sábado, 25 de agosto de 2012

tenho de tratar das coisas- BARBRO DAHLIN





Tenho de tratar das coisas antes de partir.
Preciso de sapatos.
Preciso de uns bons sapatos.
Com solas de borracha.
Acho que isto vai ser duro.

Olhem para mim agora.

Vejo que me estou a aproximar com uma faca.
Vejo que me estou a aproximar com uma corda.
Alguma vez o tiro terá de ser disparado.
Importunei as pessoas com isto durante cinquenta anos.
Demorará meio segundo.

Porque é que me estão a olhar agora?

O amor não é para sempre.
Mas a morte é.
A morte é para sempre.

Adeus, vemo-nos mais tarde!



BARBRO DAHLIN (1940-2000)
Além de poeta e novelista, exercia psiquiatria.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Namorada







Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.


Carol Ann Duffy


(versão L. Parrado- original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Serenidade




Só há duas coisas : o meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência só se acende
quando o ser é contra ela:
e é assim que todo o conhecimento
e a matriz de toda a figura
é uma ferida,
e só quem chora
é imortal.
E a noite, mãe da sabedoria,
tem a forma inacabável do pranto.


Leopoldo María Panero
poema passado para português por LUÍS COSTA


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

e ainda me atrevo a amar





E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.

Em meu olhar o perdi todo.
É tão distante pedir. Tão perto saber que não há.

Alejandra Pizarnik