quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

mesa de solidão


Mortas na boca as palavras demoram
A refluir aos lábios

Elas esperam que o Amor as ajude
Que o Amor lhes sirva
De ponte

Que o Amor lhes dê a conhecer
A boca que as espera


A ofegante boca que as espera .


RAUL DE CARVALHO
RAUL DE CARVALHO



Poeta português, natural do Alvito. Foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades. A obra deste poeta, onde se encontram evocações da sua infância alentejana, revela a sua ligação ao neo-realismo. A fidelidade ao humano e o estilo enumerativo e anafórico são marcas da sua poesia.

Os seus títulos englobam As Sombras e as Vozes (1949), Poesia, (1955), Mesa de Solidão (1955), Parágrafos (1956), Versos - Poesia II (1958), A Aliança (1958), Talvez Infância (1968), Realidade Branca (1968), Tautologias (1968), Poemas Inactuais (1971), Duplo Olhar (1978), Um e o Mesmo Livro (1984) e Obras de Raul de Carvalho — I — Obra Publicada em Livro (editada postumamente em 1993). Recebeu, em 1956, o Prémio Simón Bolívar, do concurso internacional de poesia realizado em Siena, Itália.Fonte da biografia: www.astormentas.com/

coração sem imagens


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ainda assim


toda saudade é bruma
e ainda assim
dói

saudade é como viajar
num barco que se perdeu


Adelaide Amorim



in "INSCRIÇÕES"

poema para a Maat



Mulher bela de coração aberto,
Tua mirada é clara e perfeita.
Na tua poesia quase onírica, quase etérea,
Convergem todas as coisas,
Rosas vermelhas como feridas.
Desertos e campos em flor.
Música das mais altas esferas.
Mulher de uma só peça.
Criatura anjo, sempre eterna.
Mulher de uma cristalina sapiência.
Mulher, em toda sua substância e beleza.


Luis Enrique


in MI PLANETA X

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

da Poesia



"A fala aponta sempre uma coisa, como um dedo ou aceno. Só que, se a coisa é muito importante e nova de dizer, a fala nunca chega exactamente àquilo que visava de início. O que chega pode ser até muito importante, e novo também. Mas fica ao lado da primeira coisa. E todas essas coisas mal ou bem apontadas ou agarradas – existem. É como o amor que nunca erra: só fica, quase sempre, mesmo ao lado, porque nunca há perfeita correspondência dual. Por isso é que é precisa a poesia, pois a correspondência social tem mais probabilidades de, ocasionalmemte, ficar mais perto do indigitado, ou de encontrar sucedâneos melhores: é um amor transitivo, continua sempre avante, de pessoa em pessoa."


Óscar Lopes


do blog TERREAR

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

BOUDU SALVO DAS ÁGUAS


O meu caminho é o caminho do vento
Que nunca sabe de si próprio.



Construir para quê
Se a casa será sempre uma prisão
Onde habitam três estrelas tristes
E o ruído da lua



E a vida e o amor
Têm o tempo de um
Relâmpago?


Henrique Dória

contemplação da nuvem



A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem passando.
E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens.

A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem. Passando.

António Brasileiro



“Poeta e pintor: é assim que Antônio Brasileiro gosta de se definir. Mas não são essas poucas palavras que melhor o definem. Nome expressivo da poesia brasileira atual, ensaísta e ficcionista, Brasileiro é também figura de destaque como agitador cultural. Mente multifacetada, o seu raio de acção inclui, além da literatura e das artes plásticas, um sólido estudo de filosofia. Com vinte e duas obras publicadas (poesia, ensaio, conto, romance, teatro), divide o resto do tempo entre o amor pelos livros e a música, a prática do ténis e o cultivo do ócio.”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

não leias odes, meu filho




não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito

e são meticulosos por ti.


«Para um Livro de Leituras Escolares»
Hans Magnus Ensenberger

Poesia do século XX
(de thomas hardy a c.v. cattaneo)
Editorial Inova - 1978
Tradução: Jorge de Sena.


Magnus Enzensberger (11 de novembro, 1929 em Kaufbeuren) é poeta, ensaista, tradutor e editor alemão. É também escritor sob o pseudônimo de Andreas Thalmayr, Linda Quilt, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang
Entre 1965 e 1975 foi membro do Grupo 47.
Em 1965 criou a revista «Kursbuch» e desde 1985 edita a série literária Die andere Bibliothek.

( enviado por Amigo)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

FINALMENTE



Demorou...
mas agora sei que sou
vidoeiro e elefante,
couve-flor e cotovia,
carvão, terra e borboleta,
eucalipto e pantera,
cebolinho e peneireiro,
granito e libelinha,
acácia e cavalgadura,
pojo, cardo e andorinha,
pedra mármore e formiga,
palmeira e rinoceronte,
mocho, papoila, urubu, ...
até sou o horizonte!

Demorou...
mas agora sei que sou...
que sou vento,
sol e chuva
e excremento,
ar,
montanha e mar.
Sou tudo o que já acabou,
tudo o que há-de começar.
Agora sei o que sou,
finalmente.

Pobre de quem é só gente!



Sérgio O.Sá
In: "Diário de um Marginal"
Dezembro de 2005

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

os mortos


os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça


Ferreira Gullarouvir Aqui

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Auto-retrato falado




Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.


Manoel de Barros

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

***



Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou

de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me

deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses do sufoco, o vento chegava em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.

O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas por
homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,

refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?


Victor Oliveira Mateus (Lx, 09/2/6)
.
in a dispersa palavra

sábado, 7 de fevereiro de 2009

aniversário da morte de Dante



Aniversário da morte
de Dante – no meu cabelo
estrelas, rosas e centopéias


Nana Naruto



Haicai traduzido por Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi,
publicado na Revista Poesia Sempre,
da Biblioteca Nacional,
ano 10, número 18.


( enviado por uma Amiga )