segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

omar khayam (Pérsia,1048 a 1131)



Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me importa nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.

Ninguém pode compreender o que é misterioso.
Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra.
Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.

A tua vida não terá sido inútil,
se tiveres enxertado no teu coração a rosa do Amor
ou se tiveres procurado ouvir a voz de Alá
ou ainda se tiveres empunhado a tua taça sorrindo ao prazer.

Dizem-me:«Não bebas mais, Khayyam!»
Eu respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as túlipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada.

Retóricos e silenciosos sábios morreram
sem terem podido entender-se sobre o ser e o não ser.
Ignorantes, meus irmãos, continuemos a saborear o sumo dos cachos
e deixemos esses grandes homens regalarem-se de uva-passas.

Senta-te e bebe. Gozarás de uma felicidade que Mahmud nunca conheceu.
Escuta as melodias que exalam os alaúdes dos amantes:
são os verdadeiros salmos de David.
Não mergulhes no passado nem no futuro.
Que o teu pensamento não ultrapasse o momento presente.
Esse é o segredo da paz.


Omar Khayam, Rubayat


© Estampa (tradução de Fernando Castro)


(enviado por Amélia Pais )

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