quarta-feira, 18 de março de 2009

soneto





Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.





Carlos de Oliveira in
A Leve Têmpera do Vento,
Quasi

Mania da Solidão




Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.


Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite,
Livros Cotovia








terça-feira, 17 de março de 2009

Você, antes e depois






Antes,
era a exuberancia que te atraia
Você idolatrava a exuberancia
- rolava na exuberancia.
Se alimentava da exuberancia - e,
do alimento em você,
a exuberancia,
você não precisava de mais nada...
A exuberancia não estava
em seu coração,
em seu pensamento...
jazia em seu sexo,
e eu me sentia feliz,
enjaulada em seu sexo.
Num momento
em que por instantes,
fugi,
você dividiu nossas vidas.
Hoje,
estamos um diante do outro.
Mas,
nossas sombras,
nossas almas,
se sorvem mais que a exuberancia,
porque agora,
nem o Tempo, nem a Historia,
nem existe Vida,
que nos separe.


clarisse de oliveira

sábado, 14 de março de 2009

não nos peças a palavra




[NÃO NOS PEÇAS A PALAVRA]
Eugenio Montale





Não nos peças a palavra que acerte cada lado
de nosso ânimo informe, e com letras de fogo
o aclare e resplandeça como açaflor
perdido em meio de poeirento prado.

Ah o homem que lá se vai seguro,
dos outros e de si próprio amigo,
e sua sombra descura que a canícula
estampa num escalavrado muro!

Não nos peças a fórmula que possa abrir mundos,
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Hoje apenas podemos dizer-te
o que não somos, o que não queremos.

(Tradução: Renato Xavier)




Eugenio Montale - Non Chiederci la Parola: videoclipe no YouTube
com a voz do ator Vittorio Gassman lendo o poema.
Clique na seta para assistir ao clipe.


[NON CHIEDERCI LA PAROLA]

Non chiederci la parola che squadri da ogni lato
l'animo nostro informe, e a lettere di fuoco
lo dichiari e risplenda come un croco
perduto in mezzo a un polveroso prato.

Ah l'uomo che se ne va sicuro,
agli altri ed a se stesso amico,
e l'ombra sua non cura che la canicola
stampa sopra uno scalcinato muro!

Non domandarci la formula che mondi possa aprirti,
sì qualche storta sillaba e secca come un ramo.
Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.




daqui

quem pensa na casa





QUEM PENSA NA CASA



Morar numa casa. Numa casa com asas. Voar lá dentro, para fora. A casa em que você mora, em que você ri e chora, em que você ama e dorme, come e brinca, lê e escreve, pensa e morre. A casa para a qual você corre no fim do dia. Na casa, teto e paredes, escada e jardim, banheiro e cozinha, quintal e copa, sala e quartos, janelas e portas.

Na casa, você conversa com aqueles que ama e admira. Você faz versos. Você se veste e se despe. Você recepciona e se despede. Na casa, você anda descalço, toma remédio, toma café, troca lâmpada, lava louça, tira soneca, vê TV, xinga político, beija filhos, faz de tudo um pouco.

Não há casas perfeitas. Em toda casa falta um copo, falta uma linha, um motivo a mais de segurança. Em toda casa há um fantasma, pequeno que seja, num canto, gemendo, assombrando nossa imaginação.

Quem pensa na casa já está morando ali. Quem pensa na casa leva o pensamento longe demais. A casa voadora atravessa o tempo, bebe do passado, afugenta o presente, pisca um olho para o futuro.

Minha casa não é esta ou aquela. A casa definitiva não se deve construir no meio da ponte. A vida é ponte que nos leva para além do poente. Mas enquanto estamos a caminho, é bom ter uma casa onde possamos entrar para descansar as pernas.

A casa possível jamais será a casa ideal. A ideal não tem nada de mau. A casa ideal já existe. Eu é que ainda não recebi as chaves. A casa ideal foi edificada com materiais eternos. A casa ideal flutua divinamente.

Por enquanto, preciso da casa possível. A imperfeita casa, na qual baratas entrarão. Na qual encontrarei rachaduras. Na qual sentirei por vezes calor excessivo, frio, tédio, medo, solidão, angústia.

Casa, casinha, casarão. Casa pedindo reforma. Casa vulnerável. Casa aconchegante. Casa que um dia cairá, casa à mercê da podridão, à mercê da maldade humana.

Estou pensando na casa, cheia de luz, livros, crianças, quadros, cores, sabores, perfumes, palavras, silêncios, verdades.

A casa também pensa em nós. Está aberta e trancada, vigiada e inocente, na rua movimentada, no beco, necessitada e indiferente, cercada de flores, no meio do deserto, habitada por segredos, cobiçada e desprezada, imagem perdida e reencontrada no horizonte.



Gabriel Perissé, in -Entre-textos

terça-feira, 10 de março de 2009

vazio




A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.


Augusto Frederico Schmidt



alguma poesia

sacode as nuvens





Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner Andressen

sexta-feira, 6 de março de 2009

GERÊS




Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram


Jorge de Sousa Braga


( gentilmente enviado por Amélia Pais)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Desfolh(e)ar o mar...


pétala a pétala
o mar
desfolha
o véu
de espuma
à areia
oferece
um jardim
de búzios


V Solteiro



in A Arquitectura das Palavras

queria


Quería remontar o misterio do mar,
Como um barco que o cruza,
Recolhendo peixes do infinito,
Como pérolas incrustadas.
Brisas nas ondas brancas,
Que rumoreiam um segredo azul.
Mar em remoinhos,
que abre a visão das marés.


Luís Enrique

in MI PLANETA X

poema de Hanshan


Se você quiser um lugar para descansar o corpo,
A Montanha Fria é boa para uma longa preservação.
Uma brisa subtil sopra no pinheiral denso;
Ouvido de perto, o som é ainda mais bonito,
Sob as árvores está um homem com o cabelo cinza
Furiosamente lendo livros Taoístas.
Por dez anos não pude voltar –
Agora esqueci por qual estrada vim.


Hanshan



terça-feira, 3 de março de 2009

Sacerdotisa



Sacerdotisa,
tu és o Santo Graal
com a Essência de Cristo.
Portadora de um Deus
sobre a Terra,
teus olhos não têm pupila,
são duas brasas numa tez de porcelana.
Seus longos dedos,
brancos como as penas das asas
da cegonha,
têm sempre as pontas unidas
diante de teu peito
onde encarcerado, palpita teu coração.
Não podes te ajoelhar diante do Cristo
que amas.
porque, portadora da Sua Essência,
tu és o imenso estojo em que o
embalas,
de um extremo a outro do Universo,
incenssando a Criação
com o perfume de seu Espirito
e fecundando as Almas,
com o Pólen de seu Renascimento Divino.



Clarisse


in- Clarisse de Oliveira

domingo, 1 de março de 2009

poema XLII



XLII

pesam as pedras em meus olhos
e sei que as fogueiras da noite
fazem crescer o pólen do coração


Maria Costa