domingo, 16 de dezembro de 2012

Um homem passa com um pão ao ombro





Um homem passa com um pão ao ombro

- Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?

Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar da Psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a um menino
- Vou, depois, ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
- Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?

Outro busca no lodo ossos e cascas
- Como escrever, depois, sobre o infinito?

Um pedreiro cai de um telhado, morre, já não almoça
- Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?

Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica o seu balanço
- Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com um pé às costas
- Falar, depois, a ninguém de Picasso?

Alguém vai num enterro a soluçar
- Como em seguida ingressar na Academia?

Alguém limpa uma espingarda na cozinha
- Com que desplante falar do mais além?

Alguém passa a contar pelos dedos
- Como falar do não eu sem dar um grito?



CÉSAR VALLEJO (1896-1938)
Tradução – José Bento




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEQUENO EXERCÍCIO - Elizabeth Bishop

(para Thomas Edwards Wanning)



Pense na tempestade vagando no céu, inquieta,
como um cão procurando um lugar para dormir,
ouça o rugido dela.

Pense como devem estar agora as ilhotas no mangue,
lá longe, indiferentes aos relâmpagos,
formando famílias escuras, de fibras grosseiras,

onde uma garça vez por outra despenteia-se,
arrufa as penas, faz um vago comentário
quando reluz a água a seu redor.

Pense na avenida e nas palmeirinhas todas
enfileiradas, reveladas de repente
como punhados de esqueletos de peixes.

Lá está chovendo. A avenida
e as calçadas quebradas, com capim nas rachaduras,
estão aliviadas por molhar-se, e o mar por dessalgar-se.

Agora a tempestade vai embora numa série
de cenas curtas de batalha, mal iluminadas,
cada uma delas "numa outra parte do campo".

Pense em alguém dormindo no fundo de um barco a remo
atado a uma raiz de mangue ou uma ponte,
alguém ileso, quase imperturbado.



Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto