segunda-feira, 30 de abril de 2012

dez palmos acima da insignificância




vivo na cave do universo
a contar os buracos da lua
e as migalhas que caem
da mesa nua


os que por mim passam
fingem que não me vêem
vasculhando os restos
e o rasto das nuvens


vivo no estrume do subsolo
meio caminho escavado
entre as artérias da penúria
e o sangue da usura


os que a mim se chegam
com falas mansas e dentes como lanças
atiram-me que sou um fardo
um espinho cravado nos luminosos astros


ainda assim
eu ardo
dez palmos acima da insignificância


v. Solteiro

in" a arquitectura das palavras"

sábado, 28 de abril de 2012

A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012




de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada

e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade

foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas

ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade

legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa do operário

há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo

Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós

Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?



Jorge Castro
15 de Abril de 2012
sete mares