quarta-feira, 27 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

POEMA A MÁRIO CESARINY





(A Mário Cesariny)

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia!

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do
terceiro
Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam
Pregões de varina sem peixe
- peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA

António Maria Lisboa





quarta-feira, 20 de junho de 2012

privatize-se tudo




«Privatize-se tudo,privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago – (Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148)




terça-feira, 19 de junho de 2012

poemas políticos





Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


EGITO GONÇALVES
in "Poemas Políticos, 1952-1979"
Colecção CÍRCULO DE POESIA
MORAES EDITORES




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Táxi





Tenho vergonha de estender o braço
para chamar o táxi
tenho medo que ele me veja
tenho medo que ele me veja
e ainda assim
não pare.


Ana Cristina César



domingo, 3 de junho de 2012

Encontrei pessoas




Encontrei pessoas que,
quando se lhes perguntava o nome,
tímidas — como se não pudessem exigir
o direito a ter também um nome —
respondiam «Fraulein Christian» e depois
«como o nome próprio», queriam simplificar
a apreensão das coisas,
nenhum nome mais difícil do que «Popiol» ou «Barbadaterra» —
«como o nome próprio» — por favor, não sobrecarregue as forças da Memória!

Encontrei pessoas que
cresceram num quarto com pais e quatro irmãos,
e à noite, os dedos nos ouvidos,
aprenderam no fogão da cozinha
cresceram, lindas por fora e ladylike como condessas —
e por dentro suaves e aplicadas como Nausica,
e tinham a fronte pura dos anjos.

Muitas vezes me perguntei, sem nunca achar resposta,
de onde vêm a doçura e a bondade,
e hoje inda o não sei e tenho de ir-me embora agora.


Gottfried Benn
"50 Poemas", tradução de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, Janeiro de 1998