quarta-feira, 27 de abril de 2011

dia de hoje



Entrego-me à volúpia dos símbolos
Dá-me prazer roubar equações
Olhar por dentro como é feito o mundo
Entreter o pensamento com hieróglifos de vento.
O rapaz a quem dou estas e outras explicações
Cheira mal da boca.
Começo então a fumar o meu cachimbo
E vão surgindo soluções a cada passo invisível
Que acompanha os sucessivos traçados na folha.
Assim no papel. Assim na vida.
Vai então crescendo um nevoeiro entre mim e o rapaz
que tem uma prótese nos dentes,
e vem aprender qualquer coisa a três dimensões.
(talvez para endireitar as raízes da família
ou para encontrar o pai que se suicidou, era ainda pequeno.)
Foi certamente uma sirene de símbolos
que o trouxe aqui.

Arre!, este dia de calor deveria ser forrado
com mais vetores e equações.
Felizmente hoje não trouxe a minha tesoura de podar
Para ajustar a relva aos símbolos...



Samuel Prado



sábado, 23 de abril de 2011

o acto de ler

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa Jardim



in: Resumo, a poesia em 2011, Ed. Assírio e Alvim/FNAC,
 Lisboa, Março 2011