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o meu verdadeiro espírito

O meu verdadeiro espírito, qual é? Não te posso dizer. Vê apenas a neve e o orvalho das montanhas. Dogen Zenji (1231-1253)

Portugal

Portugal Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente Portugal Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional (que os meus egrégios avós me perdoem) Ontem estive a jogar poker com o velho do Restelo Anda na consulta externa do Júlio de Matos Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas Portugal Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse da...

ENTRE CAIXÃO E BERÇO

Mãe, quando, um dia, eu voltar de vez, fico aqui contigo para sempre. Quando abraçar a velha soleira e beijar as santas árvores de antigamente e, cansado, lágrimas tremendo, em teus olhos olhar. Espera, então, por mim, que uma noite virei. Será Outono, sei, luz púrpura ziguezagueia, fulva luz nocturna. A grande porta de ferro, troando, há-de fechar-se de tal modo, Que a velha casa ,fria, tremerá de medo. Mas tu não receies, vem ao meu encontro, suavemente, por mais medonho e branco que eu seja, aperta-me nos teus braços, não busques o coração, que inunda o sangue feio e preto, olha só para os meus olhos dormentes e baços, acaricia-me a cabeça, em silêncio. Eu nem sequer te contarei como vivi entre beijos ulcerados , na noite clara, olhar-te-ei somente, como no passado, então compreenderei que tu és o início e tu és o fim. Mudo,deitar-me-ei na grande cama branca, eu, velho bebé que falar não sabe, e do coração aos lábios sobe, vibrante, a ida melodia da ...

a maré do meu amor

A maré do meu amor Subiu tão alto; Deixa-me fluir sobre ti. Fecha os olhos por um momento E pode ser que todos os teus medos e fantasias Acabem. Se isso acontecesse Deus tornar-se-ia numa criança em teus braços. E depois, Terias que cuidar de toda a criação.

DE PROFUNDIS AMAMUS (mário cesariny de vasconcelos)

Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O Público o vinco das tuas calças está cheio de frio e há quatro mil pessoas interessadas nisso Não faz mal abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis vai ser assim durante muito tempo decorrerão muitos séculos antes de nós mas não te importes não te importes muito nós só temos a ver com o presente perfeito corsários de olhos de gato intransponível maravilhados maravilhosos únicos nem pretérito nem futuro tem o estranho verbo nosso mário cesariny de vasconcelos

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis Vai ter olhos onde ninguém o veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no teto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos ótimos empregos poemas originais e poemas como este projetos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários (assim assim) escriturários (muitos) intelectuais (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com a certeza a deles Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados Ah o medo vai ter tudo tudo (Penso...

Poeta

Está a trabalhar agora, numa sala que não é diferente desta, onde escrevo, ou aquela em que lês. A mesa está coberta com papéis. A luz do candeeiro seria suavizada por um abajur, onde a sua crueza única se pudesse diluir, mas não é; ela tirou-o. Os seus poemas? Nunca os perceberei bem, embora sejam aqueles de que mais preciso. Nem o próprio alfabeto que ela usa eu consigo decifrar. A sua cadeira - imaginemos se é de pele ou lona, de vinil ou verga. Deixemos que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur, a mesa. Que um ou dois daqueles que ama estejam no quarto ao lado. Porta fechada e de boa saúde os que dormem. Dêmos-lhe tempo, e silêncio, papel que chegue para cometer erros e continuar. Jane Hirshfield tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho  http://www.triplov.org/novaserie.revista/numero_15/jane_hirshfield/index.html

poesia dita por António Cardoso Pinto

Fernando Pinto do Amaral - Limiar - poema dito por António Cardoso Pinto by manuscritosdigitais em manuscritos digitais

apocalipse

virei reiteradamente como as estações das flores virei como o animal ou o corsário semear o vento que vos lembre a morte (e vós que vos fechais em vossa vã imagem e vossos trapos, vós que adorais Deus olhando-vos ao espelho, tremei de vosso assento de carne fustigada há muito que Ele deixou às vossas portas as sandálias) virei na eclosão das vagas envolto em tudo quanto a vida trabalha virei no desregramento do vento e em vosso pasmo assim eu cante o vinho que sobe o rio às costas dos vindimadores virei no circuito da palavra que se quebra como um ramo de água e deixareis as armas para falar sem ritos morre-se quando de nós ficam ficaram restos que ninguém recolhe virei no som de Stockhausen e quantos desconstruíram a harmonia e o mundo antigo para que habiteis o tempo como quem habita as fontes cheios de barulhos por dentro como o vinho à cabeça das vindimadeiras in: http://triplov.com/semas/2010/Nome/index.htm

Meninas

 (a Paula Rego)  Saem da treva  as amas  sentam-se em bancos pequenos  bem juntinhos  à lareira  abrem os cestos  de fruta que são caixas  de costura  linhas de côr  e agulhas  vão bordar um pano  branco  saltam faúlhas  vermelhas ouve-se o grito  rasgado  foge o gato  da tesoura  lá no fundo uma menina  com o seu avental de pranto  Outonais (poemas 2005-2010), Yvette K. Centeno in http://www.poemsfromtheportuguese.org/121Yvette_KCen.asp

o acto de ler

O acto de ler reabre feridas. Nos livros em que isso acontece, com frequência, poderia ao menos haver um aviso na capa; assim como se faz com as carteiras de tabaco, embora se saiba que poucos deixam de fumar por isso. Teresa Jardim in: Resumo, a poesia em 2011, Ed. Assírio e Alvim/FNAC,  Lisboa, Março 2011

ESTE SERÁ MEU CUMPRIMENTO

acabaram meus cigarros dinheiro tenho pouco nem uma pessoa influente de poder conheço não levarei ninguém a qualquer promoção portanto, não leia este verso este poema como um meio, por ele – que sou eu – não chegará a nenhum futuro brilhante nem a ocupar um cargo de bom salário ou daqueles de excelentes aparências. não tenho nem como trocar favores não tenho nada que lhe possa interessar se for por isso nem mesmo um minuto vale perder comigo. não precisa de discrição, afasta-se rápido finja em qualquer lugar que passo despercebido. muitos conhecidos pensam em me querer - no mínimo do que tenho. mas não tenho nada, nem o mínimo nem mesmo um verso rimado não tenho o que oferecer pode pensar que me ver é avistar um rosto de dia de semana um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira sim, sou um dia de semana arrastado sem uma ninharia. melhor, então, é me deixar jogado num canto prometo que a partir de hoje logo que alguém falar comigo antes de to...

Cai uma folha no poente

Cai uma folha no poente destes dias O que era nítido torna-se difuso Babel renasce em cinzas de um deserto próprio E o vento busca em vão uma harmonia A solidão é em mim um oásis às avessas Lutando em vão contra a miragem certa Amélia Pais http://barcosflores.blogspot.com/

José Saramago

O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exacto dizer que a gente escreve porque não quer morrer. Ser amado pelo outro não está na nossa mão; podemos escrever para que isso aconteça, e depois acontecerá ou não. Já que temos que morrer, que alguma coisa fique. Não é imortalidade… isso seria um disparate. Trata-se de um reconhecimento por algum tempo mais. In José Saramago nas Suas Palavras

Agostinho da Silva

BREVES NOTAS

Ontem queimei um lençol, com o ferro, fiz isso sozinha, gravei-lhe um colorido triângulo torrado graças à televisão. Tenho sempre a televisão pequena na cozinha enquanto passo a ferro: uma criança negra numa guerra mamava ao peito de sua mãe morta. Senti que tinha engolido uma bola de pêlo. Não irei esquecer isso: o leite gotejou para dentro do meu peito. Miren AGgur Meabe in http://poesiailimitada.blogspot.com/2011/02/miren-agur-meabe.html

O sétimo selo - diálogo de Antonius Block com a Morte

Ernesto de Melo e Castro

Por Favor, me Chame pelos Meus Verdadeiros Nomes

Não diga que partirei amanhã pois eu chego todos os dias. Olhe profundamente; eu chego em cada segundo para ser um botão num galho da primavera, para ser um pequeno passarinho, com asas ainda frágeis aprendendo a cantar em meu novo ninho, para ser uma lagarta no coração da flor, para ser uma jóia escondendo-se numa pedra. Eu ainda chego, para rir e para chorar, para ter medo e ter esperança, o ritmo do meu coração é o nascimento e a morte de tudo o que está vivo. Eu sou a efemérida metamorfoseando na superfície do rio, eu sou o pássaro que, quando chega a primavera, aparece a tempo de comer a efeméride. Eu sou o sapo nadando feliz da vida na água clara do lago, e sou a cobra, que, aproximando-se em silêncio, alimenta-se do sapo. Eu sou a criança em Uganda, de pele e osso, de pernas finas como bambu, eu sou o mercador de armas, vendendo armas mortíferas para Uganda. Eu sou a garota de doze anos de idade, refugiada dentro de um pequeno bote, que atira-...

Terra de névoa

No Inverno a minha amada está com os bichos na mata. Que eu tenho de voltar antes do dia, a raposa sabe-o e ri. Tremem tanto estas nuvens! E na minha gola de neve cai uma cama de gelo quebrado. No Inverno a minha amada é uma árvore entre as árvores e convida aos belos ramos os corvos abandonados da sorte. Sabe que o vento, ao anoitecer, lhe levanta o vestido hirto de noite e geada, e me leva para casa. No Inverno a minha amada Vai silenciosa com os peixes. Servindo as águas, movidas adentro pelo o fio das barbatanas, eu fico na margem e vejo-a mergulhar e revirar, enquanto os gelos não me expulsam. E de novo, ao embate do grito da ave que me ampara com a asa, desabo num campo aberto: a amada depena as galinhas e atira-me uma clavícula branca. Ponho-a ao pescoço e afasto-me por entre a penugem amarga. Infiel é a minha amada, eu sei que às vezes flutua de saltos altos até à cidade, beija nos bares com a palhinha os copos profundamente na boca e...

pastelaria

Marco D'Almeida no programa Voz Pastelaria Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura Afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio Afinal o que importa não é ser novo e galante - ele há tanta maneira de compor uma estante Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício Não é verdade rapaz? E amanhã há bola antes de haver cinema madame blanche e parola Que afinal o que importa não é haver gente com fome porque assim como assim ainda há muita gente que come Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo! Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo No riso admirável de quem sabe e gosta ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que um pássaro sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.  António Cícero

Poesia budista

Prefiero poemas que son pequeñas visiones budistas momentos de conciencia textos, que suben rápido a la mente saco la puntuación y llego al Nirvana in " El cuarto oscuro y otros poemas" Robert Gurney

HOTEL TOFFOLO

E vieram dizer-nos que não havia jantar. Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos. Como se a cidade não servisse o seu pão de nuvens. Não, hoteleiro, nosso repasto é interior, e só pretendemos a mesa. Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras. Tudo se come, tudo se comunica, tudo, no coração, é ceia. Carlos Drummond de Andrade (Brasil, 1902 – 1987) Claro Enigma (Record, 2006)

as crianças de Israel

As crianças de Israel Brincam às horas do ágape Sob o incêndio da alegria Maria Costa in " ao fundo do jardim" http://aofundodojardim.blogspot.com/

LAMENTO PELA MINHA CABANA DESTRUÍDA PELO VENTO DE OUTONO – Tu Fu

No oitavo mês, em pleno outono, o vento ruge, colérico, E leva num turbilhão as três camadas de palha da minha cabana. O colmo voa, atravessa o rio, espalha-se pela ribanceira. O que voa alto fica suspenso nos ramos da grande floresta, o que voa baixo cai vai girando cair nas ravinas. As crianças da aldeia do sul riem-se da fraqueza da minha velhice: têm a audácia de me roubar às claras: abertamente arrancam o colmo e fogem por entre os bambus. Grito até ficar com a boca seca: não adianta nada. Volto para casa, suspiro, apoiado ao meu bastão. O vento cessa bruscamente, mas as nuvens continuam negras, o céu de outono é silencioso e escurece com o vir da tarde. Os lençóis e cobertas são velhos, frios como ferro, as crianças, sensíveis, com repugnância, rasgaram-nos a pontapés. Todos os leitos do aposento são úmidos: não há um lugar seco, sinto cãibras nas pernas, não as poso entender. Aflijo-me, lamento-me, durmo um pouco, a noite é longa e úmida, como a poderei passa...

exercício

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio, e vejo saírem de dentro dele as palavras que ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco com o álcool da memória, para que se transformem num licor de remorso; outras, guardo-as na cabeça para as dizer, um dia, a quem me perguntou o que significavam. Mas o silêncio de onde as palavras saíram volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro. Nuno Júdice

Grandes Portugueses- Fernando Pessoa

Serguei Iesseênin (Rússia, 1895-1925)

A Anatoli Marienhof Até logo, até logo, meu companheiro, Guardo-te no meu peito e te asseguro: O nosso afastamento passageiro É sinal de um encontro no futuro. Adeus, amigo, sem mãos nem palavras. Não faças um sobrolho pensativo. Se morrer, nesta vida, não é novo, Tampouco há novidade em estar vivo. Iessiênin Tradução do poema . Augusto de Campos gentilmente enviado por Amélia Pais

entre-vistas - Alberto Manguel

«ESTAMOS A DESTRUIR O VALOR DO ACTO INTELECTUAL» Ensaísta, escritor de ficção - mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magnífica biblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside. De passagem por Lisboa, Alberto Manguel falou com o Ípsilon. Ana Gerschenfeld 02.07.2010 “Os livros e a leitura sempre nortearam - e ainda norteiam - a vida de Alberto Manguel. Aprendeu a ler por volta dos três anos e nunca mais parou. Quan­do era adolescente, leu em voz alta, durante vários anos, para Jorge Luís Borges, que tinha ficado cego. Mais tarde, começou a escrever sobre li­vros, leituras e leitores - e o seu "Uma História da Leitura" (publicado em Portugal em 1999 pela Presença) tor­nou-se um best-seller mundial. Nasceu em Buenos Aires em 1948, criou-se em Israel, fez o liceu na Ar­gentina, viveu em sítios longínquos como Taiti. Nos anos 1980 mudou-se para Toronto, no Canadá, e tornou-se cidadão canadiano. De há 10 anos pa­ra cá, vive no Sul de Fr...

O DESTINO DAS ROUPAS

No cesto da roupa suja de qualquer quarto do mundo uma mãe saberia reconhecê-las. Suportaram as investidas do tempo, as agressões do lixo, os estragos do primeiro amor os rasgos da primeira contenda, as nódoas da fruta, os espinhos da rosa, a rosa do amor, o vómito amargo de sábado à noite, o sangue do amigo no carro desfeito. © 2006, Rui Lage De: Revólver Ed.Quasi, V. N. Famalicão, 2006 ISBN: 989-552-221-5

o cúmplice

Crucificam-me e eu devo ser a cruz e os cravos. Passam-me o cálice e eu devo ser a cicuta. Enganam-me e eu devo ser a mentira. Incendeiam-me e eu devo ser o inferno. Devo louvar e agradecer cada instante do tempo. Meu alimento é todas as coisas. O peso preciso do universo, a humilhação, o júbilo. Devo justificar aquilo que me fere. Não importa minha ventura ou desventura. Sou o poeta. Jorge Luiz Borges trad. josely vianna baptista

Matilde Rosa Araújo

II Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem nocturna dos fantasmas da cidade, contava-te dos nossos pobres versos no teu rasto de sombra e claridade Contava-te do frio que há emmedir a distância entre asmãos e as estrelas, comlágrimas de pedra nos sapatos e umcansaço impossível de escondê-las Contava-te – sei lá! – desta rotina de embalarmos amorte nas paredes, de tecermos o destino nas valetas De uma história de luas e de esquinas, comretratos e flores damadrugada a boiarem na água das sarjetas. Dinis Machado,

adília lopes

O cheiro de Deus: Recital de poesia de Adília Lopes from Pastoral da Cultura on Vimeo .

Eu sei, mas não devia--Marina Colasanti

Eu sei, mas não devia Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos E a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ónibus porque não pode perder tempo da viajem. A comer sanduíche porque não dá p'ra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ónibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números, ac...

Tentativa de Solidão

Por meus lados adormecidos, sempre atrás de uma claridade desci até olhar-me frente a frente. Escrevo as tristezas com minha velha flauta de sombras enquanto nos copos de vinho bebo meus diversos rostos. Sem chorar despojando-me de tantos estigmas mortais aguardo a alma que fugitiva vem do seu passado em busca de uma fonte adormecida para descer para a noite. Quero estar sozinho em meu grande espectro, meus olhares desertos, meus cantos doem-me porque não findam em seu próprio delírio, mal reluzo neles, mal vou escorrendo como o orvalho desce dos olhos das sombras. Quero ser meu próprio testemunho, a realidade de meu signo, mas, - que povoado imenso galopa, respira, sofre? O peito de raiz perturbado está com substâncias alheias. Vacila esta veia que entra à minha frente vinda do crepúsculo, tão vasta como o passado de fogo de uma estrela, deixa-me seus sinais de luz mas seu esconjuro não consegue que esta fronte asile também nós malignos. Ah, a alma volte a fugir com os pés gelados do ...

vozes de crianças

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas não há ninguém, só um velho que ouviu o rumor da memória, um leve fragor de ar na escuridão como se uma bala atravessasse a casa. Ao apagar a luz guardava um tesouro. Joan Margarit, Casa de Misericórdia, ed. ovni, Lisboa,2009

Empilhando Lenha

O homem costuma recolher do bosque os troncos caídos com a tempestade. Empilha-os nas traseiras da casa. De cada um recorda o que o fez cair e onde o recolheu. Nas noites frias, a contemplar as chamas, vai queimando o que resta do que ama. Joan Margarit

Agostinho da Silva - Solidão, Tolerância, Trabalho e Poesia

DIA DE CHUVA EM CASA CHINESA

A chuva fria de inverno deslizava sobre os telhados de ceramica verde O chão quente de madeira enviava mensagem de viver, não se sabe porque nem para onde Jade Vermelho pegava um vaso revestido de palha trançada e o levava para a mesa de laca preta os potes de ceramica de beber chá ela os arrumava na bandeja de porcelana e bronze o mais, era ouvir a chuva cair com seu barulho ininterrupto de cascata aprisionada, e um eco em vida aberta nos jardins dos homens clarisse de Oliveira CLARISSE DE OLIVEIRA

a Harmonia

L'harmonie fut ma mère dans la chanson des arbres et c'est parmi les fleurs que j'ai appris à aimer. *** A harmonia foi a minha mãe na canção das árvores e foi entre as flores que aprendi a amar. Friedrich Hölderlin

o analfabeto político

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo. Bertold Brecht (1898-1956)

postulado

Eu quero uma tira de papel do meu tamanho um metro e sessenta nele um poema que grita quando alguém passa e grita em letras negras a exigir o impossível coragem cívica por exemplo essa coragem que nenhum animal possui compaixão por exemplo solidariedade em vez de rebanho fazer nossos através de actos esses conceitos Homem animal que tem coragem cívica Homem animal que conhece a compaixão Homem animal-palavra animal-conceito Animal que escreve poemas poema que pede impossíveis a quem passa urgentemente irrefutavelmente como se apregoasse “Bebe Coca-Cola” Hilde Domin [in: "Estende a mão ao milagre", antologia organizada e traduzida por Maria José Peixoto Lieberwirth, Cosmorama, 2008) ver, sobre a autora

o olhar

O teu lugar é onde olhos te olham. Tu nasces onde os olhos se encontram. Suspensa por um chamar, sempre a mesma voz, parece haver só uma com que todos chamam. Caías, mas não cais. Olhos te prendem. Tu existes porque olhos te querem, olham-te e dizem que tu existes. Hilde Domin - Nascida no ano de 1909, em Colônia, Hilde Domin começou a escrever poemas somente a partir de 1951, quando já se encontrava exilada na República Dominicana, país que a fez adoptar o sobrenome do pseudónimo, em substituição a Palm, que ganhou quando casara. Devido à distância entre os idiomas e ao facto de não ter uma boa divulgação em língua portuguesa, Domin ainda é nome de restrito prestígio . Na Alemanha, entretanto, não se pode contornar a poeta quando se fala de pós-guerra. Ao lado de Paul Celan, Rose Ausländer, Ingeborg Bachmann, entre outros, Domin se concentra, em sua obra, nos temas do exílio – a língua estrangeira, a perda da terra natal, os choques e encontros culturais. Essa mulher extraordinária e ...

gracias a la vida

Gracias a la vida que me ha dado tanto. Me ha dado el sonido y el abecedario; Con el las palabras que pienso y declaro: Madre, amigo, hermano, y luz alumbrando La ruta del alma del que estoy amando. Gracias a la vida que me ha dado tanto. Me ha dado la marcha de mis pies cansados; Con ellos anduve ciudades y charcos, Playas y desiertos, montañas y llanos, Y la casa tuya, tu calle y tu patio. Gracias a la vida que me ha dado tanto; me dio el corazón que agita su marco cuando miro el fruto del cerebro humano, cuando miro al bueno tan lejos del malo, cuando miro el fondo te tus ojos claros. Gracias a la vida que me ha dado tanto; me ha dado la risa y me ha dado el llanto. Con ellos distingo dicha de quebranto, los dos materiales que forman mi canto; y el canto de ustedes que es el mismo canto; y el canto de todos que es mi propio canto. Gracias a la vida, que me ha dado tanto.

Alfonsina y el Mar (MERCEDES SOSA)

do futuro da poética

"É normal encontrar-se, aqui e ali, alguma ansiedade em torno da sobrevivência da poética no tempo da rede, pelo menos no modo como (culturalmente) a entendemos desde finais do século XVIII. O problema voltou a ser aflorado numa das recentes feiras do livro onde estive presente, a de Viana do Castelo. Para expiar angústias, passo a apresentar uma possível e breve cartilha em sete pontos sobre o futuro específico da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos… vamos ver se não acertei em cheio: 1 – A vida da ciberpoética será cada vez baseada no provisório e num verdadeiro vaivém em oposição a uma vasta tradição que sempre encarou a poesia como inscrição definitiva (uma espécie de magistral ‘sinal dos tempos’). O destino da ciberpoética vai, pois, ser o movimento: fluir e navegar através de permanentes subtracções e adições. 2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individu...

TO BE ALONE

TO BE ALONE «To be alone is one of life's greatest delights» D. H. Lawrence uma chávena de chá sobre a mesa um gato de barro um castiçal algumas flores conchas livros um caderno dois novelos de lã e uma revista de tricot – espólio de uma tarde à chuva nessas delícias da solidão que D H Lawrence cantou Soledade Santos (poema publicado em DiVersos 8 ,ed.Sempre-em-pé)

o que os meus olhos vêem- maria gomes

o que os meus olhos vêem, o que os teus olhos vêem, será talvez o litigo da solidão profunda, o ar, em suma, num silêncio irredutível, livre, lírico , tão longínquo, num lugar antes do tempo. maria gomes

O Poeta em Lisboa

Quatro horas da tarde. O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos. Tem febre. Arde. E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos. Segue por esta, por aquela rua sem pressa de chegar seja onde for. Pára. Continua. E olha a multidão, suavemente, com horror. Entra no café. Abre um livro fantástico, impossível. Mas não lê. Trabalha - numa música secreta, inaudível. Pede um cigarro. Fuma. Labaredas loucas saem-lhe da garganta. Da bruma espreita-o uma mulher nua, branca, branca. Fuma mais. Outra vez. E atira um braço decepado para a mesa. Não pensa no fim do mês. A noite é a sua única certeza. Sai de novo para o mundo. Fechada à chave a humanidade janta. Livre, vagabundo dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta. Sonâmbulo, magntfico segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado. Um luar terrífico vela o seu passo transtornado. Seis da madrugada. A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa. Defende-se à dentada da vida proletária, aristocrática, burguesa. Febre alta, violenta e dois...

de William Carlos Williams

"A man like a city and a woman like a flower – who are in love. Two women. Three women. Innumerable women, each like a flower. But only one man – like a city.” William Carlos Williams, The Broken Span, 1941

um poema

O que não significa vai significar um dia destes. Mas significará uma coisa bastante diferente. Pensam que uma escada leva sempre a uma espécie de casa ou terraço, e são magnânimos admitindo alguma variação de formas e propósitos dentro dos termos das casas e terraços que há. Pois estão à vossa espera, senhores, casas e terraços de estranhos sistemas arquitectónicos. Há mesmo a suspeita de tratar-se de uma escada esquisita, uma escada apenas para subir. Mas dantes havia moral, dizem eles. Havia a moral para subir e ir ao terraço. Depois via-se a paisagem. E era bonito? Sim, havia metafísica, política e filosofia para ver. E para que servia ver isso? Ora, a gente ficava contente, porque entravam e saíam ideias pela cabeça. Uma espécie de piquenique mental, não? A metafísica, a política, a filosofia são matérias nobres. Sim, senhores, obrigado. Pois, e se a gente queria a casa, subia a escada e entrava na casa. Também nas paredes, a filosofia, e etc? Sim, exactamente. Olhem: não, obrigad...

o que o jardineiro disse a Mrs. traill

_ E agora é tão pobre a poesia que publicam. Mas nos velhos tempos não era assim, Pois outrora foi a linguagem da dor humana, E, na língua dos anjos, a dessa causa Pela qual arderam grandes almas, e os carvalhos floresceram. Eu, que sou amigo dos amarantos, reconheço Um bálsamo nesse nome, um bálsamo para estas praias. Mas agora usam palavras difíceis para coisas simples, Para as flores silvestres, e para as flores do lago. Folha da alegria, estrela em chamas , são palavras que hoje Pouco nos tocam, embora tenham sementes em forma de asa, Se os pobres pecadores como eu falarem Com Deus que humildemente pronuncia esses nomes com amor. in "AS CANTINAS E OUTROS POEMAS DE ÁLCOOL E DO MAR", Malcom Lowry Selecção e tradução de José Agostinho Baptista

a alquimia do verbo

A mim. A história de mais uma das minhas loucuras. De há muito que me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e que acho ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna. Amei pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem caligrafia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingénuos, ritmos simplicíssimos. Sonhei com cruzadas, com viagens de descobrimento das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias. Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, custe o que custar, a todos os sentidos. Guardei a tradução. Era acima de tudo um ...

jardim antigo

um fato aconteceu no silêncio das flores do jardim abandonado entre os arbustos e folhas secas aumentaram as cores a vivacidade variada libertaram não sabem a nenhum germinam grandes entre pedaços de estatuária debaixo de pedras dentro dos tanques surdos somente perdidos anjos e o cão preto aquelas aves desgarradas aquelas murtas velhas não a vêem à noite um lagarto verde entre as estrelas azuis as flores dormem as flores há muito tempo lá estavam elas dormem ROGEL SAMUEL in ROGEL SAMUEL- novos poemas

devíamos

Devíamos nascer velhos, despertos, capazes de decidir nosso destino na Terra, saber que caminho tomar desde a primeira encruzilhada e que irresponsável fosse apenas o desejo de ir mais longe. Depois, pormo-nos a caminhar, cada vez mais jovens, alcançar maduros e fortes as portas da criação, atravessá-las e entrar apaixonados na adolescência, sendo crianças quando nos nascessem os filhos. Estes seriam assim sempre mais velhos que nós, ensinando-nos a falar e embalando-nos para dormir, desapareceríamos pouco a pouco, cada vez mais pequenos, como um grãozinho de uva, de ervilha ou de trigo... Ana Blandiana (Trad. A.M.)

