segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

***

Podia escrever o teu nome num vidro embaciado ou
segredá-lo a uma borboleta negra.

Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.

Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
Desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma profanação.

Jorge de Sousa Braga

sábado, 10 de dezembro de 2011

Tenho uma folha branca







Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.



Ana Cristina César nasceu em 2 de Junho de 1952, no Rio de Janeiro. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS






Bertolt Brecht


sábado, 3 de setembro de 2011

ARTE POÉTICA




Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.
Poemas que não envelhecessem.
Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,
jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.
Eu queria a estação permanente dos fatos,
aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos
em reflexos cíclicos
de uma realidade essência.
Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,
pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.

Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,
eu sei que, como todas as civilizações,
a nossa tem um fim,
e já durou demais.
Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,
adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.
Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.
Por isso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária
duração,
esta idade virtual com pés de efêmero tato.
Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver
à sua legítima história,
mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam
a vida.

Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,
quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração
oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.

Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.

Walmir Ayala

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Manifiesto

Manifiesto

POESÍA ÚTIL



Cansados, aburridos, decepcionados de la poesía que se escribe en la España de fin de siglo XX (con el justo respeto a las contadas excepciones redentoras), por instinto de resurrección poética decimos No. No queremos una poesía domada por las tendencias dominantes. Queremos una poesía en estado salvaje, libre. No queremos una poesía aséptica, de sonsonete, mimética. No queremos poemas de tubo de ensayo, ni poemas lúdicos que camuflan la trampa. No queremos una poesía profesoral escrita por doctos iniciados para los elegidos de la secta. Arremetemos contra la abulia, contra el sopor, contra la palabrería, contra el ombliguismo lingüístico, en un mundo que se descompone por la carcoma de su incapacidad para pensar y repeler la agresión de la Gran Anestesia. Rechazamos la poesía elaborada para obligar al lector a estudiar el diccionario, la poesía personalista de valor terapéutico exclusivo para su autor, la poesía de fanatismo culturalista y esteticista, la humorada, la banalidad de pensamiento y la frivolidad en el tratamiento de los sentimientos y las emociones. Abajo la poesía de hueco alarde ingenioso, voz impostada y palabra estéril.



Propugnamos una poesía heredera de la tradición mejor asimilada, abierta a caminos nuevos en la forma y en los temas. Una poesía sencilla, clara, rotunda, directa, honda, intensa y grave, cargada de intención. Que atraviese la inteligencia, queme en los ojos y en los oídos, estrangule el corazón, produzca escalofrío en el conocimiento y fustigue la conciencia agitándola, haciéndola reaccionar, moviéndola a la reflexión y a la acción. Una poesía habitable, testimonio radicalmente sincero de la experiencia vital e intelectual, de nuestra convivencia con la realidad del existir y con la idea de la muerte. Defendemos una poesía útil que, además de objeto de belleza, sea sujeto de conducta. Que sirva al ser humano: moralmente, para vivir; culturalmente, para ensanchar y afianzar su saber; y estéticamente, para gozar. Una poesía que tenga los pies en la tierra, comprometida con el destino de las mujeres y hombres de su tiempo. Que busque elevar el lenguaje coloquial a la categoría de lenguaje poético, y consiga que la verdad particular de su mensaje alcance validez universal. A esta poesía (firma en su poder de insinuación y de sorpresa) conviene una mínima dosis de didactismo que haga eficaz su interés por regenerar los valores del espíritu y del arte, así como su afñan rehabilitador de la imaginación, la voluntad, la sensibilidad y la razón crítica de unos lectores cuya recuperación hemos de demostrar merecer sin otras armas que la propia obra.




Ángel Guinda

o último poema




Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Manuel Bandeira





sexta-feira, 5 de agosto de 2011

memorial



As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes



in «Uma Faca Nos Dentes»
Prefácio de Herberto Helder
Ed. Parceria A. M. Pereira / Lisboa, 2003


terça-feira, 2 de agosto de 2011

escreve







a santa ceia




A mesa sempre farta
e a casa muito cheia.
O eterno ritual da santa ceia,
regado de luxúria e de prazer.
E eu, sem trono e sem coroa de rainha,
Reinando, absoluta, na cozinha.
Enquanto eles se matam de comer.




Kátia Drummond


estação única




Gosto da chuva de agosto.
Talvez a tenha despertado no interior do sonho
que abrigo dentro dos versos da noite.
Convoca-me a um lugar presente e longínquo
de profunda saudade,
onde o amor foi estação única.



Maria Costa


domingo, 24 de julho de 2011

o meu verdadeiro espírito




O meu verdadeiro espírito, qual é?
Não te posso dizer.
Vê apenas a neve e o orvalho
das montanhas.




Dogen Zenji (1231-1253)

Portugal




Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar poker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projeto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



Jorge de Sousa Bragain "O Poeta Nu"

domingo, 17 de julho de 2011

ENTRE CAIXÃO E BERÇO





Mãe, quando, um dia, eu voltar de vez,
fico aqui contigo para sempre.
Quando abraçar a velha soleira
e beijar as santas árvores de antigamente
e, cansado, lágrimas tremendo,
em teus olhos olhar.

Espera, então, por mim, que uma noite virei.

Será Outono, sei, luz púrpura ziguezagueia,
fulva luz nocturna.
A grande porta de ferro, troando, há-de fechar-se de tal modo,
Que a velha casa ,fria, tremerá
de medo.

Mas tu não receies, vem ao meu encontro, suavemente,
por mais medonho e branco que eu seja,
aperta-me nos teus braços, não busques o coração,
que inunda o sangue feio e preto,
olha só para os meus olhos dormentes e baços,
acaricia-me a cabeça, em silêncio.
Eu nem sequer te contarei como vivi
entre beijos ulcerados , na noite clara,
olhar-te-ei somente, como no passado,
então compreenderei que tu és o início
e tu és o fim.
Mudo,deitar-me-ei na grande cama branca,
eu, velho bebé que falar não sabe,
e do coração aos lábios sobe, vibrante,
a ida melodia da minha vida.
Tu escutas,como quem vela junto ao berço,
eu devaneio, sorrindo, triste,
e, hesitante entre o caixão e berço,
fias minha branca coroa de flores.
Passou quase a noite,em repetidos suspiros;
Curando, franze teu abençoado sorriso;
E,em lágrimas,com flores e uma canção muito antiga,
Cantas a morte do teu pobre filho.


Kosztolányi Dezső (1907)
Tradução de Ernesto Rodrigues






quarta-feira, 6 de julho de 2011

a maré do meu amor




A maré do meu amor
Subiu tão alto;
Deixa-me fluir sobre ti.
Fecha os olhos por um momento
E pode ser que todos os teus medos e fantasias
Acabem.
Se isso acontecesse
Deus tornar-se-ia numa criança em teus braços.
E depois,
Terias que cuidar de toda a criação.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

DE PROFUNDIS AMAMUS (mário cesariny de vasconcelos)




Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



mário cesariny de vasconcelos

domingo, 29 de maio de 2011

Poema pouco original do medo



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Alexandre O'Neill


terça-feira, 24 de maio de 2011

Poeta




Está a trabalhar agora, numa sala
que não é diferente desta,
onde escrevo, ou aquela em que lês.
A mesa está coberta com papéis.
A luz do candeeiro seria
suavizada por um abajur, onde
a sua crueza única se pudesse diluir,
mas não é; ela tirou-o.
Os seus poemas? Nunca os perceberei bem,
embora sejam aqueles de que mais preciso.
Nem o próprio alfabeto que ela usa
eu consigo decifrar. A sua cadeira -
imaginemos se é de pele
ou lona, de vinil ou verga. Deixemos
que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur,
a mesa. Que um ou dois daqueles que ama
estejam no quarto ao lado. Porta fechada
e de boa saúde os que dormem.
Dêmos-lhe tempo, e silêncio,
papel que chegue para cometer erros e continuar.



Jane Hirshfield
tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho


 http://www.triplov.org/novaserie.revista/numero_15/jane_hirshfield/index.html

quinta-feira, 5 de maio de 2011

apocalipse



virei
reiteradamente
como as estações das flores
virei como o animal ou o corsário
semear o vento que vos lembre a morte
(e vós que vos fechais em vossa vã imagem e vossos trapos,
vós que adorais Deus olhando-vos ao espelho,
tremei de vosso assento de carne fustigada
há muito que Ele deixou às vossas portas as sandálias)
virei na eclosão das vagas
envolto em tudo quanto a vida trabalha
virei no desregramento do vento
e em vosso pasmo
assim eu cante o vinho
que sobe o rio às costas dos vindimadores
virei no circuito da palavra
que se quebra como um ramo de água
e deixareis as armas para falar sem ritos
morre-se quando de nós ficam ficaram restos
que ninguém recolhe
virei no som de Stockhausen
e quantos desconstruíram a harmonia
e o mundo antigo
para que habiteis o tempo
como quem habita as fontes
cheios de barulhos por dentro
como o vinho
à cabeça das vindimadeiras


in: http://triplov.com/semas/2010/Nome/index.htm



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Meninas

 (a Paula Rego)



 Saem da treva
 as amas


 sentam-se em
bancos
pequenos

 bem juntinhos
 à lareira


 abrem os cestos
 de fruta
que são caixas
 de costura


 linhas de côr
 e agulhas
 vão bordar um pano
 branco


 saltam faúlhas
 vermelhas

ouve-se o grito
 rasgado


 foge o gato
 da tesoura


 lá no fundo
uma menina
 com o seu avental
de pranto




 Outonais (poemas 2005-2010),
Yvette K. Centeno
in http://www.poemsfromtheportuguese.org/121Yvette_KCen.asp

quarta-feira, 27 de abril de 2011

dia de hoje



Entrego-me à volúpia dos símbolos
Dá-me prazer roubar equações
Olhar por dentro como é feito o mundo
Entreter o pensamento com hieróglifos de vento.
O rapaz a quem dou estas e outras explicações
Cheira mal da boca.
Começo então a fumar o meu cachimbo
E vão surgindo soluções a cada passo invisível
Que acompanha os sucessivos traçados na folha.
Assim no papel. Assim na vida.
Vai então crescendo um nevoeiro entre mim e o rapaz
que tem uma prótese nos dentes,
e vem aprender qualquer coisa a três dimensões.
(talvez para endireitar as raízes da família
ou para encontrar o pai que se suicidou, era ainda pequeno.)
Foi certamente uma sirene de símbolos
que o trouxe aqui.

Arre!, este dia de calor deveria ser forrado
com mais vetores e equações.
Felizmente hoje não trouxe a minha tesoura de podar
Para ajustar a relva aos símbolos...



Samuel Prado



sábado, 23 de abril de 2011

o acto de ler

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa Jardim



in: Resumo, a poesia em 2011, Ed. Assírio e Alvim/FNAC,
 Lisboa, Março 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

ESTE SERÁ MEU CUMPRIMENTO



acabaram meus cigarros
dinheiro tenho pouco
nem uma pessoa influente de poder conheço
não levarei ninguém a qualquer promoção
portanto, não leia este verso
este poema como um meio,
por ele – que sou eu –
não chegará a nenhum futuro brilhante
nem a ocupar um cargo de bom salário
ou daqueles de excelentes aparências.
não tenho nem como trocar favores
não tenho nada que lhe possa interessar
se for por isso nem mesmo um minuto
vale perder comigo.
não precisa de discrição,
afasta-se rápido
finja em qualquer lugar que passo despercebido.
muitos conhecidos pensam em me querer
- no mínimo do que tenho.
mas não tenho nada, nem o mínimo
nem mesmo um verso rimado
não tenho o que oferecer
pode pensar que me ver
é avistar um rosto de dia de semana
um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira
sim, sou um dia de semana arrastado
sem uma ninharia.
melhor, então, é me deixar jogado num canto
prometo que a partir de hoje
logo que alguém falar comigo
antes de todas as coisas falarei assim direto
não tenho nada – será meu cumprimento

Jefferson Bessa

http://jeffersonbessa.blogspot.com/


sexta-feira, 25 de março de 2011

Cai uma folha no poente



Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia

A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa




Amélia Pais




http://barcosflores.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de março de 2011

tenho uma folha branca




Tenho uma folha branca e limpa à minha espera:
Mudo convite
Tenho uma cama branca e limpa à minha espera:
Mudo convite
Tenho uma vida branca e limpa à minha espera:



Ana Cristina Cesar


quarta-feira, 2 de março de 2011

José Saramago






O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exacto dizer que a gente escreve porque não quer morrer. Ser amado pelo outro não está na nossa mão; podemos escrever para que isso aconteça, e depois acontecerá ou não. Já que temos que morrer, que alguma coisa fique. Não é imortalidade… isso seria um disparate. Trata-se de um reconhecimento por algum tempo mais.



In José Saramago nas Suas Palavras





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Agostinho da Silva






domingo, 20 de fevereiro de 2011

BREVES NOTAS




Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.


Miren AGgur Meabe

in http://poesiailimitada.blogspot.com/2011/02/miren-agur-meabe.html

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Por Favor, me Chame pelos Meus Verdadeiros Nomes





Não diga que partirei amanhã
pois eu chego todos os dias.

Olhe profundamente; eu chego em cada segundo
para ser um botão num galho da primavera,
para ser um pequeno passarinho, com asas ainda frágeis
aprendendo a cantar em meu novo ninho,
para ser uma lagarta no coração da flor,
para ser uma jóia escondendo-se numa pedra.

Eu ainda chego, para rir e para chorar,
para ter medo e ter esperança,
o ritmo do meu coração é o nascimento e a morte
de tudo o que está vivo.

Eu sou a efemérida metamorfoseando
na superfície do rio,
eu sou o pássaro que, quando chega a primavera,
aparece a tempo de comer a efeméride.

Eu sou o sapo nadando feliz da vida
na água clara do lago,
e sou a cobra, que, aproximando-se
em silêncio, alimenta-se do sapo.

Eu sou a criança em Uganda, de pele e osso,
de pernas finas como bambu,
eu sou o mercador de armas,
vendendo armas mortíferas para Uganda.

Eu sou a garota de doze anos de idade,
refugiada dentro de um pequeno bote,
que atira-se no oceano
depois de ser estrupada por um pirata do mar,
eu sou o pirata,
meu coração ainda não é capaz de ver e de amar.

Eu sou um membro do Politburo
com plenos poderes nas mãos,
e sou o homem
que tem que pagar o débito de sangue
ao meu povo que morre lentamente num campo de trabalho forçado.

Minha alegria é como a primavera, tão quente que faz
as flores desabrocharem-se em todos os passeios da vida.
Minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio
que enche os quatro oceanos.
Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa ouvir todos os meus gritos e risos ao mesmo tempo,
Do modo que eu possa ver que minha dor e minha alegria são uma só.

Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa acordar e assim a porta de meu coração
possa ser deixada aberta,
a porta da compaixão.


Thich Nhat Hahn
(professor budista e vietnamita)


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Terra de névoa




No Inverno a minha amada
está com os bichos na mata.
Que eu tenho de voltar antes do dia,
a raposa sabe-o e ri.
Tremem tanto estas nuvens! E
na minha gola de neve cai
uma cama de gelo quebrado.


No Inverno a minha amada
é uma árvore entre as árvores e
convida aos belos ramos
os corvos abandonados da sorte. Sabe
que o vento, ao anoitecer, lhe levanta o
vestido hirto de noite e geada,
e me leva para casa.


No Inverno a minha amada
Vai silenciosa com os peixes.
Servindo as águas, movidas adentro
pelo o fio das barbatanas,
eu fico na margem e vejo-a
mergulhar e revirar,
enquanto os gelos não me expulsam.


E de novo, ao embate do grito
da ave que me ampara
com a asa, desabo
num campo aberto: a amada depena
as galinhas e atira-me
uma clavícula branca. Ponho-a ao pescoço
e afasto-me por entre a penugem amarga.


Infiel é a minha amada,
eu sei que às vezes flutua
de saltos altos até à cidade,
beija nos bares com a palhinha
os copos profundamente na boca
e vêm-lhe palavras para todos.
Mas eu não percebo o idioma.

Vi terra de névoa.
Comi coração de névoa.




INGEBORG BACHMANN(Tradução de Sephi Alter)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

pastelaria






Marco D'Almeida no programa Voz



Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

guardar



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

 António Cícero


sábado, 1 de janeiro de 2011

Poesia budista







Prefiero poemas
que son
pequeñas visiones budistas
momentos de conciencia
textos, que suben rápido
a la mente

saco la puntuación
y llego
al Nirvana

in " El cuarto oscuro y otros poemas"
Robert Gurney