sábado, 27 de junho de 2009

o que o jardineiro disse a Mrs. traill



_ E agora é tão pobre a poesia que publicam.
Mas nos velhos tempos não era assim,
Pois outrora foi a linguagem da dor humana,
E, na língua dos anjos, a dessa causa
Pela qual arderam grandes almas, e os carvalhos floresceram.
Eu, que sou amigo dos amarantos, reconheço
Um bálsamo nesse nome, um bálsamo para estas praias.
Mas agora usam palavras difíceis para coisas simples,
Para as flores silvestres, e para as flores do lago.
Folha da alegria, estrela em chamas, são palavras que hoje
Pouco nos tocam, embora tenham sementes em forma de asa,
Se os pobres pecadores como eu falarem
Com Deus que humildemente pronuncia esses nomes com amor.



in "AS CANTINAS E OUTROS POEMAS DE ÁLCOOL E DO MAR",
Malcom Lowry
Selecção e tradução de José Agostinho Baptista


quinta-feira, 25 de junho de 2009

a alquimia do verbo


A mim. A história de mais uma das minhas loucuras. De há muito que me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e que acho ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amei pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem caligrafia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingénuos, ritmos simplicíssimos.

Sonhei com cruzadas, com viagens de descobrimento das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, custe o que custar, a todos os sentidos. Guardei a tradução.

Era acima de tudo um esboço. Escrevi os silêncios, as noites. Anotei o indizível. Firmei vertigens.




ARTHUR RIMBAUD

quarta-feira, 24 de junho de 2009

jardim antigo




um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas

aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos

somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a vêem

à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis

as flores dormem

as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem

ROGEL SAMUEL



in ROGEL SAMUEL- novos poemas

terça-feira, 23 de junho de 2009

devíamos




Devíamos nascer velhos,
despertos, capazes de decidir
nosso destino na Terra,
saber que caminho tomar
desde a primeira encruzilhada
e que irresponsável fosse apenas
o desejo de ir mais longe.
Depois, pormo-nos a caminhar,
cada vez mais jovens,
alcançar maduros e fortes
as portas da criação,
atravessá-las e entrar apaixonados
na adolescência,
sendo crianças quando nos nascessem os filhos.
Estes seriam assim sempre mais velhos que nós,
ensinando-nos a falar
e embalando-nos para dormir,
desapareceríamos pouco a pouco,
cada vez mais pequenos,
como um grãozinho de uva, de ervilha ou de trigo...



Ana Blandiana
(Trad. A.M.)

eu não voo


Eu não voo
ando

quero que me oiçam

mas também não sou
das rãs que coaxam



António Reis - Novos Poemas Quotidianos,
pág. 11, Porto, [1959]



sexta-feira, 19 de junho de 2009

a maior solidão



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


Vinicius de Moraes



sexta-feira, 5 de junho de 2009

reflexão


Basta uma lágrima cheia
De uma saudade de tudo


Afonso Lopes Vieira

cada um que passa em nossa vida


Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho ...
Porque cada pessoa é única pra nós,
E nenhuma substitui a outra...
Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho,
Mas não vai só...
Cada um que passa em nossa vida,
Leva um pouco de nós mesmos,
E nos deixa um pouco de si mesmo...
Há os que levam muito,
Mas não há os que não levam nada...
Há os que deixam muito,
Mas não há os que não deixam nada...
Esta é a mais bela realidade da vida.
A prova tremenda da importância de cada um,
É que ninguém se aproxima do outro por acaso....


Antoine de Saint-Exupéry