domingo, 24 de julho de 2011

o meu verdadeiro espírito




O meu verdadeiro espírito, qual é?
Não te posso dizer.
Vê apenas a neve e o orvalho
das montanhas.




Dogen Zenji (1231-1253)

Portugal




Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar poker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projeto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



Jorge de Sousa Bragain "O Poeta Nu"

domingo, 17 de julho de 2011

ENTRE CAIXÃO E BERÇO





Mãe, quando, um dia, eu voltar de vez,
fico aqui contigo para sempre.
Quando abraçar a velha soleira
e beijar as santas árvores de antigamente
e, cansado, lágrimas tremendo,
em teus olhos olhar.

Espera, então, por mim, que uma noite virei.

Será Outono, sei, luz púrpura ziguezagueia,
fulva luz nocturna.
A grande porta de ferro, troando, há-de fechar-se de tal modo,
Que a velha casa ,fria, tremerá
de medo.

Mas tu não receies, vem ao meu encontro, suavemente,
por mais medonho e branco que eu seja,
aperta-me nos teus braços, não busques o coração,
que inunda o sangue feio e preto,
olha só para os meus olhos dormentes e baços,
acaricia-me a cabeça, em silêncio.
Eu nem sequer te contarei como vivi
entre beijos ulcerados , na noite clara,
olhar-te-ei somente, como no passado,
então compreenderei que tu és o início
e tu és o fim.
Mudo,deitar-me-ei na grande cama branca,
eu, velho bebé que falar não sabe,
e do coração aos lábios sobe, vibrante,
a ida melodia da minha vida.
Tu escutas,como quem vela junto ao berço,
eu devaneio, sorrindo, triste,
e, hesitante entre o caixão e berço,
fias minha branca coroa de flores.
Passou quase a noite,em repetidos suspiros;
Curando, franze teu abençoado sorriso;
E,em lágrimas,com flores e uma canção muito antiga,
Cantas a morte do teu pobre filho.


Kosztolányi Dezső (1907)
Tradução de Ernesto Rodrigues






quarta-feira, 6 de julho de 2011

a maré do meu amor




A maré do meu amor
Subiu tão alto;
Deixa-me fluir sobre ti.
Fecha os olhos por um momento
E pode ser que todos os teus medos e fantasias
Acabem.
Se isso acontecesse
Deus tornar-se-ia numa criança em teus braços.
E depois,
Terias que cuidar de toda a criação.