De mansinho ela entrou, a minha filha. A madrugada entrava como ela, mas não tão de mansinho. Os pés descalços, de ruído menor que o do meu lápis e um riso bem maior que o dos meus versos. Sentou-se no meu colo, de mansinho. O poema invadia como ela, mas não tão mansamente, não com esta exigência tão mansinha. Como um ladrão furtivo, a minha filha roubou-me a inspiração, versos quase chegados, quase meus. E mansamente aqui adormeceu, feliz pelo seu crime. Ana Luisa Amaral
Não me importa a palavra, esta corriqueira. Quero o esplêndido de onde emerge a sintaxe,os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",o "o" o "porém", e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia. Quem entender a língua entende Deus cujo filho é o verbo. Morre quem entender. A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada. Em momentos de graça,infrequentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. Puro susto e terror. Adélia Prado
Rudes e breves as palavras pesam mais do que as lajes ou a vida, tanto, que levantar a torre do meu canto é recriar o mundo pedra a pedra; mina obscura e insondável, quis acender-te o granito das estrelas e nestes versos repetir com elas o milagre das velhas pederneiras; mas as pedras do fogo transformei-as nas lousas cegas, áridas, da morte, o dicionário que me coube em sorte folheei-o ao rumor do sofrimento: ó palavras de ferro, ainda sonho dar-vos a leve têmpera do vento. Carlos de Oliveira in A Leve Têmpera do Vento, Quasi
Comentários
Obrigada Adelaide por esta pérola.
As pérolas são um elemento orgânico e natural e precisam de "respirar" assim o fez a Mariah, obrigada.
Saudade é como viajar
Num barco que se perdeu
E a vontade de marear
Merce que se pense no Eu
Pensar no Eu é esquecer
Que não há separatividade
Que todos provimos do SER
Que está alem da eternidade
E somos apenar manifestações
Dessa Causa sempre Incausada
Nessa busca em nossos corações
Pó das estrelas nessa estrada
Deixa-te ir mais além um pouco
Invadir pela música das esferas
Ama e torna a amar, não és louco
Só o amor percorre todas as eras
Um pequeno presente para si.
Um abraço
José António