terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ano novo




Virás de manto realmente novo
Entre searas ardentes e mãos puras?
Poderemos enfim chamar-te novo,
Ano novo entre as tuas criaturas?

Deceparás enfim as mãos tiranas?
Será feita, enfim, nossa vontade?
Eu queria acreditar, vozes humanas,
Acreditar em ti, deus da verdade!

Como eu queria trazer-te a este mundo
(Mas onde te escondeste? Desde quando?)
Ó deus livre, sem espinhos, ó fecundo
Senhor do fogo alegre e não do pranto!

Ó ano novo, a minha esperança é cega.
Transforma em luz a nossa própria treva.


Alberto de Lacerda (1928-2007)


domingo, 21 de dezembro de 2008

dá-me o puro cansaço


Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.

Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.

Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.

Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.

"Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limites
de um corpo?"

Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?

Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.

Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.

SALVADO, Gonçalo. IRIDISCÊNCIAS. Castelo Branco: Sirgo, 2003

Naufragio de la niña de tu ojo derecho




La niña de tu ojo derecho ha perdido la infancia,
y todas las imágenes que ha visto se sumergen en llanuras abisales,
el océano reclama a la niña de tu ojo derecho,
y la hunde en su seno,
diligente le quita las sandalias,
quiere el agua que las huellas dejadas en la arena sean leves,
que se borre de la tierra cualquier reflejo que hable de su paso.
Por eso la marea arrebata a la costa los restos de su sombra,
y entrega al horizonte los colores.
Mezcla el océano olvido con arena,
y escupe en la niña de tu ojo derecho con la saliva sagrada de los náufragos.
Un blanco duelo de espuma la llama por su nombre de sombra,
por un instante le hierve la memoria,
tu niña se pierde entre jirones,
el abismo le arrebata la infancia y las sandalias.

Elena Soto de Métricas del alma


Elena Soto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

GRATIDÃO QUE NEM SABE A QUEM DEVE SER GRATA







Gratidão de ser
por estes anos
e partículas restantes.

Pela amizade,
que chega a confundir o amor.

Pela bondade,
que torna a solidão desvalida.

Pela hombridade,
à altura do céu.

Pela beleza,
que só à santidade
sobrepassa.

E é flagrante, perdulária,
noutros renascente.

Gratidão
que nem sabe
a quem deve ser grata.

Pelas aves nutrindo os filhos
de penugem e voo.

Pela lentidão escrupulosa
da tartaruga, igual à de Plutão.

Pela leveza materna do vento
transportando pólen.

Pelo calor humílimo
da joaninha sobre a nossa mão.

E por estar na terra
uma só vez, ao sol,
nada pedindo, nenhum segredo,
como um velho lobo-do-mar.


* António Osório (n. 1933)


