quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEQUENO EXERCÍCIO - Elizabeth Bishop

(para Thomas Edwards Wanning)



Pense na tempestade vagando no céu, inquieta,
como um cão procurando um lugar para dormir,
ouça o rugido dela.

Pense como devem estar agora as ilhotas no mangue,
lá longe, indiferentes aos relâmpagos,
formando famílias escuras, de fibras grosseiras,

onde uma garça vez por outra despenteia-se,
arrufa as penas, faz um vago comentário
quando reluz a água a seu redor.

Pense na avenida e nas palmeirinhas todas
enfileiradas, reveladas de repente
como punhados de esqueletos de peixes.

Lá está chovendo. A avenida
e as calçadas quebradas, com capim nas rachaduras,
estão aliviadas por molhar-se, e o mar por dessalgar-se.

Agora a tempestade vai embora numa série
de cenas curtas de batalha, mal iluminadas,
cada uma delas "numa outra parte do campo".

Pense em alguém dormindo no fundo de um barco a remo
atado a uma raiz de mangue ou uma ponte,
alguém ileso, quase imperturbado.



Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto

Sem comentários: