quinta-feira, 30 de abril de 2009

FRANKLIN JONES



Se pudesse ter vivido mais um ano,
teria acabado a minha máquina voadora,
tomando-me com isso um homem rico e famoso.
Faz sentido, portanto, que ao artesão que adorna a minha lápide
lhe tenha saído algo mais parecido com um frango.
O que é a vida, no fundo, senão sair do choco
para correr no quinteiro
até ao dia da degola?
A diferença é que o homem tem um cérebro de anjo
e desde o princípio vê o machado.


Edgar Lee Masters - Spoon River


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Já não somos mais poetas





Já não somos mais poetas
Somos corvos

Já não somos mais poetas
Somos corvos

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos as linhas de cima

telefónicas

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos-te

por cima dos fios

de electricidade

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos-te

empuleirados nas antenas

de televisão

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E vemos-te lá dos campos onde nós respigamos
Assim que tu passas com

o teu carro e vais
pagar-te o direito
de circular
num carro

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E vemos-te entrar nas escolas nos Domingos de Maio
E pisar onze papeis
Para designar o chefe de uma multidão
Somos corvos

Não temos chefe

As estações
conhecem-nos
Elas nunca te viram

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E ao que parece vivemos muito tempo, hein!

Tu nunca o vais saber

Preferes meter entre ti e nós

um pára-choque
de aplausos, de razões de ser
conselheiros do Findo de Desemprego, fios, fios, fios,

Preferes meter entre ti e nós

livros
dias
e René Char sob o plástico

debaixo de dois DVD porno

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E as línguas não nos prendem
As línguas desligam-nos e nós desligamo-las
É impossível fazerem-nos reféns ao mesmo tempo que uma língua

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E, às vezes, encontramo-vos

A três, a sete ou a cem mil

Lá onde tu nunca irias imaginar

Uma algazarra doida

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E estoiramo-nos os olhos a nós próprios
Para escapar à tirania do arco-iris
E para libertar o espectro

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E andamos atrás de ti
Quando estás seguro do teu caminho com o teu fio
Quando tu lhe explicas a vida

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E entraremos pela tua janela uma noite

Para que te tornes louco
E a todas as tuas perguntas
Responderemos

Nevermore


Thomas Nispola


(Tradução do francês de Tânia Ribeiro)



Obs.Thomas Nispola, voz contemporânea de Toulouse, dá-nos a conhecer os seus versos repletos de inquietude.

vale a pena ler


Um poeta provinciano


Os Prémios recebidos revolucionaram a vida pacata deste autor que se define como um "poeta provinciano ". Participante na Guerra Civil Espanhola, António Gamoneda garante que agora procura buscar momentos de tranquilidade no meio de todas as suas viagens e actos honoríficos. "Agora, acontece que me encapsulo para trabalhar até nos comboios", comenta. Uma destas viagens acaba por o trazer a São Roque (Andaluzia), antes de seguir para a Grécia, Itália e para alguns países Árabes. Gamoneda pesa bem as suas palavras antes de falar, controla o seu vocabulário com um ritmo lento. Todavia, a sua lucidez contraria o rosto enrrugado. Rugas provocadas por décadas de literatura e das lembranças de infância, cujo registo – sob forma de memórias – verão a luz do dia nas semanas que se seguem. « Elas estão teoricamente acabadas, mas eu conheço-me bem e sei que a qualquer momento posso não as corrigir, mas voltar a reescreve-las novamente. O texto espera pela chegada de um relatório jurídico favorável, porque nestas memórias, onde as verdades não se escondem – mesmo aquelas que jogam contra mim -, falam também de factos impotáveis a terceiros», confessa. Que pensa este poeta já com alguma idade dos fenómenos como a internet ou a globalização? «Nunca vi uma única página da Internet. Não sei o que é. Creio que no campo, um poeta pode encontrar a medida justa da solidão que precisa. Sem que para isso se desprenda ou se oponha aos sentimentos de amizade e de solidariedade intrínsecos às relações humanas, em geral. » No entanto, a solidão é predominante na sua vida. « penso que um poeta tem necessidade de solidão, de silêncio, de folhas em branco. »



Testemunho da Guerra Civil Espanhola


Dos tempos difíceis da Guerra, este homem de letras lembra que via passar, debaixo da sua janela, todos os dias, longas filas de prisioneiros. «mas nunca os via regressar”. António Gamoneda recorda, ao mesmo tempo, o choro inconsolado das mulheres, quando, a meio da noite, lhes desviavam os maridos. Estas experiências, aliadas a condições de vida modestas, levaram António Gamoneda, a forjar uma visão particular de existência, que o conduziu, nos anos 50 do século passado, à geração da poesia social espanhola, para depois de separar dela e desligar-se de todos os movimentos ou etiquetas do universo da escrita. « A poesia é uma arma carregada de futuro, ecrevia o mítico poeta espanhol Gabriel Celaya. O pobreGabriel Celaya, excelente pessoa, aliás, não se dava conta, que ele dizia praticamente a mesma coisa que José Antonio Primo de Rivera, o principal pensador do fascismo espanhol e que afirmava que só os poetas eram capazes de mudar os povos’. As duas coisas são falsas. Gostava que fosse assim, mas a realidade é outra. A poesia não é capaz de inspirar as mudanças sociais ou históricas. Não é um instrumento. A poesia lima e intensifica as consciências. Ela cria uma qualidade de pensamento ligada à observação e à critica, com o desejo que isso seja simultaneamente bonito e justo. »


A vida dos cheiros


No seu mundo privado, nas suas memórias intituladas Un armario lleno de sombras (Um armário cheio de sombras ) surge sempre uma imagem , um cheiro, que torna a vida um ser já morto. Um perfume sai deste armário e António não hesita em recorda-lo: «A minha mãe morreu e este armário ficou fechado durante dois ou três anos. Certo dia em estava em casa e decidi abri-lo. O que estava lá dentro era uma grande escuridão. O próprio quarto estava emergido na escuridão, não recebi um único foco de luz, estava cheio de sombras. Mas o que eu recebi desse armário, foi uma sensação, uma das experiências mais marcantes da minha vida. Mal enfiei a cabeça lá dentro, pude recuperar imediatamente o cheiro da minha mãe quando ela estava viva. O cheiro dela tinha ficado lá, impregnado. A minha mãe tinha morrido há três anos e eu pude sentir o seu cheiro Foi muito comovente. De uma forma ou de outra, a redescoberta do conteúdo desse armário, permitiu-me recuperar as minhas próprias memórias. »


in " Balão de poesia"

as quantidades de tempo



As quantidades de tempo
situam as quantidades de sons.
Oiço-os para lá da morte.

A música eleva-se
de um poço de silêncio;
é lavoura de ar
em tímpanos de fogo

e isso entrou em mim.
E agora a música é o meu pensamento


António Gamoneda


Caí sobre uma mãos



Caí sobre uma mãos
quando não sabia
ainda que vivia nas mãos
Elas passaram sobre o meu rosto e o meu coração.

Senti que a noite era doce
como um leite silencioso. E grande.
Muito mais que a minha vida.

Mãe :
Eras as tuas mãos e a noite juntas.
Aqui está o porquê da solidão gostar de mim.

Eu não me lembro, mas está comigo.
Existe, no esquecimento
Encontram-se as mãos e a noite.

Ás vezes,
Quando a minha cabeça se debruça sobre a terra
Não posso mais e está vazio
o mundo. Algumas vezes, sobe o esquecimento
até ao coração.

Eu ajoelho-me
Para poder respirar sobre as tuas mãos.

Eu desço
e tu escondes o meu rosto; e eu sou tão pequenino;
e as tuas mãos tão grandes; e a noite
vem mais uma vez, vem mais outra.

Eu descanso
de ser um homem, eu descanso de ser um homem.


António Gamoneda


sábado, 25 de abril de 2009

lamento de menino triste




O azeite ainda se agarra
às paredes do frasco depois de esvaziado.
A água, leve, esvazia-se rápido,
às vezes até evapora, e não deixa resíduo,
nada se gruda à parede do frasco.
Ó mãe, faz permanecer em mim a água da alegria
e me livra do azeite do desengano.

Ronaldo Costa Fernandes


(poema enviado gentilmente por Walter Moura)

antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero o esplêndido de onde emerge a sintaxe,os sítios escuros onde nasce o "de",
o "aliás",o "o" o "porém", e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia.
Quem entender a língua entende Deus cujo filho é o verbo.
Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça,infrequentíssimos, se poderá apanhá-la:
um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.



Adélia Prado

quarta-feira, 22 de abril de 2009

nunca soube lançar o pião


Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores:aprendizes
de ladrões, de proxenetas,

arrumadores. nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma

a mão,acima do solo
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. e foi tudo.



in " A Irresistível Voz de Ionatos" de Victor Oliveira Mateus


Grandes são os desertos




Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.


Álvaro de Campos

sabedoria


"O mérito verdadeiro é como um rio: quanto mais profundo, menos ruidoso é".

Lord Halifax

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pedro Foyos



Sobre o autor

Pedro Foyos

Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1945. Perfazendo uma carreira profissional de mais de quarenta anos como jornalista e director de publicações, se dedica também, atualmente, à literatura de ficção e de divulgação de temas das Ciências da Natureza. De entre os órgãos de informação onde trabalhou se destacam o diário República (único jornal de oposição à ditadura de Salazar) e o Diário de Notícias. Neste jornal de referência na imprensa portuguesa integrou a direção de redação, sendo responsável, nomeadamente, pela revista dominical e edições especiais. Fundou a revista Nova Imagem, da qual foi director durante seis anos, e mais tarde a coleção Grande Reportagem.
Foi presidente durante uma década da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, tendo nesse período fundado e dirigido o Anuário Português de Fotografia.
É autor dos livros O Jornal do Dia e A Vida das Imagens. Organizou, a convite da Imprensa Nacional, uma antologia histórica, em dois volumes, consagrada a grandes momentos do jornalismo português no século XX. Estreou-se na ficção com O Criador de Letras ,um romance inspirado no tema da criação do alfabeto, tendo como cenário a vida quotidiana no Antigo Próximo Oriente.

Interessado desde muito novo pelos temas científicos, fundou o Centro de Estudos das Ciências da Natureza, ao qual continua ligado honorariamente e prestando colaboração na área da Botânica.
No campo do ensino e formação tem vindo a orientar estágios profissionais de Tecnologias de Comunicação na especialidade de Psicologia da Leitura.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CONFISSÃO A MAAT






"Honra a Ti Grande Deus, Mestre de toda Verdade!
A Ti venho, meu Deus, e me ponho na Tua presença
a fim de tomar consciência dos Teus decretos,
Eu Te conheço e comungo Contigo e com as Tuas quarenta e duas leis
que existem Contigo nesta Câmara de Maat...
É em Verdade que venho comungar Contigo e Maat está presente
no meu pensamento e na minha alma.
Por Ti destruí a maldade.
Não fiz mal à humanidade.
Não oprimi os membros de minha família.
Não forjei o mal em lugar da Justiça e da Verdade.
Não me relacionei com homens indignos.
Não pedi para ser considerado o primeiro.
Não obriguei ninguém a um trabalho excessivo para mim.
Não coloquei o meu nome na frente, para ser elevado às honrarias.
Não privei os oprimidos dos seus bens.
Não fiz nenhum ser humano passar fome.
Não fiz nenhum ser humano chorar.
Não infligi nenhum sofrimento a qualquer ser humano ou a animal.
Não privei os templos das suas oblações.
Não falseei as medidas.
Não me apossei das terras de outrem.
Não fraudei nenhuma terra.
Não alterei os pesos da balança para enganar o vendedor.
Não falseei a indicação da agulha para enganar o comprador.
Não tirei o leite da boca das crianças.
Não reprimi a água no momento em que ela devia correr.
Não apaguei a chama quando ela devia brilhar.
Não repeli Deus nas Suas manifestações.

Eu sou puro!
Eu sou puro!
Eu sou puro!
Minha pureza é a pureza da Divindade do Templo Sagrado. Por isso o mal não me atingirá neste mundo, porque eu, eu mesmo, conheço as leis de Deus, que são Deus.

Cro-Maat!"


domingo, 12 de abril de 2009

VII - A vida gira







a vida gira como tudo gira
e tem cores
como as do céu
árvores em chamas verdes

um polén
que faz dormir o vento



o amanhecer do lótus
que perfuma
a morte





in " escrito na pedra"