domingo, 16 de dezembro de 2012

Um homem passa com um pão ao ombro





Um homem passa com um pão ao ombro

- Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?

Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar da Psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a um menino
- Vou, depois, ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
- Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?

Outro busca no lodo ossos e cascas
- Como escrever, depois, sobre o infinito?

Um pedreiro cai de um telhado, morre, já não almoça
- Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?

Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica o seu balanço
- Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com um pé às costas
- Falar, depois, a ninguém de Picasso?

Alguém vai num enterro a soluçar
- Como em seguida ingressar na Academia?

Alguém limpa uma espingarda na cozinha
- Com que desplante falar do mais além?

Alguém passa a contar pelos dedos
- Como falar do não eu sem dar um grito?



CÉSAR VALLEJO (1896-1938)
Tradução – José Bento




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEQUENO EXERCÍCIO - Elizabeth Bishop

(para Thomas Edwards Wanning)



Pense na tempestade vagando no céu, inquieta,
como um cão procurando um lugar para dormir,
ouça o rugido dela.

Pense como devem estar agora as ilhotas no mangue,
lá longe, indiferentes aos relâmpagos,
formando famílias escuras, de fibras grosseiras,

onde uma garça vez por outra despenteia-se,
arrufa as penas, faz um vago comentário
quando reluz a água a seu redor.

Pense na avenida e nas palmeirinhas todas
enfileiradas, reveladas de repente
como punhados de esqueletos de peixes.

Lá está chovendo. A avenida
e as calçadas quebradas, com capim nas rachaduras,
estão aliviadas por molhar-se, e o mar por dessalgar-se.

Agora a tempestade vai embora numa série
de cenas curtas de batalha, mal iluminadas,
cada uma delas "numa outra parte do campo".

Pense em alguém dormindo no fundo de um barco a remo
atado a uma raiz de mangue ou uma ponte,
alguém ileso, quase imperturbado.



Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto

domingo, 7 de outubro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

é indecoroso ser famoso





É indecoroso ser famoso
Porque não é isso que eleva.
E não vale a pena montar arquivos
Nem perder tempo com manuscritos antigos.

O caminho da criação é a entrega total,
E não fazer barulho ou ter sucesso.
Isso, infelizmente, nada significa
E é como uma alegoria a viajar de boca em boca.

É preciso, porém, viver sem pretensões,
Viver de tal modo que no fim das contas
Um amor ideal nos alcance
E ouçamos o apelo dos anos que virão.

O que é preciso rever
É o destino, não velhos papéis;
Nem parágrafos e capítulos de uma vida
Anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
Silenciar nele os nossos passos,
Como foge a paisagem na neblina
Em plena escuridão.

Outros, nesse rastro vivo,
Seguirão o teu caminho passo a passo,
Mas tu mesmo não deves distinguir
Derrota de vitória.

E não deves nem por um instante
Recuar ou trair o que tu és,
Mas estar vivo, só vivo,
E só vivo — até o fim.


Boris Pasternak



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

VERÃO NA CIDADE
Conversas a meia voz,
E esse gesto impetuoso
Com que afastas os cabelos
De cima do teu pescoço.
E sob o brilho do pente
É que aparece o olhar,
Debaixo do capacete
Dos cabelos ondulados.
A noite quente, lá fora,
Faz prever um aguaceiro.
Dispersam-se os caminhantes,
Matraqueando os passeios.
Do estrondo da trovoada
Ouve-se rolar o eco.
E o vento faz ondular
As cortinas da janela.
Vem a seguir o silêncio
Mas sufoca-se, e não cessa,
Intermitente, a presença
Dos relâmpagos no céu.
Quando por fim a manhã,
Cintilante, vem secar,
Nas bermas e nas valetas,
A água da tempestade,
Só as tílias seculares,
Cheias de perfume e flor,
Nos olham com o olhar
De quem passou mal a noite.


Versos de Iuri  Jivago (1957)
Tradução de David Mourão-Ferreira

sábado, 25 de agosto de 2012

tenho de tratar das coisas- BARBRO DAHLIN





Tenho de tratar das coisas antes de partir.
Preciso de sapatos.
Preciso de uns bons sapatos.
Com solas de borracha.
Acho que isto vai ser duro.

Olhem para mim agora.

Vejo que me estou a aproximar com uma faca.
Vejo que me estou a aproximar com uma corda.
Alguma vez o tiro terá de ser disparado.
Importunei as pessoas com isto durante cinquenta anos.
Demorará meio segundo.

Porque é que me estão a olhar agora?

O amor não é para sempre.
Mas a morte é.
A morte é para sempre.

Adeus, vemo-nos mais tarde!



BARBRO DAHLIN (1940-2000)
Além de poeta e novelista, exercia psiquiatria.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Namorada







Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.


Carol Ann Duffy


(versão L. Parrado- original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Serenidade




Só há duas coisas : o meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência só se acende
quando o ser é contra ela:
e é assim que todo o conhecimento
e a matriz de toda a figura
é uma ferida,
e só quem chora
é imortal.
E a noite, mãe da sabedoria,
tem a forma inacabável do pranto.


Leopoldo María Panero
poema passado para português por LUÍS COSTA


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

e ainda me atrevo a amar





E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.

Em meu olhar o perdi todo.
É tão distante pedir. Tão perto saber que não há.

Alejandra Pizarnik



terça-feira, 17 de julho de 2012

Salmo





Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti


Jorge Sousa Braga

in "O NOVÍSSIMO TESTAMENTO e outros poemas", Assírio & Alvim
Lisboa, Abril de 2012



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Entrevista a João Cabral de Melo Neto




Abaixo, alguns trechos de uma entrevista com João Cabral de Melo Neto, concedida em 1986. O poeta dispensa maiores apresentações.


- Por que o senhor tem tanta prevenção contra a subjetividade? Há um conceito mais ou menos generalizado de que a poesia é uma manifestação extremada da subjetividade...

João Cabral
: "Há uma diferença. Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer "eu estou triste". Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do "eu estou triste".

(...)

- O senhor diz que a poesia que faz não é para ser amada. Não é porque o senhor não quer ou o senhor gostaria que suas poesias fossem amadas?

João Cabral
: "Não gostaria. O escritor corre o grande risco de se baratear. A popularidade é uma coisa terrível, nesse sentido. A popularidade acaba cercando o escritor e o artista de um mundo artificial e um interesse inteiramente artificial. O sujeito acaba fazendo aquilo que sente que o público gosta, em vez de fazer aquilo que acha que deve ser feito. Eu lembro de quando Manuel Bandeira fez oitenta anos. Havia quase manifestações populares, nas homenagens que fizeram a ele. Mas você acha que aquele pessoal algum dia leu Manuel Bandeira?".

- O senhor se considera, então, o quê? Um poeta popular ou um poeta conhecido? O senhor é conhecidíssimo, mas deve achar que só conhecem o nome João Cabral, não a obra ...

João Cabral: "É difícil dizer. O êxito teatral de "Morte e Vida Severina" é que tornou o meu nome conhecido. Mas não creio que minha poesia seja popular".

- O senhor sempre diz que não gosta de fazer poesia dada a emoções porque o que se chama comumente de emoção é algo feito à base de um sentimentalismo fácil e barato. O senhor diz, pelo contrário, que "emoção é outra coisa". Mas nunca ficou exatamente clara a definição que o senhor tem de "emoção". Dá para explicar - de uma vez por todas?

João Cabral
: "Minha definição de emoção não é nada de especial. É o que todos chamam de "emoção". O que acontece é que me recuso a explorar essa coisa diretamente. O interesse do poeta não é descrever suas emoções e criar emoções, é criar um objeto - se é poeta, um poema; se é pintor, um quadro - que provoque - emoções no espectador. Mas não explorar nem descrever a própria emoção. Quando digo que sou contra emoção é exatamente neste sentido: o de usar a minha emoção para fazer com ela uma obra, descrevê-Ia primariamente e construir, com ela, um poema".

- Quer dizer, afinal, que o senhor não é exatamente contra a emoção: é contra a exploração da emoção...

João Cabral
: "Exatamente! (Faz ar de alívio, como se a charada estivesse resol- vida). Quanto a esse descrever da emoção e da sentimentalidade, a grande maioria da poesia que se escreve no mundo é assim. A obrigação do poeta, repito, é criar um objeto, um poema, que seja capaz de provocar emoção no leitor".

- O que é que o senhor chama de "emoção intelectual"? Já vi o senhor usando esta expressão..:

João Cabral
: "Um grande crítico americano uma vez disse o seguinte de uma poetisa americana, Edna Miller: que ele não gostava da poesia que ela fazia porque não tinha interesse intelectual. É nesse sentido que eu digo. Você pode ver perfeitamente quais são os escritores que têm um interesse intelectual e quais são os que não têm. Confesso que o escritor que não tem interesse intelectual não me interessa.

A mim, me interessa enormemente a poesia de Joaquim Cardozo, mas nunca me interessou a poesia de Emílio Moura - de Minas Gerais. Eu sinto que não tinha interesse intelectual. Não só a poesia de Emílio Moura, mas a grande maioria dos poetas brasileiros. Aliás, dos poetas brasileiros, não, mas do que se chama no mundo todo de poesia. Um homem de mediana inteligência não vê interesse intelectual naquilo. Tenho a impressão de que pode ser um defeito meu. Mas confesso. A atividade intelectual é uma coisa que seduz. Vivo para ela. Quando leio um poeta que só é capaz de provocar essas emoções correntes, como saudade, melancolia ou tristeza, essa coisa não me interessa. Ora, se tenho minhas emoções, para que vou buscar emoções semelhantes numa outra coisa?".

- Quando o senhor se auto-intitula um "poeta artificial", o senhor se refere ao trabalho quase artesanal que tem com a poesia?

João Cabral: "Não apenas. Os assuntos que uso na poesia são "tirados pelos cabelos", como se diz. Fiz um poema sobre o ato de catar feijão. Você não imagina Alfonso de Guimarães, o pai, grande simbolista, fazendo um poema sobre o ato de catar feijão..."

O resultado poético do trabalho do senhor é obviamente sofisticado, sob o ponto de vista intelectual. Isso contradiz a intenção de fazer uma coisa simples? A que é que o senhor atribui esta defasagem entre a intenção de fazer uma coisa simples e o resultado - que é indiscutivelmente sofisticado?

João Cabral: "A coisa simples que quero não é fazer uma coisa boboca. O simples que almejo é chegar a uma forma que os outros entendam. Consigo raramente. e difícil traduzir as coisas de que falo de uma maneira acessível a todo mundo. Minha luta é esta: tentar botar uma coisa mais complexa numa linguagem mais simples possível. Confesso que geralmente eu fracasso".

"Minha luta é tentar botar coisas complexas numa linguagem simples.
Geralmente, fracasso"

Entrevista a João Cabral de Melo Neto


segunda-feira, 9 de julho de 2012

POEMA FORA DE PRAZO






Tinha no frigorífico sete palavras capitais
à espera de um dia de míngua:
mãe, mulher, sonho e respiração,
uma certa medida de sal e liberdade
e ainda não foi para morrer que nós nascemos
(em memória de Jorge de Sena).
E ao lado uma reserva de Mallarmé.


Por baixo do código de barras
dizia para manter tudo em lugar fresco.



(.....................................)
Agora que tanta falta me fazia
o poema ultrapassou o prazo de validade.
De qualquer modo de nada me valia:
há muito tempo que não pago a conta
da electricidade.



ANTERO DE ALDA

quarta-feira, 27 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

POEMA A MÁRIO CESARINY





(A Mário Cesariny)

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia!

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do
terceiro
Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam
Pregões de varina sem peixe
- peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA

António Maria Lisboa





quarta-feira, 20 de junho de 2012

privatize-se tudo




«Privatize-se tudo,privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago – (Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148)




terça-feira, 19 de junho de 2012

poemas políticos





Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


EGITO GONÇALVES
in "Poemas Políticos, 1952-1979"
Colecção CÍRCULO DE POESIA
MORAES EDITORES




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Táxi





Tenho vergonha de estender o braço
para chamar o táxi
tenho medo que ele me veja
tenho medo que ele me veja
e ainda assim
não pare.


Ana Cristina César



domingo, 3 de junho de 2012

Encontrei pessoas




Encontrei pessoas que,
quando se lhes perguntava o nome,
tímidas — como se não pudessem exigir
o direito a ter também um nome —
respondiam «Fraulein Christian» e depois
«como o nome próprio», queriam simplificar
a apreensão das coisas,
nenhum nome mais difícil do que «Popiol» ou «Barbadaterra» —
«como o nome próprio» — por favor, não sobrecarregue as forças da Memória!

Encontrei pessoas que
cresceram num quarto com pais e quatro irmãos,
e à noite, os dedos nos ouvidos,
aprenderam no fogão da cozinha
cresceram, lindas por fora e ladylike como condessas —
e por dentro suaves e aplicadas como Nausica,
e tinham a fronte pura dos anjos.

Muitas vezes me perguntei, sem nunca achar resposta,
de onde vêm a doçura e a bondade,
e hoje inda o não sei e tenho de ir-me embora agora.


Gottfried Benn
"50 Poemas", tradução de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, Janeiro de 1998



domingo, 20 de maio de 2012

Jardín de sombras




Hombres aniquiladores de la rosa:
Cultivan flores en desgracia.
Tendidos, a punto de latir.
Remotos, invisibles.
Inocentes de tanta claridad.
Sus párpados blancos son la huella del mar,
prendida a los remos del naufragio.
Cualquier día llegará a galope
una mujer vestida de dolor.
Marchará delante, como luz,
como tiempo roto.
Curva y tensa,
arañará el ardor de las tinieblas


Yirama Castaño
(Socorro, Colombia, 1964)




terça-feira, 15 de maio de 2012

o jogo em que andamos





Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que jogo com a morte.




juan gelmanversão de luís filipe parrado



sexta-feira, 11 de maio de 2012

CHOREI COM OS CÃES




Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada, estreita, iluminada pela lua cheia.
De repente, um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal, um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho:
- É pá, mataste um cão sem dono.
A lua cheia inundava o silêncio e eu levei-o ao colo para dentro do carro.
Quando cheguei a casa, só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e encarreguei-o de convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários, quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para cavar a sepultura, num canto da horta, onde espontâneas medravam hortelãs.
Todos reunidos no silêncio.
Um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou
em cima da sepultura.




Eufrázio Filipe



in  http://mararavel.blogspot.pt/


quinta-feira, 3 de maio de 2012

SAI DE CASA




Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar,deita-o ao lixo,
Para que venha o vento,o sol,a chuva,os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.


Manuel Resende

segunda-feira, 30 de abril de 2012

dez palmos acima da insignificância




vivo na cave do universo
a contar os buracos da lua
e as migalhas que caem
da mesa nua


os que por mim passam
fingem que não me vêem
vasculhando os restos
e o rasto das nuvens


vivo no estrume do subsolo
meio caminho escavado
entre as artérias da penúria
e o sangue da usura


os que a mim se chegam
com falas mansas e dentes como lanças
atiram-me que sou um fardo
um espinho cravado nos luminosos astros


ainda assim
eu ardo
dez palmos acima da insignificância


v. Solteiro

in" a arquitectura das palavras"

sábado, 28 de abril de 2012

A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012




de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada

e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade

foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas

ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade

legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa do operário

há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo

Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós

Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?



Jorge Castro
15 de Abril de 2012
sete mares

domingo, 18 de março de 2012

ATROPELAMENTO E FUGA




Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta(morta como se
estivesses morta!),olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!

Manuel António Pina
In "Poesia, com Saudade da Prosa"
(Uma antologia pessoal)

SEGREDO





Lá, na última das celas
nódoa negra de açoites,
não há dias, não há noites
porque as as noites têm estrelas.

Lá, só na sombra que dói.
Sombra e brancura de um osso
que o preso remói, remói
no fundo do seu poço.

Lá, quando o vierem buscar
amanhã, depois ou logo,
terá na alma mais um fogo,
mais uma chama no olhar.

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"

SE AMANHÃ ACORDO



De súbito respira-se melhor e o ar da primavera
chega ao fundo. Mas foi somente um prazo
que o sofrimento concede para dizermos a palavra.
Ganhei um dia; tive o tempo
na minha boca como um vinho.
Costumo procurar-me
na cidade que passa como um barco de loucos pela noite.
Encontro um rosto apenas: homem velho e sem dentes
a quem a dinastia, o poder, a riqueza, o génio,
tudo lhe deram afinal, excepto a morte.
É um inimigo mais temível que Deus,
o sonho que posso ser se amanhã acordo
e sei que vivo.
Mas de súbito a alvorada
cai-me entre as mãos como uma laranja rubra.

Jorge Gaitán Durán
(1924-1962)
(Trad.: José Bento)
In"Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O MEU PAÍS FICA AQUI



 Reza a Deus  quando está só  
 E a Maria na multidão

 O  meu país fica aqui
 È velho como uma  espada
 Pequeno como  altar  de troca   
  

O  meu  país  serve a demência
Com paciência  bovina
Fica  aqui  ao pé  do mar


Chora  com um trevo  na mão
 A  busca  da  sorte
 A  ciência  da escuridão


 O  meu pais fica aqui
 Onde  o vizinho  morto
 Dá  dois rostos  de  televisão  

José Ribeiro Marto
in http://vaandando.blogspot.com/

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Retornos




Voltou. Não disse nada.
Parecia muito perturbado.
Deitou sem tirar a roupa.
Escondeu se debaixo do cobertor,
as pernas dobradas.
Tem quarenta anos, mas não neste momento.
Está vivo - mas como no ventre materno
atrás de sete peles, na escuridão que o defende.
Amanhã dá palestra sobre homeostasis
na cosmonáutica metagalática.
Por enquanto se encolhe, adormece.
Os filhos da época

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida, que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.

WISLAWA SZYMBORSKA
Tradução: Ana Cristina Cesar

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Clarice Lispector






Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos



Adília Lopes

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A propósito de "A Sombra da Romã" - um Inédito em "CASAL DAS LETRAS"

Inédito

O TORMENTO DA NEVE


Numa cadeira de rodas que não rodava
Vi uma mulher coroada por uma montanha de neve.
Na relva do tapete uma criança de joelhos
Com um pássaro morto no centro da cabeça.
É ela que escreve esta página suja de terra
Com pancadas vivas de violência de sangue e uma gazela.
Não sei se Deus estava presente ou chorava
Mas as janelas sem estrelas e esta beleza sem nexo
Gritaram ouro cortado entre os dedos e o sexo
Cuspiram enxofre para dentro do poema.



Maria Azenha



cartas do amor urgente





entrego-te a folha escrita
mas és tu que a vais entregar
tu não sabes
mas levas a minha vida na tua mão

confio-te o melhor de mim
porque as minhas palavras
ganham-me sempre em concurso
com os meus atos tresloucados

leva à tua irmã as minhas letras
ainda não é dia dos namorados
mas eu já a namoro
com o normal romantismo
de um coração que envia mensagens

não acredito nas soluções avançadas
para sentimentos antigos
o meu coração pode vir a ter
um pace maker
mas não pode
digitalizar
porque ama mas não é lógico

então espero espero
que a carta vá e volte outra
perfumada amorosa
em papel seda

este processo da produção
da carta de amor
não me sai da mente
por isso chamo a este poema
cartas * do amor * urgente


c peres feio

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O telefone e a metafísica

Acontece que
vais à caderneta de telefones e ela
que antes (sabias) estava cheia
de números e nomes
repentinamente está vazia

De A a Z
vazia.

Onde tudo e todos?
Roubaram os ossos do telefone,
que não te pode levar a lugar nenhum.

Perplexo, descobres que existir
é deserto.

Eucanaã Ferraz

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A MI MADRE




Añoro el pan de mi madre,
El café de mi madre,
Las caricias de mi madre...
Día a día,
La infancia crece en mí
Y deseo vivir porque
Si muero, sentiré
Vergüenza de las lágrimas de mi madre.
Si algún día regreso, tórname en
Adorno de tus pestañas,
Cubre mis huesos con hierba
Purificada con el agua bendita de tus tobillos
Y átame con un mechón de tu cabello
O con un hilo del borde de tu vestido...
Tal vez me convierta en un dios,
Sí, en un dios,
Si logro tocar el fondo de tu corazón. Si regreso. Tórname en
Leña de tu fuego encendido
O en cuerda de tender en la azotea de tu casa
Porque no puedo sostenerme
Sin tu oración cotidiana.
He envejecido. Devuélveme las estrellas de la infancia
Para que pueda emprender
Con los pájaros pequeños
El camino de regreso
Al nido donde tú aguardas.


Mahmoud Darwish