sexta-feira, 16 de julho de 2010

O DESTINO DAS ROUPAS






No cesto da roupa suja
de qualquer quarto do mundo
uma mãe saberia reconhecê-las.


Suportaram as investidas do tempo,
as agressões do lixo,
os estragos do primeiro amor
os rasgos da primeira contenda,
as nódoas da fruta,
os espinhos da rosa,
a rosa do amor,

o vómito amargo de sábado à noite,
o sangue do amigo no carro desfeito.



© 2006, Rui Lage

De: Revólver
Ed.Quasi, V. N. Famalicão, 2006
ISBN: 989-552-221-5

quinta-feira, 15 de julho de 2010

o cúmplice






Crucificam-me e eu devo ser a cruz e os cravos.
Passam-me o cálice e eu devo ser a cicuta.
Enganam-me e eu devo ser a mentira.
Incendeiam-me e eu devo ser o inferno.
Devo louvar e agradecer cada instante do tempo.
Meu alimento é todas as coisas.
O peso preciso do universo, a humilhação, o júbilo.
Devo justificar aquilo que me fere.
Não importa minha ventura ou desventura.
Sou o poeta.

Jorge Luiz Borges
trad. josely vianna baptista

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo