terça-feira, 17 de julho de 2012

Salmo





Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti


Jorge Sousa Braga

in "O NOVÍSSIMO TESTAMENTO e outros poemas", Assírio & Alvim
Lisboa, Abril de 2012



Sem comentários: