Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido. E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho, não me importa nada a minha salvação. Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão. Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências. As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra. Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas. A tua vida não terá sido inútil, se tiveres enxertado no teu coração a rosa do Amor ou se tiveres procurado ouvir a voz de Alá ou ainda se tiveres empunhado a tua taça sorrindo ao prazer. Dizem-me:«Não bebas mais, Khayyam!» Eu respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as túlipas e os jasmins. Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada. Retóricos e silenciosos sábios morreram sem terem podido entender-se sobre o ser e o não ser. Ignorantes, meus irmãos, continuemos a saborear o sumo dos cachos e deixemos esses grandes homens regalarem-se de uva-passas. ...