domingo, 29 de maio de 2011

Poema pouco original do medo



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Alexandre O'Neill


terça-feira, 24 de maio de 2011

Poeta




Está a trabalhar agora, numa sala
que não é diferente desta,
onde escrevo, ou aquela em que lês.
A mesa está coberta com papéis.
A luz do candeeiro seria
suavizada por um abajur, onde
a sua crueza única se pudesse diluir,
mas não é; ela tirou-o.
Os seus poemas? Nunca os perceberei bem,
embora sejam aqueles de que mais preciso.
Nem o próprio alfabeto que ela usa
eu consigo decifrar. A sua cadeira -
imaginemos se é de pele
ou lona, de vinil ou verga. Deixemos
que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur,
a mesa. Que um ou dois daqueles que ama
estejam no quarto ao lado. Porta fechada
e de boa saúde os que dormem.
Dêmos-lhe tempo, e silêncio,
papel que chegue para cometer erros e continuar.



Jane Hirshfield
tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho


 http://www.triplov.org/novaserie.revista/numero_15/jane_hirshfield/index.html

quinta-feira, 5 de maio de 2011

apocalipse



virei
reiteradamente
como as estações das flores
virei como o animal ou o corsário
semear o vento que vos lembre a morte
(e vós que vos fechais em vossa vã imagem e vossos trapos,
vós que adorais Deus olhando-vos ao espelho,
tremei de vosso assento de carne fustigada
há muito que Ele deixou às vossas portas as sandálias)
virei na eclosão das vagas
envolto em tudo quanto a vida trabalha
virei no desregramento do vento
e em vosso pasmo
assim eu cante o vinho
que sobe o rio às costas dos vindimadores
virei no circuito da palavra
que se quebra como um ramo de água
e deixareis as armas para falar sem ritos
morre-se quando de nós ficam ficaram restos
que ninguém recolhe
virei no som de Stockhausen
e quantos desconstruíram a harmonia
e o mundo antigo
para que habiteis o tempo
como quem habita as fontes
cheios de barulhos por dentro
como o vinho
à cabeça das vindimadeiras


in: http://triplov.com/semas/2010/Nome/index.htm



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Meninas

 (a Paula Rego)



 Saem da treva
 as amas


 sentam-se em
bancos
pequenos

 bem juntinhos
 à lareira


 abrem os cestos
 de fruta
que são caixas
 de costura


 linhas de côr
 e agulhas
 vão bordar um pano
 branco


 saltam faúlhas
 vermelhas

ouve-se o grito
 rasgado


 foge o gato
 da tesoura


 lá no fundo
uma menina
 com o seu avental
de pranto




 Outonais (poemas 2005-2010),
Yvette K. Centeno
in http://www.poemsfromtheportuguese.org/121Yvette_KCen.asp