Poeta e ensaísta, António Osório de Castro nasceu em Setúbal, a 1 de Agosto de 1933.
Concluído o curso de Direito, fixou-se em Lisboa, onde se dedicou ao exercício da advocacia. Foi bastonário da Ordem dos Advogados entre 1984 e 1986, administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente. Dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território, que fundou, e é director de Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas.
Colaborador de várias revistas literárias, publicou textos e poemas em publicações como O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice, Colóquio/Letras e Revista Anteu de 1954. A Raiz Afectuosa (1972) foi a sua primeira obra publicada. Seguiram-se A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva e o Mais (1983), obtendo com os dois últimos títulos o Prémio de Poesia do Município de Lisboa.
Tem livros publicados no Brasil, em Espanha, em França e em Itália e está também traduzido em revistas para francês, inglês e catalão. Tem participado em recitais de poesia no país e no estrangeiro, designadamente em Londres, Paris, Clermont-Ferrant, Roma, Madrid, Cuenca, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Barcelona, Salzburgo, Viena e Frankfurt.
Tendo-se estreado como poeta apenas na década de 70, embora já em 1954 colaborasse na revista Anteu, António Osório sai de algum modo da geração poética de que provém, sem contudo se integrar nas correntes literárias que por então se impunham: mais próximo da claridade antiga das vozes suas contemporâneas (Sophia, David Mourão-Ferreira, Ramos Rosa...) do que de certo formalismo de estruturas que caracterizaria a poesia portuguesa dos anos sessenta e setenta, a sua poesia representa nesse sentido uma inflexão nos caminhos do que então se tinha por modernidade. A Raiz Afectuosa determina em boa parte a tonalidade de uma voz que se assume como vocação primordial, íntima e natural para uma espécie de canto da criação e do mistério da vida e da morte, do animal e do humano. Profunda, instintivamente afectuoso, este é um canto de grata, "inabalável ternura pelas criaturas" (Carlos Nejar, Prefácio a Emigrante do Paraíso, São Paulo, 1981), onde a morte figura sempre como escândalo, ainda assim parte integrante de um universo essencialmente uno e por essa unidade apaziguado. "Dizer com claridade o que existe em segredo" (Cecília Meireles, epígrafe a Planetário e Zoo dos Homens, 1990) é o expediente da força reveladora desta poesia que tem tanto de religiosa na capacidade de diálogo com os deuses e o universo como de pagã na sua proximidade dos animais. Esse o sentido muito particular das últimas obras do António Osório, mas em especial de Ofício dos Touros (1991), talvez a mais elegíaca, mas também - surpreendentemente na tranquila harmonia cósmica do conjunto da sua poesia - das mais violentas nessa intimidade e nesse respeito pela dignidade de um muito humano medo animal. Neste contexto deve ainda mencionar-se o título mais recente - Bestiário (1997) -, a respeito do qual, e depois de lhe salientar "esta reverência para com o real", Eugénio Lisboa refere: «O poeta fala deles [dos animais] com a mesma emoção discreta, com a mesma ligação 'de ordem afectiva indissolúvel' que o liga aos humanos de todos os ofícios» (cfr. JL de 1 de Julho de 1998). Mas já antes, e talvez sobretudo desde Aforismos Mágicos (1986), a poesia de António Osório tendia para o poema breve, tenso, e para a expressão contida de uma essencialidade vital: aforística é tendencialmente a escrita não apenas desse mas da generalidade dos livros de António Osório, onde os poemas se inscrevem ao ritmo do hai-ku, num despojamento de ressonância oriental e muitas vezes firmados por uma espécie de moralidade de fábula. Mais do que de discursos poéticos, trata-se de inscrições poéticas que parecem ser o resultado de uma grande e humilde disponibilidade para a atenção a uma secreta, calada evidência das coisas: «Essa arte vestigial, esse manejo delicado, amoroso e vigilante das pequenas coisas, essa vibrátil pulsação do que parece não ter peso ou relevância, eis um dos notáveis atributos desta obra que reconhece com lucidez a sua vocação prestável: 'O pequeno rebocador ajuda silenciosamente o grande petroleiro' (Aforismos Mágicos, 19) e, com efeito, o ínfimo, o insignificante, o humílimo, adquirem um estatuto muito particular nesta poesia capaz de devotar-se 'a um mirto' (A Raiz Afectuosa, 42) ou a 'uma lupa' (Décima Aurora, 94), capaz de atentar na rasteira beleza de um 'buxo' (A Ignorância da Morte, 75), no 'último segundo de uma larva' (A Ignorância da Morte, 39), na graça que os milénios preservaram em duas pequenas 'tanagras' (A Ignorância da Morte, 83) ou na textura de uma 'gota de água' em cujo interior nos convida a penetrar (cfr. Décima Aurora, 83). Não devemos espantar-nos, pois desde a abertura de A Raiz Afectuosa fora acentuada essa vontade de não esquecer o ínfimo: 'Com os anos/ a pouco e pouco/ a raiz afectuosa/ penetrou/ no fundo da terra/ até chegar/ ao mais pequeno/ e mais antigo/ veio de lágrimas' (A Raiz Afectuosa, 13)'» (cfr. Fernando Pinto do Amaral, "António Osório: O Humano e Humilde Labor da Poesia", in O Mosaico Fluido). Os últimos livros de António Osório configuram-se muitas vezes como poemas em prosa ou desenvolvem-se como pequenas narrativas ou crónicas da notação sensível de uma realidade onde ainda assim ressaltam aquelas mesmas características.

Poesia:

A Raiz Afectuosa, 1972
A Ignorância da Morte, 1978)
Emigrante do Paraíso (antologia), 1981
O Lugar do Amor, 1981
Décima Aurora, 1982
Adão, Eva e o Mais, 1983
António Osório (antologia), 1984
Aforismos Mágicos, 1986
Planetário e o Zoo dos Homens, 1990 [Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia]
Inquirição / Ênquete, 1991
Ofício dos Touros, 1991
Antologia Poética, 1994
Felicidade da Pintura, 1996
Junto ao Sado e Arrábida, 1996
Crónica da Fortuna, 1997
Bestiário, ilust. de Graça Morais, 1997
Aforismos Mágicos / D. Quixote e os Touros (edição conjunta de Aforismos Mágicos e Ofício dos Touros), com reproduções de pinturas de Júlio Pomar, 1998
Libertação da Peste, 2002


Ensaio:

A Mitologia Fadista, 1974
O Amor de Camilo Pessanha, 2005

(recebido de "OS SONS FÉRTEIS")

Oración para un extranjero





VI

Lluvia,
somos dos extranjeros,
mi nombre como el tuyo es una travesía,
un deambular por puertas cerradas para siempre.

La gente entra en mi sueño como por otra casa
y tus breves colores se deshacen contra el olvido,
pero ya lo sabemos,
no hay nada que tratar con su navaja,
nada que preguntar en sus regiones.

Lluvia,
somos dos extranjeros,
nos separa una herida.




© Jorge Boccanera

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Monumento al mar

Monumento al mar

Paz sobre la constelación cantante de las aguas
Entrechocadas como los hombros de la multitud
Paz en el mar a las olas de buena voluntad
Paz sobre la lápida de los naufragios
Paz sobre los tambores del orgullo y las pupilas tenebrosas
Y si yo soy el traductor de las olas
Paz también sobre mí.

He aquí el molde lleno de trizaduras del destino
El molde de la venganza
Con sus frases iracundas despegándose de los labios
He aquí el molde lleno de gracia
Cuando eres dulce y estás allí hipnotizado por las estrellas

He aquí la muerte inagotable desde el principio del mundo
Porque un día nadie se paseará por el tiempo
Nadie a lo largo del tiempo empedrado de planetas difuntos

Este es el mar
El mar con sus olas propias
Con sus propios sentidos
El mar tratando de romper sus cadenas
Queriendo imitar la eternidad
Queriendo ser pulmón o neblina de pájaros en pena
O el jardín de los astros que pesan en el cielo
Sobre las tinieblas que arrastramos
O que acaso nos arrastran
Cuando vuelan de repente todas las palomas de la luna
Y se hace más oscuro que las encrucijadas de la muerte

El mar entra en la carroza de la noche
Y se aleja hacia el misterio de sus parajes profundos
Se oye apenas el ruido de las ruedas
Y el ala de los astros que penan en el cielo
Este es el mar
Saludando allá lejos la eternidad
Saludando a los astros olvidados
Y a las estrellas conocidas.

Este es el mar que se despierta como el llanto de un niño
El mar abriendo los ojos y buscando el sol con sus pequeñas manos temblorosas
El mar empujando las olas
Sus olas que barajan los destinos

Levántate y saluda el amor de los hombres

Escucha nuestras risas y también nuestro llanto
Escucha los pasos de millones de esclavos
Escucha la protesta interminable
De esa angustia que se llama hombre
Escucha el dolor milenario de los pechos de carne
Y la esperanza que renace de sus propias cenizas cada día.

