terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ano novo




Virás de manto realmente novo
Entre searas ardentes e mãos puras?
Poderemos enfim chamar-te novo,
Ano novo entre as tuas criaturas?

Deceparás enfim as mãos tiranas?
Será feita, enfim, nossa vontade?
Eu queria acreditar, vozes humanas,
Acreditar em ti, deus da verdade!

Como eu queria trazer-te a este mundo
(Mas onde te escondeste? Desde quando?)
Ó deus livre, sem espinhos, ó fecundo
Senhor do fogo alegre e não do pranto!

Ó ano novo, a minha esperança é cega.
Transforma em luz a nossa própria treva.


Alberto de Lacerda (1928-2007)


domingo, 21 de dezembro de 2008

dá-me o puro cansaço


Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.

Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.

Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.

Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.

"Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limites
de um corpo?"

Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?

Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.

Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.

SALVADO, Gonçalo. IRIDISCÊNCIAS. Castelo Branco: Sirgo, 2003

Naufragio de la niña de tu ojo derecho




La niña de tu ojo derecho ha perdido la infancia,
y todas las imágenes que ha visto se sumergen en llanuras abisales,
el océano reclama a la niña de tu ojo derecho,
y la hunde en su seno,
diligente le quita las sandalias,
quiere el agua que las huellas dejadas en la arena sean leves,
que se borre de la tierra cualquier reflejo que hable de su paso.
Por eso la marea arrebata a la costa los restos de su sombra,
y entrega al horizonte los colores.
Mezcla el océano olvido con arena,
y escupe en la niña de tu ojo derecho con la saliva sagrada de los náufragos.
Un blanco duelo de espuma la llama por su nombre de sombra,
por un instante le hierve la memoria,
tu niña se pierde entre jirones,
el abismo le arrebata la infancia y las sandalias.

Elena Soto de Métricas del alma


Elena Soto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

GRATIDÃO QUE NEM SABE A QUEM DEVE SER GRATA







Gratidão de ser
por estes anos
e partículas restantes.

Pela amizade,
que chega a confundir o amor.

Pela bondade,
que torna a solidão desvalida.

Pela hombridade,
à altura do céu.

Pela beleza,
que só à santidade
sobrepassa.

E é flagrante, perdulária,
noutros renascente.

Gratidão
que nem sabe
a quem deve ser grata.

Pelas aves nutrindo os filhos
de penugem e voo.

Pela lentidão escrupulosa
da tartaruga, igual à de Plutão.

Pela leveza materna do vento
transportando pólen.

Pelo calor humílimo
da joaninha sobre a nossa mão.

E por estar na terra
uma só vez, ao sol,
nada pedindo, nenhum segredo,
como um velho lobo-do-mar.


* António Osório (n. 1933)


Poeta e ensaísta, António Osório de Castro nasceu em Setúbal, a 1 de Agosto de 1933.
Concluído o curso de Direito, fixou-se em Lisboa, onde se dedicou ao exercício da advocacia. Foi bastonário da Ordem dos Advogados entre 1984 e 1986, administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente. Dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território, que fundou, e é director de Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas.
Colaborador de várias revistas literárias, publicou textos e poemas em publicações como O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice, Colóquio/Letras e Revista Anteu de 1954. A Raiz Afectuosa (1972) foi a sua primeira obra publicada. Seguiram-se A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva e o Mais (1983), obtendo com os dois últimos títulos o Prémio de Poesia do Município de Lisboa.
Tem livros publicados no Brasil, em Espanha, em França e em Itália e está também traduzido em revistas para francês, inglês e catalão. Tem participado em recitais de poesia no país e no estrangeiro, designadamente em Londres, Paris, Clermont-Ferrant, Roma, Madrid, Cuenca, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Barcelona, Salzburgo, Viena e Frankfurt.
Tendo-se estreado como poeta apenas na década de 70, embora já em 1954 colaborasse na revista Anteu, António Osório sai de algum modo da geração poética de que provém, sem contudo se integrar nas correntes literárias que por então se impunham: mais próximo da claridade antiga das vozes suas contemporâneas (Sophia, David Mourão-Ferreira, Ramos Rosa...) do que de certo formalismo de estruturas que caracterizaria a poesia portuguesa dos anos sessenta e setenta, a sua poesia representa nesse sentido uma inflexão nos caminhos do que então se tinha por modernidade. A Raiz Afectuosa determina em boa parte a tonalidade de uma voz que se assume como vocação primordial, íntima e natural para uma espécie de canto da criação e do mistério da vida e da morte, do animal e do humano. Profunda, instintivamente afectuoso, este é um canto de grata, "inabalável ternura pelas criaturas" (Carlos Nejar, Prefácio a Emigrante do Paraíso, São Paulo, 1981), onde a morte figura sempre como escândalo, ainda assim parte integrante de um universo essencialmente uno e por essa unidade apaziguado. "Dizer com claridade o que existe em segredo" (Cecília Meireles, epígrafe a Planetário e Zoo dos Homens, 1990) é o expediente da força reveladora desta poesia que tem tanto de religiosa na capacidade de diálogo com os deuses e o universo como de pagã na sua proximidade dos animais. Esse o sentido muito particular das últimas obras do António Osório, mas em especial de Ofício dos Touros (1991), talvez a mais elegíaca, mas também - surpreendentemente na tranquila harmonia cósmica do conjunto da sua poesia - das mais violentas nessa intimidade e nesse respeito pela dignidade de um muito humano medo animal. Neste contexto deve ainda mencionar-se o título mais recente - Bestiário (1997) -, a respeito do qual, e depois de lhe salientar "esta reverência para com o real", Eugénio Lisboa refere: «O poeta fala deles [dos animais] com a mesma emoção discreta, com a mesma ligação 'de ordem afectiva indissolúvel' que o liga aos humanos de todos os ofícios» (cfr. JL de 1 de Julho de 1998). Mas já antes, e talvez sobretudo desde Aforismos Mágicos (1986), a poesia de António Osório tendia para o poema breve, tenso, e para a expressão contida de uma essencialidade vital: aforística é tendencialmente a escrita não apenas desse mas da generalidade dos livros de António Osório, onde os poemas se inscrevem ao ritmo do hai-ku, num despojamento de ressonância oriental e muitas vezes firmados por uma espécie de moralidade de fábula. Mais do que de discursos poéticos, trata-se de inscrições poéticas que parecem ser o resultado de uma grande e humilde disponibilidade para a atenção a uma secreta, calada evidência das coisas: «Essa arte vestigial, esse manejo delicado, amoroso e vigilante das pequenas coisas, essa vibrátil pulsação do que parece não ter peso ou relevância, eis um dos notáveis atributos desta obra que reconhece com lucidez a sua vocação prestável: 'O pequeno rebocador ajuda silenciosamente o grande petroleiro' (Aforismos Mágicos, 19) e, com efeito, o ínfimo, o insignificante, o humílimo, adquirem um estatuto muito particular nesta poesia capaz de devotar-se 'a um mirto' (A Raiz Afectuosa, 42) ou a 'uma lupa' (Décima Aurora, 94), capaz de atentar na rasteira beleza de um 'buxo' (A Ignorância da Morte, 75), no 'último segundo de uma larva' (A Ignorância da Morte, 39), na graça que os milénios preservaram em duas pequenas 'tanagras' (A Ignorância da Morte, 83) ou na textura de uma 'gota de água' em cujo interior nos convida a penetrar (cfr. Décima Aurora, 83). Não devemos espantar-nos, pois desde a abertura de A Raiz Afectuosa fora acentuada essa vontade de não esquecer o ínfimo: 'Com os anos/ a pouco e pouco/ a raiz afectuosa/ penetrou/ no fundo da terra/ até chegar/ ao mais pequeno/ e mais antigo/ veio de lágrimas' (A Raiz Afectuosa, 13)'» (cfr. Fernando Pinto do Amaral, "António Osório: O Humano e Humilde Labor da Poesia", in O Mosaico Fluido). Os últimos livros de António Osório configuram-se muitas vezes como poemas em prosa ou desenvolvem-se como pequenas narrativas ou crónicas da notação sensível de uma realidade onde ainda assim ressaltam aquelas mesmas características.

Poesia:

A Raiz Afectuosa, 1972
A Ignorância da Morte, 1978)
Emigrante do Paraíso (antologia), 1981
O Lugar do Amor, 1981
Décima Aurora, 1982
Adão, Eva e o Mais, 1983
António Osório (antologia), 1984
Aforismos Mágicos, 1986
Planetário e o Zoo dos Homens, 1990 [Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia]
Inquirição / Ênquete, 1991
Ofício dos Touros, 1991
Antologia Poética, 1994
Felicidade da Pintura, 1996
Junto ao Sado e Arrábida, 1996
Crónica da Fortuna, 1997
Bestiário, ilust. de Graça Morais, 1997
Aforismos Mágicos / D. Quixote e os Touros (edição conjunta de Aforismos Mágicos e Ofício dos Touros), com reproduções de pinturas de Júlio Pomar, 1998
Libertação da Peste, 2002


Ensaio:

A Mitologia Fadista, 1974
O Amor de Camilo Pessanha, 2005

(recebido de "OS SONS FÉRTEIS")

Oración para un extranjero





VI

Lluvia,
somos dos extranjeros,
mi nombre como el tuyo es una travesía,
un deambular por puertas cerradas para siempre.

La gente entra en mi sueño como por otra casa
y tus breves colores se deshacen contra el olvido,
pero ya lo sabemos,
no hay nada que tratar con su navaja,
nada que preguntar en sus regiones.

Lluvia,
somos dos extranjeros,
nos separa una herida.




© Jorge Boccanera

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Monumento al mar

Monumento al mar

Paz sobre la constelación cantante de las aguas
Entrechocadas como los hombros de la multitud
Paz en el mar a las olas de buena voluntad
Paz sobre la lápida de los naufragios
Paz sobre los tambores del orgullo y las pupilas tenebrosas
Y si yo soy el traductor de las olas
Paz también sobre mí.

He aquí el molde lleno de trizaduras del destino
El molde de la venganza
Con sus frases iracundas despegándose de los labios
He aquí el molde lleno de gracia
Cuando eres dulce y estás allí hipnotizado por las estrellas

He aquí la muerte inagotable desde el principio del mundo
Porque un día nadie se paseará por el tiempo
Nadie a lo largo del tiempo empedrado de planetas difuntos

Este es el mar
El mar con sus olas propias
Con sus propios sentidos
El mar tratando de romper sus cadenas
Queriendo imitar la eternidad
Queriendo ser pulmón o neblina de pájaros en pena
O el jardín de los astros que pesan en el cielo
Sobre las tinieblas que arrastramos
O que acaso nos arrastran
Cuando vuelan de repente todas las palomas de la luna
Y se hace más oscuro que las encrucijadas de la muerte

El mar entra en la carroza de la noche
Y se aleja hacia el misterio de sus parajes profundos
Se oye apenas el ruido de las ruedas
Y el ala de los astros que penan en el cielo
Este es el mar
Saludando allá lejos la eternidad
Saludando a los astros olvidados
Y a las estrellas conocidas.

Este es el mar que se despierta como el llanto de un niño
El mar abriendo los ojos y buscando el sol con sus pequeñas manos temblorosas
El mar empujando las olas
Sus olas que barajan los destinos

Levántate y saluda el amor de los hombres

Escucha nuestras risas y también nuestro llanto
Escucha los pasos de millones de esclavos
Escucha la protesta interminable
De esa angustia que se llama hombre
Escucha el dolor milenario de los pechos de carne
Y la esperanza que renace de sus propias cenizas cada día.

También nosotros te escuchamos
Rumiando tantos astros atrapados en tus redes
Rumiando eternamente los siglos naufragados
También nosotros te escuchamos

Cuando te revuelcas en tu lecho de dolor
Cuando tus gladiadores se baten entre sí

Cuando tu cólera hace estallar los meridianos
O bien cuando te agitas como un gran mercado en fiesta
O bien cuando maldices a los hombres
O te haces el dormido
Tembloroso en tu gran telaraña esperando la presa.

Lloras sin saber por qué lloras
Y nosotros lloramos creyendo saber por qué lloramos
Sufres sufres como sufren los hombres
Que oiga rechinar tus dientes en la noche
Y te revuelques en tu lecho
Que el insomnio no te deje calmar tus sufrimientos
Que los niños apedreen tus ventanas
Que te arranquen el pelo
Tose tose revienta en sangre tus pulmones
Que tus resortes enmohezcan
Y te veas pisoteado como césped de tumba

Pero soy vagabundo y tengo miedo que me oigas
Tengo miedo de tus venganzas
Olvida mis maldiciones y cantemos juntos esta noche
Hazte hombre te digo como yo a veces me hago mar
Olvida los presagios funestos
Olvida la explosión de mis praderas
Yo te tiendo las manos como flores
Hagamos las paces te digo
Tú eres el más poderoso
Que yo estreche tus manos en las mías
Y sea la paz entre nosotros

Junto a mi corazón te siento
Cuando oigo el gemir de tus violines
Cuando estás ahí tendido como el llanto de un niño
Cuando estás pensativo frente al cielo
Cuando estás dolorido en tus almohadas
Cuando te siento llorar detrás de mi ventana
Cuando lloramos sin razón como tú lloras

He aquí el mar
El mar donde viene a estrellarse el olor de las ciudades
Con su regazo lleno de barcas y peces y otras cosas alegres
Esas barcas que pescan a la orilla del cielo
Esos peces que escuchan cada rayo de luz
Esas algas con sueños seculares
Y esa ola que canta mejor que las otras

He aquí el mar
El mar que se estira y se aferra a sus orillas
El mar que envuelve las estrellas en sus olas
El mar con su piel martirizada
Y los sobresaltos de sus venas
Con sus días de paz y sus noches de histeria

Y al otro lado qué hay al otro lado
Qué escondes mar al otro lado
El comienzo de la vida largo como una serpiente
O el comienzo de la muerte más honda que tú mismo
Y más alta que todos los montes
Qué hay al otro lado
La milenaria voluntad de hacer una forma y un ritmo
O el torbellino eterno de pétalos tronchados

He ahí el mar
El mar abierto de par en par
He ahí el mar quebrado de repente
Para que el ojo vea el comienzo del mundo
He ahí el mar
De una ola a la otra hay el tiempo de la vida
De sus olas a mis ojos hay la distancia de la muerte.

Vicente Huidobro

***
Monumento al mar forma parte de los Últimos poemas, publicados por su hija Manuela en 1948, poco después de su muerte, y que recoge parte de los numerosos textos inéditos que dejó el poerta.
poema retirado deste lugar -Elena Soto

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Infância

Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…


mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?

( ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)




( à memória de Anabela Mafalda, com muita dor)

Em todos os ramos
por onde pousaste

reclinei-me de frio.



Armando Artur
1962


Armando Artur João nasceu em 1962, em Alto-Molocué. Pertence à Direcção de Associação dos Escritores, de que é actualmente secretário- geral. É um dos poetas revelados como o Movimento Charrua. Livros de poesia: Espelhos dos dias (1986) o Hábito das manhãs ( 1990), Estrangeiros de nós próprios ( 1996) e os Dias em riste ( 2002)

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Hoje não escrevo



Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.

E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

(enviado pela Maria Gomes)

A NOITE DO DIA DE FESTA

A NOITE DO DIA DE FESTA – Leopardi


Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando ao longe, os montes.
As ruas e caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
- E à antiga natureza onipotente
Que me volta à aflição – dirijo os olhos.
“Para você, nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho,
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
( Menos eu, que nesse rol não compareço ).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Se penso em como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, e tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.


Tradução de Décio Pignatri

enviado por Marcela

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Canção de Amor da Jovem Louca




Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Syvia Plath

translated by Maria Luíza Nogueira
(in A REDOMA DE CRISTAL, Ed. Artenova, Brazil, 1971, p. 255)

domingo, 26 de outubro de 2008

poema de gonçalo de sousa


a mágoa atravessa os dias como a chuva miúda.
por ela me construo um labirinto invisível.
prova-se que não é a realidade que nos atormenta.


gonçalo de sousa
2003-04-28

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

poema XXIX




antes do tempo da pergunta voltada para trás
antes das estrelas iminentes
antes das vozes caladas na chuva
antes da rosa

dias há para perceber as alturas antiquíssimas
que viajam em vertigem


maria costa

in " ao fundo do jardim"

nocturno e elegia




Se perguntar por mim, traça no solo
uma cruz de silêncio e fria cinza
sobre o poluto nome que eu padeço.

Se perguntar por mim, diz que sou morto
e apodrecendo estou sob as formigas.
Que sou o ramo de uma laranjeira,
o simples cata-vento de uma torre.
Não lhe digas jamais que choro ainda
afagando o vazio de sua ausência,
onde ficou a sua cega estátua impressa,
sempre aguardando que regresse o corpo.
Um loureiro que canta e sofre – é a carne,
e eu em vão esperei à sua sombra.
Já é tarde. Sou um mudo peixezinho.

Se perguntar por mim, dá-lhe estes olhos,
estas grises palavras, estes dedos;
dá-lhe no lenço a gota do meu sangue.
Diz-lhe que me perdi, que estou mudado
em obscura perdiz, em falsa jóia
a uma orilha de juncos olvidados:
diz-lhe que eu ando do açafrão ao lírio.


Diz-lhe que eu quis eternizar seus lábios,
habitar o palácio de sua fronte.
Navegar uma noite em seus cabelos.
Que aprender quis a cor de suas pupilas
e apagar-me em seu peito, suavemente,
nocturnamente imerso, aletargado
em um rumor de veias e surdina.


Não posso agora ver, ainda que implore,
O corpo que vesti de meu carinho.
Em róseo caracol transfigurado,
Quedei-me fixo, roto, desprendido.
E, se de mim descredes, crede ao vento,
mirai o norte, interrogai os astros.
E vos dirão se espero ou se anoiteço.


Ah! se pergunta, diz-lhe o que sabes.
Hão de falar de mim as oliveiras,
um dia, quando eu seja o olho da Lua,
sobre a fronte da noite colocado,
adivinhando conchas das areias,
o rouxinol suspenso de uma estrela,
e das marés o amor adormecente.


Estou triste, é verdade, porém tenho
um sorriso semeado no tomilho,
em Saturno escondi outro sorriso,
e perdi um terceiro não sei onde.
Melhor será que espere a meia-noite,
O cheiro dos jasmins, extraviado,
mais a vigília do telhado, fria.


Não me recordes seu entregue sangue,
e nem que eu pus espinhos e gusanos
a morder-lhe a amizade – brisa nuvem.
Não sou o papão que lhe cuspiu na água
nem o que um lasso amor paga em moedas.
Não sou o freqüentador daquela casa
presidida por uma sanguessuga!


( Ali vai ele com um buquê de lírios
para que o aperte um anjo de asas turvas.)
não sou aquele que atraiçoa as pombas,
os pequeninos, as constelações...

Sou uma verde voz desamparada,
solícita a buscar sua inocência
com um breve silvo de pastor ferido.


Sou uma árvore, a ponta de uma agulha,
um alto gesto eqüestre em equilíbrio;
sou a andorinha em cruz, o oleoso vôo
de uma coruja, o susto de um esquilo.

Sou tudo, menos isso que debuxa
com lodo o dedo índice em paredes
de lupanares e de cemitérios.


Tudo, menos aquilo que se oculta
sob uma seca máscara de esparto.

Tudo, menos a carne que procura
anéis voluptuosos de serpente
cingindo em espiral viscosa e lenta.

Sou o que me destines, o que inventes
para enterrar meu pranto na neblina.


Se perguntar por mim, diz-lhe que habito
na folha dos acantos e na acácia.
Oh, diz-lhe, se preferes, que sou morto.
Dá-lhe o suspiro meu, dá-lhe o meu lenço:
meu fantasma na nave dos espelhos.
Talvez me chore no loureiro, ou busque
meu recordo na forma de uma estrela.

Emilio Ballagas ( Cuba – 1910-1954 )

o presente


El present

I

No hi ha veritat. Sols present.
Pols feta aire. Muntanyes immòbils.
Però la realitat no és visible
amb els ulls de la mare.
El present com a crestall cúbic
lluu sols per una de les seves escates.
La realitat és sols un concepte. Una ficció.
Figuració de la sang. Cal•ligrama de l'ànima.



Àngel Terrón(De Ternari, 1986)

dez mandamentos para escrever com estilo


Diez mandamientos para escribir con estilo


.Lo que importa más es la vida: el estilo debe vivir.
.El estilo debe ser apropiado a tu persona, en función de una persona determinada a la que quieres comunicar tu pensamiento.
.Antes de tomar la pluma, hay que saber exactamente cómo se expresaría de viva voz lo que se tiene que decir. Escribir debe ser sólo una imitación.
.El escritor está lejos de poseer todos los medios del orador. Debe, pues, inspirarse en una forma de discurso muy expresiva. Su reflejo escrito parecerá de todos modos mucho más apagado que su modelo.
.La riqueza de la vida se traduce por la riqueza de los gestos. Hay que aprender a considerar todo como un gesto: la longitud y la cesura de las frases, la puntuación, las respiraciones; También la elección de las palabras, y la sucesión de los argumentos.
.Cuidado con el período. Sólo tienen derecho a él aquellos que tienen la respiración muy larga hablando. Para la mayor parte, el período es tan sólo una afectación.
.El estilo debe mostrar que uno cree en sus pensamientos, no sólo que los piensa, sino que los siente.
.Cuanto más abstracta es la verdad que se quiere enseñar, más importante es hacer converger hacia ella todos los sentidos del lector.
.El tacto del buen prosista en la elección de sus medios consiste en aproximarse a la poesía hasta rozarla, pero sin franquear jamás el límite que la separa.
.No es sensato ni hábil privar al lector de sus refutaciones más fáciles; es muy sensato y muy hábil, por el contrario, dejarle el cuidado de formular él mismo la última palabra de nuestra sabiduría.


Friedrich Nietzsche




ler + em "ciudad seva"

a ovelha negra



La Oveja negra

En un lejano país existió hace muchos años una Oveja negra.
Fue fusilada.
Un siglo después, el rebaño arrepentido le levantó una estatua ecuestre que quedó muy bien en el parque.
Así, en los sucesivo, cada vez que aparecían ovejas negras eran rápidamente pasadas por las armas para que las futuras generaciones de ovejas comunes y corrientes pudieran ejercitarse también en la escultura.

Augusto Monterroso. La oveja negra y demás fábulas


terça-feira, 21 de outubro de 2008

o mar chama...



Tacteio
o insondável
abismo
da ternura
no glacial

cume
dos ombros


A sua sinuosa
orografia
lembra

a textura
das algas
flutuando
à deriva
num mar

em chamas





in " A arquitectura das palavras" de Vítor Solteiro

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Calabouço



Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave, não a tenho mais.

Todos esses monstros, com seus corpos flamejantes, presos em jaulas de cobre, rogando às forças do abismo que os libertem.

Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave, a perdi naquela tarde.

Um dia, as luzes da fonte eram negras. Com uma rocha, vedaram a entrada da caverna. As cabeças em estacas marcavam o caminho.

Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave esqueceu-se na fenda da cratera.

Ontem não há mais e o que resta é essa noite interminável e a faca do vento gelado nas costas e os açoites dos gritos de dor

Quem dera pudesse dissipar a sombra
A chave, a levou o príncipe das trevas.

Hoje os astros sem céu possível, nada que emane das paredes que se fecham sobre os corpos onde as almas se escondem.


Adriana Versiani
Ouro Preto – MG, Brasil- 1963



domingo, 19 de outubro de 2008

existe uma escritura poética?


O GRAU ZERO DA ESCRITURA*
Seguido de Novos ensaios críticos
Por Roland Barthes / Tradução: João Batista do Lago.

EXISTE UMA ESCRITURA POÉTICA?

Na época clássica, a prosa e a poesia são magnitudes, sua diferença é mensurável; não se encontram nem mais nem menos distantes que dois signos distintos, são contíguos, ou seja, encontram-se ao longo do tempo ocupando lugar de proximidade, de vizinhança de adjacência. Contudo, apesar dessa contigüidade, a prosa e a poesia apresentam diferenças de quantidade. Infere-se que a Prosa é um discurso mínimo, veículo mais econômico do pensamento, e se, ao mesmo tempo infiro que a, b, c são atributos particulares da linguagem, inúteis, porém decorativos como o metro, a rima, assim como o ritual das
imagens, toda a superfície das palavras concretizará numa dupla equação de Monsieur Jourdain:
Poesia = prosa + a + b + c
Prosa = poesia – a – b – c
Conclui-se, a partir de então, que a Poesia é [e será] sempre diferente da Prosa.
Entretanto, é preciso notar que a diferença não é de essência, mas de quantidade. Isto não atenta contra a unidade da linguagem, que é um dogma clássico. Há uma quantificação diferenciada dos modos ou formas de falar segundo as especificidades: aqui prosa e eloqüência, ali poesia e preciosismo, todo um ritual mundano das expressões, porém sempre uma linguagem única refletindo as eternas categorias do espírito. A poesia clássica era sentida como uma variação ornamental da prosa, o fruto de uma arte (quer dizer: de
uma técnica), nunca como uma linguagem diferente ou como o produto de uma
sensibilidade particular. Toda poesia não é, então, mais que equação decorativa, alusiva ou saturada de uma prosa virtual que se gera em essência e em potência em qualquer modo de expressar-se. “Poética”, na época clássica, não designa nenhuma extencialidade, nenhuma densidade particular do sentimento, nenhuma coerência, nenhum universo separado, mas somente a inflexão de uma técnica verbal, isto é, a de expressar-se segundo regras mais belas, portanto esteticamente mais elaboradas que a conversação natural, quer dizer, a
projeção exteriorizada de um pensamento interno que surge organizado de dentro do Espírito, uma palavra socializada pela evidência mesma de sua convenção.
Sabemos que pouco ou quase nada – ou nada mesmo! – sobreviveu dessa estrutura
na poesia moderna, p. e., não na poesia de Baudelaire, mas na poesia de Rimbaud, a não ser que se queira retomar, segundo um modo tradicional modificado, os imperativos formais da poesia clássica: quando os poetas instituem um espírito para a palavra como se fora uma Natureza rígida, que reúne a um só tempo a função e a estrutura da linguagem. A Poesia não mais é uma Prosa ornamentada ou amputada de suas liberdades. É uma qualidade irredutível e sem heranças. Não mais é um atribuo. É substância e, por
conseguinte, pode muito bem renunciar aos signos, pois carrega consigo sua natureza, não necessitando “gritar” além de sua identidade: as linguagens poéticas e prosaicas estão suficientemente separadas para poderem prescindir dos signos de suas alteridades, ou seja, de se representarem como fato de ser um outro ou qualidade de uma coisa ser outra.
Assim sendo, as pretendidas relações entre o pensamento e a linguagem se invertem; na arte clássica, um pensamento já formado engendra uma palavra que o “expressa” e o “traduz”. O pensamento clássico não contém duração [tempo], a poesia clássica somente possui a duração necessária para a sua disposição técnica. Contrariamente, na poética moderna, as palavras processam um encadeamento formal, donde emana pouco a pouco uma densidade intelectual ou sentimental impossível de existir sem elas [as palavras]; assim é a palavra o tempo [duração] “grávida” de uma gestação mais espiritual, durante a
qual o “pensamento” é preparado, instalado pouco a pouco na fortuidade ou, melhor dizendo, na causalidade das palavras – sem rumo, nem ordem....

_____

Esta “árvore” verbática, donde cairá o fruto maduro de uma significação, supõe, por certo, um tempo poético que já não é o de uma “fabricação”, mas o [tempo] de uma aventura possível, o encontro de um signo e de uma intenção. A Poesia moderna se opõe a arte clássica por uma diferença que capta toda a estrutura da linguagem e que não deixa entre essas duas poesias outro ponto comum que não seja o de uma mesma intenção sociologia.
A economia da linguagem clássica (Prosa e Poesia) é relativa [relacional], ou seja, as palavras são as mais abstratas possíveis em proveito das relacionalidades. Nenhuma palavra contém em si toda a massa suficientemente capaz de traduzir todo conteúdo ou profundidade [de si mesma], posto que ela [a palavra] é apenas o signo de uma coisa e, muito mais que isso, o caminho de um vínculo. Longe de se submergir numa realidade interna consubstancial, isto é, “que es de la misma sustancia, naturaleza indivisible y esencia que outro”, ao seu pensamento, se extiende, apenas proferida, em direção [movimento] a outras palavras, formando uma cadeia superficial de intenções.
Analogamente, se pousarmos o olhar sobre a linguagem matemática acabar-se-á por compreender - possivelmente! – a natureza relacional entre a prosa e a poesia clássicas: sabe-se que na escritura matemática não somente cada quantidade prevê um signo, mas também que as relações que ligam essas quantidades estão transcritas também por meio de uma marca operacional de igualdade [=] ou de diferença [≠]; pode-se dizer que todo o movimento da obra matemática provém de uma leitura explícita desses relacionamentos.
Do mesmo modo, a linguagem clássica está dotada desse mesmo movimento, contudo, sem o mesmo rigor: suas “palavras”, neutralizadas, ausentadas pela apelação severa duma tradição que absorve sua serenidade ou fertilidade não sofrem com o acidente sonoro ou semântico que concentraria num ponto o sabor da linguagem e deteria o movimento intelectual em proveito de uma mal distribuída voluptuosidade. A obra clássica é uma sucessão de elementos de igual densidade, submetida a uma mesma pressão emotiva na qual se liberta toda tendência em direção a uma significação individual e inventiva. O léxico poético é um léxico de uso, não de invenção: as imagens são particulares corporativamente, não isoladamente, geralmente interpretam os atos e usos da vida social, não o movimento criativo. A função do poeta clássico não é a de encontrar palavras novas, com mais conteúdo e profundidade ou mais deslumbrantes, mas a de inscrevê-las de acordo com um plano ou modo convenientemente rígido, protocolar, como se fora um código sagrado, lhas dando maior grau de bondade ou excelência dentro dum perfeccionismo simétrico de concisão e de relação, ou seja, levar o pensamento ao limite exato de um metro. Os “concetti” clássicos são “concetti” de relações, não de palavras; é
uma arte da expressão, não da criação; aqui as palavras não reproduzem, como veremos adiante – por uma espécie de altura violenta e inesperada – a profundidade e a singularidade de uma experiência; são tratadas em sua superfície, segundo as exigências de uma economia elegante e decorativa. Fica-se fascinado ante a formulação que as reúne, não ante seu poder ou sua beleza próprios. Sem dúvida, a palavra clássica não alcança a perfeição funcional do sistema matemático: as relações não estão manifestadas por signos especiais, mas somente por acidentes de forma ou disposição. A retração das palavras, assim como sua alienação realiza a natureza funcional do discurso clássico; utilizadas num limitado número de relações sempre semelhantes, as palavras clássicas se encaminham na direção de um corpo algébrico: a figura retórica, o clisé, são os instrumentos virtuais de uma relação; perderam sua massa em prol dum estádio mais solidário do discurso; operam no modo de valências
químicas, delineando superficialmente a figura de um corpus verbal prenhe de conexões simétricas, de estrelas com os nós e enlaces às novas estrelas surgentes, sem ter jamais o descanso duma grande admiração, de novas intenções de significações. As parcelas do discurso clássico apenas entregam seu sentido, se transformam em veículos ou anúncios, levando sempre mais longe um sentido que não quer se depositar no fundo de uma palavra, mas expandir-se num modo de um gesto total de compreendidade, de intelectualidade, ou seja, de comunicabilidade.
Surge daí a distorção intentada por Hugo, de submeter o alexandrino, o mais
relacional de todos os metros, numa contenda futura com toda a poesia moderna, posto que se trata de reduzir a nada uma intenção de relações para substituí-la por uma explosão de palavras. Com efeito, a poesia moderna, já que é necessário opô-la à poesia clássica, assim como a toda à prosa, destrói a natureza espontaneamente funcional da linguagem e só deixa subsistir os fundamentos lexicais. Conserva das relações pura e tão-somente o
movimento, a sua música, não a sua verdade. A Palavra vive aquém ou por debaixo duma linha de relações enterradas sob os pés duma figura de adornamento vazio, a gramática é desprovida de sua finalidade, se faz prosódia, já não é mais que inflexão que perdura para manifestar “relaciones vaciadas”. As relações não estão suprimidas totalmente, são “sujeitos” aleijados, paródias de relações desnecessárias, pois a densidade da Palavra deve elevar-se fora de um “corpo” vazio, como um ruído e um signo sem fundo, como um “furor
e um mistério”.
Na linguagem clássica as relações arrastam a palavra e a levam imediatamente para um sentido sempre projetado; na poesia moderna as relações são apenas extensões da palavra. A Palavra é uma “morada” e está implantada como origem na prosódia das funções, contudo ausentes. Aqui as relações fascinam, a Palavra alimenta e sobressalta como o súbito desvelamento de uma verdade; dizer que essa verdade é de ordem poética é somente admitir que a Palavra poética jamais pode ser falsa [ou falseada] porque ela é total; brilha com infinita liberdade de se presta a irradiar na direção de mil e uma relações incertas e possíveis. Abolidas as relações fixas, a palavra somente tem um projeto vertical, é como um bloco, um pilar que se rompe numa totalidade de sentido, de reflexos e de permanência: é signo erguido. A palavra poética é aqui um ato sem passado imediato, um
ato sem entornos, propondo tão-somente a sombra espessa dos reflexos de todas as classes que estão vinculadas com ela. Assim, sob cada Palavra numa poesia moderna ocorre uma corrente, ou seja, um encadeamento geológico de existencialidade, onde se encontram todos os componentes dos signos referentes ao seu significado, onde se reúne o conteúdo total do Substantivo, e no seu conteúdo eletivo como na prosa ou na poesia clássica. A palavra já não está encaminhada de antemão na intenção geral de um discurso socializado;
o consumidor de poesia, privado do “código” de relações seletivas, desemboca na Palavra, frontalmente, e a recebe como uma quantidade absoluta acompanhada de todas as suas possibilidades. A Palavra é aqui enciclopédica; contem em si simultaneamente todas as acepções [e concepções] entre as que um discurso relacional “hubiera impuesto uma elección”. Realiza, pois, um estado possível só no dicionário e na poesia, donde o substantivo pode viver privado de seu artigo[1], levado a uma circunstância de estado zero, grávido de todas as especificações passadas e futuras. Aqui a palavra tem uma forma
genérica, é uma categoria. Cada palavra poética é, assim, um objeto inesperado, caixa de Pandora donde surgem todas as categorias de linguagens, produzida e consumida com extrema curiosidade, uma espécie de gula sagrada. Esta Hambre de la Palabra, comum a toda poesia moderna, faz da palavra poética uma palavra terrível e inumana. Institui um discurso saciado de palavras, um discurso “lleno de agujeros e de luces, lleno de ausências y de signos”.

* Esta tradução decorre de [A844] Barthes, Roland [BAR] El grado cero de la escritura: seguido de Nuevos ensayos críticos. – 1ª. Ed – Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2003. pp.
46-57. ISBN: 987-1105-48-7

[1] Em francês o substantivo jamais pode ocorrer sem a presença do seu artigo (N. do T. Argentino).


sábado, 18 de outubro de 2008

poema



deve ter sido o amor mais puro, numa outra primavera.
- assim pensei, a ouvir as ondas no seu ritmo terrestre.

em tudo houve uma forma evidente, um verde,
uma paisagem esdrúxula
onde se ajusta o silêncio, em filigrana,
ao despojado luar libidinal.




mariagomes
out.2008

XXVIII


caminho para todos os lugares
lágrima para todas as saudades
lâmpada para toda a claridade
e a isto eu chamo 'coração sem muros '



Maria Costa

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

soubesse eu que eras ténue!



soubesse eu que eras ténue!
brisa dos cinco elementos.
formada no rompimento dos tecidos humanos
ou em desejos momentâneos.
já idos! em Março.

vislumbrei-te sem halo.
intacta!
como a lua despida ao Outono.
e aceitaste-me com um sorriso de estrelas.

foi no hausto do instante,
inebriado pela miríade dos sentires,
que me deixei,
despercebidamente, sucumbir.
o tempo foi-se, exausto.
e nem sequer, os teus lábios provei.

Soubesse eu que eras ténue!
mas não soube.
e despojando-me das vestes artificiais,
fui pregar às areias do vento.

o voo das aves corria no fluir das lágrimas
ou na força vital que pulsa nas artérias,
e foi nas águas do deserto
que reencontrei a dupla hélice da vida.

a lembrança? deixou de estar corrompida.

falhei o teu breve partir.
mas sei-te ténue, sei-te minha.
no profundo das sequóias vermelhas.



in Comentários na face da Noite

do Inatingível

levaram da casa um cofre



levaram da casa um cofre.
cofres-fortes... rio-me deles
servem só para guardar
valores de segunda:
ouro, jóias, papéis...

pois carrego comigo
cá dentro e bem seguro
um cofre de verdade
onde guardo sentimentos.


Walter Cabral de Moura

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

eu não escrevo em português



Eu não escrevo em português.
Escrevo eu mesmo.


Fernando Pessoa


terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poesia e a dimensão erótica da vida


Platão, o filósofo grego, explica que o nome anthropos (homem) significa “aquele que contempla o que vê”. Contemplar é extrair daquilo que é visto algo que está além do objeto: encontrar um sentido. O fascínio do poema, sua sedução, reside, justamente, na possibilidade de criar e/ou encontrar esse sentido.

Se, de um lado, temos o homem faminto por sentido e, do outro, há o poema que se abre ao desejo desse homem, fica patente o poder erótico da poesia. E, aqui, não cabe falar em poemas eróticos, pois não há poesia que não seja erótica.

O ritual erótico que resulta no poema começa com a paixão do poeta pela palavra, pelo desejo que permeia sua relação com a linguagem. Só o poema pode revelar toda a sensualidade de um idioma. Só a Poesia possui as palavras com tamanha ânsia, a ponto de arrancá-las ao controle da sintaxe, desnudá-las da roupagem da gramática e conduzi-las, num crescendo, ao gozo inevitável: o poema.

Toda poesia que mereça esta designação é erótica, no sentido de que nasce da pulsão por expressar o inominável, que, por sua intensidade, é efêmero como os sentidos pressentidos no poema, como a própria paixão.

A poesia é sempre erótica, pois o poema – entidade resultante da orgia entre o poeta e a palavra – é como o corpo que surge no momento da cópula, um outro corpo que não pertence a nenhum dos amantes, existe apenas no breve intervalo do êxtase.

Não se trata de o poema ter ‘conteúdo erótico’, mas de que sua fala se articula a partir de uma dimensão erótica presente no poeta e, mais tarde, no leitor.

Discute-se muito a carência de público leitor para a poesia. Tenho cá minhas teorias sobre isso: embora vivamos numa sociedade extremamente erotizada, tememos assumir nossa dimensão erótica, que não se sujeita à sintaxe desumanizante de quaisquer moralismos. Por isso, a grande maioria das pessoas não é capturada pela sedução do poema, por sua carne latejante e plena de sentidos que estão além da superfície porosa das palavras.

Encerro essa divagação com um poema de minha autoria, que diz mais do que toda essa prosa: “Psicopoema”: encerrado no hospício/ das palavras/ o poeta/ remexe as entranhas/ do seu mais íntimo/ dicionário/ busca o verso/ no caldo químico/ dos próprios hormônios/ e reencontra a si mesmo/ na plenitude orgásmica/ do poema.

Sandra Baldessin
Consultora em Comunicação Escrita

in portal literário coordenado por Heloisa Buarque de Holanda

havia na minha rua


Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste)


Saúl Dias (1902-1983)

sobre este poeta

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

a Palavra


... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que
sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas,
persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As
inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de
repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam
como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas
palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ...
Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as,
preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas,
vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ...
E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as,
liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de
madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ...
Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de
lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não
a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas,
pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de
tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e
recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ...
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ...
Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas
encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro,
ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no
mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às
que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava
arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das
ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui
resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o
ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo...
Deixaram-nos as palavras.


Pablo Neruda

sonhos sem ilusões


Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.


Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'


sonetos


Seja falar, escrever, olhar sequer
Sempre inaparentes somos. Nosso ente
Não pode, verbo ou livro, em si conter.
A alma nos fica longe infindamente.
Pensamentos que dermos ou quisermos
Ser alma nossa em gestos revelada
Coração cerrado fica o que tivermos,
De nós mesmos é sempre ignorada.
Abismos de alma intransponíveis
Por pensar ou manha de o parecer.
Ao mais fundo de nós irredutíveis
Quando ao pensar o ser queremos dizer.
Sonhos de nós, as almas lucilantes,
E duns pra outros sonhos doutros antes.



Fernando Pessoa in poemas ingleses
Trad. de José Blanc de Portugal


domingo, 5 de outubro de 2008

Sóis Interiores



árvores de luz do futuro
iluminaram a via do grande plantador.

o Palácio das Águas leves ainda é
o enigma do vento.

almas brancas,
nuvens soltas.



in In-finito Azul

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DEVOLVAM-ME - Yan Li



Devolvam-me
Devolvam-me aquela porta sem fechadura
Mesmo que já não ligue a nenhum quarto, devolvam-me
Devolvam-me o galo que me acordava todas as manhãs
mesmo que tenha sido devorado, devolvam-me os ossos
Devolvam-me o canto do pastor que soava na encosta da montanha
mesmo que tenha sido gravado em cassete, devolvam-me a flauta
Devolvam-me o espaço do sexo
mesmo que tenha sido poluído, quero o direito à proteção do ambiente
Devolvam-me a boa relação com os meus irmãos e as minhas irmãs
mesmo que só tenha meio ano de vida, devolvam-me
Devolvam-me todo o globo
Mesmo que tenha sido dividido
em mil países

em cem milhões de aldeias
ainda o quero, muito.

*** *** *** *** *** *** *** *** ***
Yan Li – poeta e pintor, nasceu em Pequim, em 1954, sendo um dos fundadores do grupo de pintores vanguardistas Estrelas, que exerceu grande influência na década de 1980. Em 1985 foi viver nos Estados Unidos, onde criou a revista literária First Line. É autor de Talvez este poema seja bom ( 1991 ), Produtor de crepúsculo ( 1993 ), Poemas de Yan Li ( 1995 ), Volto para casa com a língua materna ( novela e conto, 1995 0 e Assiti ao incidente de 11 de setembro ( romance, 2002 )

sábado, 6 de setembro de 2008

poema XXII


há uma agitação sobre todas as coisas
penso na mulher que sai de casa ainda escuro
com a manhã escondida no avental
e vai pela beira dos campos acordar as águas

no orvalho das ervas escreve as marcas do seu passar

dentro do pensar revolvendo a manhã
– a libertação do fogo adormecido sob a terra -
a pedra abre-se no espaço,
como a mão quando se estende para cair
um lugar merecido para quem já caminhou muito
e só deseja ser abençoada antes de dormir


maria costa

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

dom poético


Don Poético


Tiene sueños azules
pero trabaja en una oficina
y usa trajes melancólicos.

Su nombre es una sombra
un tanto agrietada
y con insomnio.

Don no tiene
versos tampoco



Belén Vecchi, 2008


domingo, 10 de agosto de 2008

Eu não sou


Eu não sou nem cristão nem judeu, nem persa nem muçulmano.
Eu não sou nem do Oriente nem do Ocidente, nem da terra nem do mar.
Eu não sou nem da natureza nem dos céus envolventes;
Eu não sou nem da terra nem da água, nem do ar nem do fogo;
Eu não sou nem do empíreo nem da poeira, nem da existência nem da entidade.
Eu não sou da Índia nem da China, nem dos Búlgaros nem de Saqsin
Eu não sou nem do reino do Iraque, nem da terra de Khurasan.
Eu não sou nem deste mundo nem do outro, nem do Paraíso nem do Inferno.
Eu não sou nem de Adão nem de Eva, nem do Éden nem de Rizwan.
O meu lugar é a ausência de lugar, o meu rasto é a ausência de rasto.
Eu não sou nem corpo nem alma, porque pertenço à alma do Bem-Amado.
Eu libertei-me da dualidade, eu vi que os dois mundos são um só;
Eu busco o Uno, conheço o Uno, vejo o Uno, chamo o Uno.
Ele é o primeiro, Ele é o último, Ele é o exterior, Ele é o interior.
Eu não conheço ninguém a não ser Ele.
Eu estou intoxicado pela taça do amor; os dois mundos
passaram fora da minha vista.
Nada mais tenho a fazer, se não festejar e alegrar-me.
Se passei na minha vida um só instante sem ti,
Toda a vida me arrependo desse tempo e dessa hora.
Se mereço passar neste mundo um só instante contigo,
Eu calcarei com os pés esses dois mundos, dançarei triunfalmente para sempre.


Jalâloddîn Rûmî


se as coisas são inatingíveis


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!"


Mario Quintana

nenhuma palavra


Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei.
Ainda assim, escrevo.



Mia Couto

meu sonho familiar



Tenho este sonho: existe uma mulher
Que eu não conheço e o seu carinho estende
Sobre os meus males todos, que me quer
Como eu a quero, enfim, que me compreende.

Nem um pesar, nem uma dor sequer
Sofro sem que ela o sinta: ela me entende
E a grande dor que a minha fronte pende
Com seu pranto, ela faz amortecer...

É ela morena ou loura? Eu mesmo ignoro.
Seu nome? É tão querido como o nome
Das pessoas amadas que morreram.

Olhos de estátua que um pesar consome!
Tem sua voz o timbre almo e sonoro
Das vozes caras que se emudeceram.


Paul Verlaine

sábado, 9 de agosto de 2008

discurso de fulano de tal sobre seu bairro




O prédio em que moro tem cinco andares.
Todas as suas janelas bocejam, replicantes, para as janelas do prédio em frente
como os rostos dos que se olham no espelho.

Setenta linhas de ônibus circulam em minha cidade,
autorizados, cheirando a suor.
Viajam
viajam
viajam ao coração da cidade,
como se não fosse possível morrer de tédio
aqui mesmo no bairro.

Meu bairro é muito pequeno
mas possui todos os tipos de nascimentos e mortes
e tudo o que há entre vida e morte,
tudo o que possui qualquer metrópole gigante.

