quinta-feira, 28 de agosto de 2008

dom poético


Don Poético


Tiene sueños azules
pero trabaja en una oficina
y usa trajes melancólicos.

Su nombre es una sombra
un tanto agrietada
y con insomnio.

Don no tiene
versos tampoco



Belén Vecchi, 2008


domingo, 10 de agosto de 2008

Eu não sou


Eu não sou nem cristão nem judeu, nem persa nem muçulmano.
Eu não sou nem do Oriente nem do Ocidente, nem da terra nem do mar.
Eu não sou nem da natureza nem dos céus envolventes;
Eu não sou nem da terra nem da água, nem do ar nem do fogo;
Eu não sou nem do empíreo nem da poeira, nem da existência nem da entidade.
Eu não sou da Índia nem da China, nem dos Búlgaros nem de Saqsin
Eu não sou nem do reino do Iraque, nem da terra de Khurasan.
Eu não sou nem deste mundo nem do outro, nem do Paraíso nem do Inferno.
Eu não sou nem de Adão nem de Eva, nem do Éden nem de Rizwan.
O meu lugar é a ausência de lugar, o meu rasto é a ausência de rasto.
Eu não sou nem corpo nem alma, porque pertenço à alma do Bem-Amado.
Eu libertei-me da dualidade, eu vi que os dois mundos são um só;
Eu busco o Uno, conheço o Uno, vejo o Uno, chamo o Uno.
Ele é o primeiro, Ele é o último, Ele é o exterior, Ele é o interior.
Eu não conheço ninguém a não ser Ele.
Eu estou intoxicado pela taça do amor; os dois mundos
passaram fora da minha vista.
Nada mais tenho a fazer, se não festejar e alegrar-me.
Se passei na minha vida um só instante sem ti,
Toda a vida me arrependo desse tempo e dessa hora.
Se mereço passar neste mundo um só instante contigo,
Eu calcarei com os pés esses dois mundos, dançarei triunfalmente para sempre.


Jalâloddîn Rûmî


se as coisas são inatingíveis


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!"


Mario Quintana

nenhuma palavra


Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei.
Ainda assim, escrevo.



Mia Couto

meu sonho familiar



Tenho este sonho: existe uma mulher
Que eu não conheço e o seu carinho estende
Sobre os meus males todos, que me quer
Como eu a quero, enfim, que me compreende.

Nem um pesar, nem uma dor sequer
Sofro sem que ela o sinta: ela me entende
E a grande dor que a minha fronte pende
Com seu pranto, ela faz amortecer...

É ela morena ou loura? Eu mesmo ignoro.
Seu nome? É tão querido como o nome
Das pessoas amadas que morreram.

Olhos de estátua que um pesar consome!
Tem sua voz o timbre almo e sonoro
Das vozes caras que se emudeceram.


Paul Verlaine

sábado, 9 de agosto de 2008

discurso de fulano de tal sobre seu bairro




O prédio em que moro tem cinco andares.
Todas as suas janelas bocejam, replicantes, para as janelas do prédio em frente
como os rostos dos que se olham no espelho.

Setenta linhas de ônibus circulam em minha cidade,
autorizados, cheirando a suor.
Viajam
viajam
viajam ao coração da cidade,
como se não fosse possível morrer de tédio
aqui mesmo no bairro.

Meu bairro é muito pequeno
mas possui todos os tipos de nascimentos e mortes
e tudo o que há entre vida e morte,
tudo o que possui qualquer metrópole gigante.

Há até crianças que passeiam maravilhosamente de disco voador
e três salas de cinema.
Se não fosse suficiente o tédio de casa
iria a uma delas.

O prédio em que moro tem cinco andares.
Para a garota que saltou do prédio em frente
bastaram três.

Abraham Shlonski (Ucrânia, 1900-1973)


(poema enviado por Adelaide Amorim )

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

astronomia


Pastor, que entre nuvens pastoreias,
seguindo na terra os teus rebanhos
de estevas e pinheiros;


imagem, que atrais o hálito dos seres
vivos, renascidos ou inertes;



bebida, que o mar bebe, e incha
a maré, levanta a onda, solta
a maresia desde o eterno início;


manto, que me aquece o corpo nu
ou o mostra num halo de esplendor;


vento, igual ao vento, mas que sopra
matéria, amor, magnetos;



cabelos de ouro, espargidos na terra,
em parras de outono avermelhadas
ou em clareiras abertas para a luz;


coluna de puro brilho, que sustém
os dias entre manhãs e noites;


rosto, que tem o riso e o olhar ubíquos
até ao fundo das raízes e até aos cumes;


corola, que repete a órbita dos astros,
vendo as outras corolas humílimas ante si;



lâmpada, de silêncio inatingível,
entre os sons mais próximos das criaturas
que, em silêncio também, com ela cantam;


mão decepada que afaga o mundo
como se os dedos caídos fossem raios;


espelho, que ao ser olhado é opaco,
como uma fonte que jorra, sem imagens,
para dentro a turva água do seu bojo;


ave, sem beiral onde poisar ardendo
a figura da antiga fénix imolada;


Sol é teu nome, o teu ser e a tua face.
Ó Sol, eu só, poeta deste século, sei
que no futuro irás tornar-te nada.


Meu Sol, levarás em ti todos os versos
dos poetas, em livros, em lápides.





Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)