eu não voo

Eu não voo ando quero que me oiçam mas também não sou das rãs que coaxam António Reis - Novos Poemas Quotidianos, pág. 11, Porto, [1959]

a maior solidão

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre. Vinicius de Moraes

reflexão

Basta uma lágrima cheia De uma saudade de tudo Afonso Lopes Vieira

cada um que passa em nossa vida

Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho ... Porque cada pessoa é única pra nós, E nenhuma substitui a outra... Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho, Mas não vai só... Cada um que passa em nossa vida, Leva um pouco de nós mesmos, E nos deixa um pouco de si mesmo... Há os que levam muito, Mas não há os que não levam nada... Há os que deixam muito, Mas não há os que não deixam nada... Esta é a mais bela realidade da vida. A prova tremenda da importância de cada um, É que ninguém se aproxima do outro por acaso.... Antoine de Saint-Exupéry

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada! Supor o que dirá Tua boca velada É ouvir-te já. É ouvir-te melhor Do que o dirias. O que és nao vem à flor Das caras e dos dias. Tu és melhor... muito melhor! ... Do que tu. Não digas nada. Sê Alma do corpo nu Que do espelho se vê. Mário Cesariny

No sorriso louco das mães

No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras. E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e orgãos mergulhados, e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais. Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo, e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam. Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva, em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos. As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos. Porque os filhos são como invasores dentes-de-...

Biografia

Não pegues na colher com a mão esquerda. Não ponhas os cotovelos na mesa. Dobra bem o guardanapo. Isso, para começar. Extraia a raíz quadrada de três mil trezentos e treze. Onde fica o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes? Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega. Isso, para continuar. Parece-lhe decente que um engenheiro faça verso? A cultura é um enfeite e o negócio é o negócio. Se continuas com essa moça fechamos-te a porta. Isso, para viver. Não sejas tão louco. Sê educado. Sê correcto. Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires. Aí, sim, não respirar! Dar o não a todos os nãos. E descansar: morrer. Gabriel Celaya, 1911-1991

o limoeiro- Mahmud Darwish

Tínhamos atrás das grades Um limoeiro As frutas amareladas brilhavam como lâmpadas As flores eram um leque cheiroso no nosso bairro Tínhamos, atrás das grades Um limeiro. Nosso Mas, para fazer enfeites com seus galhos E perfume das suas flores O cortaram Ficamos Sem o nosso limoeiro Nossos olhos Nunca mais viram a primavera. Mahmud Darwish Biografia de Mahmud Darwish Mahmud Darwish, palestino nascido no ano de 1942. Como muitos dos poetas da resistência palestina, teve desde o princípio uma clara militância política e foi preso em Israel. Abandonou esse país no começo dos anos 70, viveu em alguns países socialistas europeus, no Egipto, e depois vários anos em Beirute, onde se transformou em um dos membros mais destacados do Centro de Pesquisas Palestinas, dirigindo a revista Shuún Filistiyya. Sua obra lírica é muito ampla e dela destacamos (*): Hojas de oliva, 1964; Enamorado de Palestina, 1966, um de seus livros mais representativos e emocionantes; El fin de la noche... es día, 1...

MALEVICH

Imagem
Malevich descobriu que o branco tinha cor as várias cores do branco desde o branco cabralino das brancas casas caiadas até o branco indolor dos muros dos hospitais o branco das sepulturas brancas, das paredes duras brancas, das casas e flores brancas, que orlam o lodo de esgotos de favelas e o mais branco das velas dos lenços e dos lençóis mesmo a branca imagem branca do esvoaçar de uma garça na revelação do meu sol sobre praias do Nordeste ou a doçura brancura do açúcar no café as cortesias alturas da lua tiradentina onde o branco dessas tintas se finge de mais alvura como neves Himalaias ou branco das gravuras da minha amiga artista Lyria Palombini ou o branco daquelas saias engomadas onde passam virgens ao sol sorridente em direção das suas salas decerto paredes brancas de suas almas de escola Rogel Samuel in " Novos Poemas" de Rogel Samuel

procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes. Não me reveles teus sentimentos, que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu s...