das
Gerais, onde nasci, durante um temporal, numa tarde de verão.
Tantos momentos perdidos nas lembranças, tantas histórias
vividas. Outras tantas, inventadas
Algumas paixões de terra, tantas de árvores e estrelas.
E essa saudade de luas, pedras e oceanos.
__Tem uma rocha de poemas no olhar das minhas mãos.
Amanhã dito o poema final.
Às vezes as palavras traem o sentido, e desviam a rota do
navio que conhece os perfumes do coração.
Sou náufrago, com todos os barulhos, icebergs,
recifes e cantigas de corais perfumados.
__ O que vim fazer aqui neste planeta?
Sequer conheço a canção dos Salmos!
Conheço somente as palavras que levam os meus medos
para os templos da paixão.
Quem é vocè, mulher de prosas, versos livres e sonetos?
Muito prazer! O meu nome não diz nada!
Diz somente um estilhaço da poesia que me habita.
Grande mentira! Já não carrego a maca da esperança!
Cala a boca, poeta!
Deixa-me dormir em paz com os meus pesadelos!



© Nathan de Castro

enviado por José P. di Cavalcanti Jr.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

no espelho dos teus lábios


Photobucket



o silêncio que agora se mira
no espelho dos teus lábios
trouxe-me ao mundo

porta para outra vereda
que me recolherá na morte
- minha mãe -

devo ser a luz de um sonho antepassado
os dias que viajam em vertigem



maria costa

união no poema


Algumas palavras
nunca precisam ser ditas
Alguns poemas
nunca ser pronunciados
Os olhos a lamber, a beijar, a sugar
certos versos embebidos
de puro sentir
No silêncio se aprofunda
o abismo
entre poema e leitor
Nele epicamente se ergue
a ponte divina da salvação, etérea
construída palmo a palmo, arquitetonicamente,
sofregamente,
de palavras escolhidas
e colhidas ao vento
para unir inabalável
e por todo o sempre
o coração do poeta
ao coração do leitor.


Laeticia Jensen Eble


a aranha e o poeta


A aranha tece a teia
Eu o poema
Há milênios fazendo-a perfeita
Eu aprendendo
Todos os pequenos bichos se
enredam no poema-ceia
Só rato, barata, cupim, traça(m) minha teia
A aranha mata a fome na rede
Meu poema tem a fome fiada nos milênios
Diferenças à parte,
a aranha não suporta minha indisciplina


Carlos Gildemar Pontes

presença no dia


Eu fui
Eu fui apenas a amiga
daquele anunciado
à luz das águas tão claras
sua presença no dia
sobre o corpo tatuado
os arabescos de fera
no pasto
Assim veio-me ele
belo e impulsivo no rastro


Terêza Tenório

terça-feira, 1 de julho de 2008

poesia política


Se matam os poetas, é porque temem a Poesia.


Anna Ahkmátova