sábado, 9 de março de 2013

Alejandra Pizarnik







CANTORA NOCTURNA






(A Olga Orozco)



A que morreu sobre o seu vestido azul está cantando.
Canta imbuída de morte ao sol da sua ebriedade. Dentro da
sua canção há um vestido azul, há um cavalo branco, há um
coração verde tatuado com os ecos do pulsar do seu coração
morto. Exposta a todas as perdições, ela canta junto a uma
menina extraviada que é ela: o seu amuleto de boa sorte. E,
apesar da névoa verde nos lábios e do frio cinzento nos olhos,
a sua voz corrói a distância que se abre entre a sede e a mão
que procura o copo. Ela canta.



Alejandra Pizarnik ,

Do livro "EXTRACÇÃO DA PEDRA DA LOUCURA", com tradução de Miguel Filipe M., Editora Língua Morta

Música- Chopin - Nocturno en si bemol menor Op 9 Nº 1






quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ALGUNS PAPÉIS -Henrique Augusto Chaudon





ALGUNS PAPÉIS




Na terceira gaveta
a contar de cima
à esquerda da escrivaninha
guardo esperançoso alguns papéis.
Há também uma caixa com fotografias
quase antigas:
ensolaradas, cheias de vento, cheias de mar.
Nos papéis
escrevi poemas que penso um dia publicar
se eu for capaz de alguns reparos.
Quanto às fotografias
às vezes sinto que me chamam na noite
e já nada mais posso fazer.



Henrique Augusto Chaudon




NA BIBLIOTECA - Charles Simic






Há um livro chamado
Dicionário de Anjos.
Ninguém o abrira em cinqüenta anos.
Eu sei, porque quando o abri
as capas rangeram, as páginas
se esmigalharam. Ali descobri


que os anjos já foram tão numerosos
como espécies de moscas.
O céu ao entardecer
ficava coalhado deles.
Era preciso agitar os braços
para mantê-los a distância.


Agora o sol brilha
através das altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranqüilo.
Anjos e deuses se amontoam
em livros escuros não-abertos.

O grande segredo está
em alguma estante, junto à qual
a srenhorita Jones passa
em suas rondas diárias.


Ela é muito alta e mantém
a cabeça inclinada como se escutasse.
Os livros estão sussurrando.
Não ouço nada, mas ela sim.
Tradução: Carlos Machado Charles Simic