sexta-feira, 28 de setembro de 2012

é indecoroso ser famoso





É indecoroso ser famoso
Porque não é isso que eleva.
E não vale a pena montar arquivos
Nem perder tempo com manuscritos antigos.

O caminho da criação é a entrega total,
E não fazer barulho ou ter sucesso.
Isso, infelizmente, nada significa
E é como uma alegoria a viajar de boca em boca.

É preciso, porém, viver sem pretensões,
Viver de tal modo que no fim das contas
Um amor ideal nos alcance
E ouçamos o apelo dos anos que virão.

O que é preciso rever
É o destino, não velhos papéis;
Nem parágrafos e capítulos de uma vida
Anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
Silenciar nele os nossos passos,
Como foge a paisagem na neblina
Em plena escuridão.

Outros, nesse rastro vivo,
Seguirão o teu caminho passo a passo,
Mas tu mesmo não deves distinguir
Derrota de vitória.

E não deves nem por um instante
Recuar ou trair o que tu és,
Mas estar vivo, só vivo,
E só vivo — até o fim.


Boris Pasternak



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

VERÃO NA CIDADE
Conversas a meia voz,
E esse gesto impetuoso
Com que afastas os cabelos
De cima do teu pescoço.
E sob o brilho do pente
É que aparece o olhar,
Debaixo do capacete
Dos cabelos ondulados.
A noite quente, lá fora,
Faz prever um aguaceiro.
Dispersam-se os caminhantes,
Matraqueando os passeios.
Do estrondo da trovoada
Ouve-se rolar o eco.
E o vento faz ondular
As cortinas da janela.
Vem a seguir o silêncio
Mas sufoca-se, e não cessa,
Intermitente, a presença
Dos relâmpagos no céu.
Quando por fim a manhã,
Cintilante, vem secar,
Nas bermas e nas valetas,
A água da tempestade,
Só as tílias seculares,
Cheias de perfume e flor,
Nos olham com o olhar
De quem passou mal a noite.


Versos de Iuri  Jivago (1957)
Tradução de David Mourão-Ferreira