domingo, 20 de maio de 2012

Jardín de sombras




Hombres aniquiladores de la rosa:
Cultivan flores en desgracia.
Tendidos, a punto de latir.
Remotos, invisibles.
Inocentes de tanta claridad.
Sus párpados blancos son la huella del mar,
prendida a los remos del naufragio.
Cualquier día llegará a galope
una mujer vestida de dolor.
Marchará delante, como luz,
como tiempo roto.
Curva y tensa,
arañará el ardor de las tinieblas


Yirama Castaño
(Socorro, Colombia, 1964)




terça-feira, 15 de maio de 2012

o jogo em que andamos





Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que jogo com a morte.




juan gelmanversão de luís filipe parrado



sexta-feira, 11 de maio de 2012

CHOREI COM OS CÃES




Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada, estreita, iluminada pela lua cheia.
De repente, um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal, um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho:
- É pá, mataste um cão sem dono.
A lua cheia inundava o silêncio e eu levei-o ao colo para dentro do carro.
Quando cheguei a casa, só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e encarreguei-o de convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários, quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para cavar a sepultura, num canto da horta, onde espontâneas medravam hortelãs.
Todos reunidos no silêncio.
Um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou
em cima da sepultura.




Eufrázio Filipe



in  http://mararavel.blogspot.pt/


quinta-feira, 3 de maio de 2012

SAI DE CASA




Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar,deita-o ao lixo,
Para que venha o vento,o sol,a chuva,os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.


Manuel Resende