También nosotros te escuchamos
Rumiando tantos astros atrapados en tus redes
Rumiando eternamente los siglos naufragados
También nosotros te escuchamos

Cuando te revuelcas en tu lecho de dolor
Cuando tus gladiadores se baten entre sí

Cuando tu cólera hace estallar los meridianos
O bien cuando te agitas como un gran mercado en fiesta
O bien cuando maldices a los hombres
O te haces el dormido
Tembloroso en tu gran telaraña esperando la presa.

Lloras sin saber por qué lloras
Y nosotros lloramos creyendo saber por qué lloramos
Sufres sufres como sufren los hombres
Que oiga rechinar tus dientes en la noche
Y te revuelques en tu lecho
Que el insomnio no te deje calmar tus sufrimientos
Que los niños apedreen tus ventanas
Que te arranquen el pelo
Tose tose revienta en sangre tus pulmones
Que tus resortes enmohezcan
Y te veas pisoteado como césped de tumba

Pero soy vagabundo y tengo miedo que me oigas
Tengo miedo de tus venganzas
Olvida mis maldiciones y cantemos juntos esta noche
Hazte hombre te digo como yo a veces me hago mar
Olvida los presagios funestos
Olvida la explosión de mis praderas
Yo te tiendo las manos como flores
Hagamos las paces te digo
Tú eres el más poderoso
Que yo estreche tus manos en las mías
Y sea la paz entre nosotros

Junto a mi corazón te siento
Cuando oigo el gemir de tus violines
Cuando estás ahí tendido como el llanto de un niño
Cuando estás pensativo frente al cielo
Cuando estás dolorido en tus almohadas
Cuando te siento llorar detrás de mi ventana
Cuando lloramos sin razón como tú lloras

He aquí el mar
El mar donde viene a estrellarse el olor de las ciudades
Con su regazo lleno de barcas y peces y otras cosas alegres
Esas barcas que pescan a la orilla del cielo
Esos peces que escuchan cada rayo de luz
Esas algas con sueños seculares
Y esa ola que canta mejor que las otras

He aquí el mar
El mar que se estira y se aferra a sus orillas
El mar que envuelve las estrellas en sus olas
El mar con su piel martirizada
Y los sobresaltos de sus venas
Con sus días de paz y sus noches de histeria

Y al otro lado qué hay al otro lado
Qué escondes mar al otro lado
El comienzo de la vida largo como una serpiente
O el comienzo de la muerte más honda que tú mismo
Y más alta que todos los montes
Qué hay al otro lado
La milenaria voluntad de hacer una forma y un ritmo
O el torbellino eterno de pétalos tronchados

He ahí el mar
El mar abierto de par en par
He ahí el mar quebrado de repente
Para que el ojo vea el comienzo del mundo
He ahí el mar
De una ola a la otra hay el tiempo de la vida
De sus olas a mis ojos hay la distancia de la muerte.

Vicente Huidobro

***
Monumento al mar forma parte de los Últimos poemas, publicados por su hija Manuela en 1948, poco después de su muerte, y que recoge parte de los numerosos textos inéditos que dejó el poerta.
poema retirado deste lugar -Elena Soto

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Infância

Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…


mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?

( ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)




( à memória de Anabela Mafalda, com muita dor)

Em todos os ramos
por onde pousaste

reclinei-me de frio.



Armando Artur
1962


Armando Artur João nasceu em 1962, em Alto-Molocué. Pertence à Direcção de Associação dos Escritores, de que é actualmente secretário- geral. É um dos poetas revelados como o Movimento Charrua. Livros de poesia: Espelhos dos dias (1986) o Hábito das manhãs ( 1990), Estrangeiros de nós próprios ( 1996) e os Dias em riste ( 2002)

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Hoje não escrevo



Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.

E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

(enviado pela Maria Gomes)

A NOITE DO DIA DE FESTA

A NOITE DO DIA DE FESTA – Leopardi


Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando ao longe, os montes.
As ruas e caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
- E à antiga natureza onipotente
Que me volta à aflição – dirijo os olhos.
“Para você, nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho,
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
( Menos eu, que nesse rol não compareço ).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Se penso em como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, e tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.


Tradução de Décio Pignatri

enviado por Marcela