Há até crianças que passeiam maravilhosamente de disco voador
e três salas de cinema.
Se não fosse suficiente o tédio de casa
iria a uma delas.

O prédio em que moro tem cinco andares.
Para a garota que saltou do prédio em frente
bastaram três.

Abraham Shlonski (Ucrânia, 1900-1973)


(poema enviado por Adelaide Amorim )

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

astronomia


Pastor, que entre nuvens pastoreias,
seguindo na terra os teus rebanhos
de estevas e pinheiros;


imagem, que atrais o hálito dos seres
vivos, renascidos ou inertes;



bebida, que o mar bebe, e incha
a maré, levanta a onda, solta
a maresia desde o eterno início;


manto, que me aquece o corpo nu
ou o mostra num halo de esplendor;


vento, igual ao vento, mas que sopra
matéria, amor, magnetos;



cabelos de ouro, espargidos na terra,
em parras de outono avermelhadas
ou em clareiras abertas para a luz;


coluna de puro brilho, que sustém
os dias entre manhãs e noites;


rosto, que tem o riso e o olhar ubíquos
até ao fundo das raízes e até aos cumes;


corola, que repete a órbita dos astros,
vendo as outras corolas humílimas ante si;



lâmpada, de silêncio inatingível,
entre os sons mais próximos das criaturas
que, em silêncio também, com ela cantam;


mão decepada que afaga o mundo
como se os dedos caídos fossem raios;


espelho, que ao ser olhado é opaco,
como uma fonte que jorra, sem imagens,
para dentro a turva água do seu bojo;


ave, sem beiral onde poisar ardendo
a figura da antiga fénix imolada;


Sol é teu nome, o teu ser e a tua face.
Ó Sol, eu só, poeta deste século, sei
que no futuro irás tornar-te nada.


Meu Sol, levarás em ti todos os versos
dos poetas, em livros, em lápides.





Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Mãe Ilha


Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.


A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.


A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.


E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.



Natália Correia

aprendizagens



Comienzo
a perder instantes.

A perderme.

Una décima de segundo.
Un milésimo de silencio.

Nada me despoja.
Todo me desnuda.

Es lo infinito que regresa.

Aprendo
a habitar el esplendor
de la sombra.


Ana Emilia Lahitte



Oscar Wilde



Qualquer um pode simpatizar com o sofrimento de um amigo,
mas o que exige mais classe
é a natureza de simpatizar com o sucesso de seu amigo.



Oscar Wilde



quarta-feira, 30 de julho de 2008

o mar



"O mar, às vezes parece um céu diáfano, outras pó verde.
Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha."



Raul Brandão


poema ao Homem


Frequentemente esqueço as palavras.
Esqueço-Me. Esqueço-Te.
E sem linguagem
desapareço.
Torno-me farol de imagens,
imperativo
que impedido de comunicar,
desvenda outro reino.
Gêmea de árvores e pedras
mas sempre estranha
que se entranha na garupa do vento.
Regresso tarde ou cedo...
a tempo
do tempo
das estações contemplar.

Relembro as palavras.
Relembro-Me
Relembro-Te

Presumo a urgência de Amar...



poema de Aya

poema



Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.




Alejandra Pizarnik

o amor



"O amor é uma troca entre duas correntes de energias, dois pólos opostos mas complementares. Não é o corpo físico que inspira o amor, muitas vezes ele só intervém no fim do processo como um culminar, só vem na sequência. O que inspira o amor é invisível. Em geral, dá-se mais importância ao corpo do que aquela que ele possui realmente. Colocados lado a lado, os cadáveres de dois seres que se amaram abraçam-se? Não, mas as suas almas, que são vivas, continuam a relacionar-se. É a vida nas criaturas que provoca atracção ou repulsa. Portanto, antes de os corpos serem atraídos um para o outro, houve correntes fluídicas que os levaram a aproximar-se; os corpos apenas seguiram o movimento, bem no fim deste processo."



Omraam Mikhaël Aïvanhov


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Siento el crepúsculo en mis manos


Siento el crepúsculo en mis manos. Llega a través del laurel enfermo. Yo no quiero pensar ni ser amado ni ser feliz ni recordar.


Sólo quiero sentir esta luz en mis manos
y desconocer todos los rostros y que las canciones dejen de pesar en mi corazón
y que los pájaros pasen ante mis ojos y yo no advierta que se han ido.


Hay
grietas y sombras en paredes blancas y pronto habrá más grietas y más sombras y finalmente no habrá paredes blancas.


Es la vejez. Fluye en mis venas como agua atravesada por gemidos. Van
a cesar todas las preguntas. Un sol tardío pesa en mis manos inmóviles y a mi quietud vienen a la vez suavemente, como una sola sustancia, el pensamiento y su desaparición.


Es la agonía y la serenidad.


Quizá soy transparente y ya estoy solo sin saberlo. En cualquier caso, ya
la única sabiduría es el olvido.



© Antonio Gamoneda
En Arden las pérdidas
Barcelona, Tusquets Editores, 2004

terça-feira, 15 de julho de 2008

***


A minha boca é uma chaga
O meu trabalho é silêncio
Eu e a noite dormimos juntos
e nunca dormimos.



Carlos Edmundo de Ory



POEMAS MUDADOS PARA PORTUGUÊS POR HERBERTO HELDER


Carlos Edmundo de Ory, poeta e ficcionista espanhol, nasceu em Cádiz em 1923. Filho do poeta modernista Eduardo de Ory , é um dos autores vanguardistas mais singulares e revolucionários do panorama espanhol actual. Com Silvano Sernesi fundou em 1945 o «Postismo», movimento de vanguarda, e desde então participa activamente em actividades surrealistas europeias. É também ensaísta, epigramista e tradutor. A sua obra, durante muito tempo ignorada, foi valorizada a partir de 1973, sendo traduzida em diferentes línguas. Desde 1953 que viaja sucesivamente pela França, Marrocos, Perú e Bruxelas. Entre 1955 e 1967 fixou residência em Paris, radicando-se, depois, definitivamente em Amiens como bibliotecário de «la Maison de la Culture». Da sua obra destacam-se títulos como «Técnica y llanto», «La flauta prohibida», «Los sonetos», «Lee sin temor», «Poesía abierta», «Metanoia» y «Aerolitos».





poema enviado por maria gomes

sábado, 12 de julho de 2008

reflexões


"Temos que descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós: temos de descobrir o herói, assim como o parvo, que reside em nossa paixão pelo conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria."


Nietzsche

Abdicação


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


Fernando Pessoa

quero escrever o borrão vermelho de sangue


Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector


sexta-feira, 11 de julho de 2008

rente ao chão


O pátio é agora um quadrado
de luz. Sem gatos nem sombras;
apenas o silêncio das paredes, intacto.
Rente ao chão, um exercício de entropia:
tabuletas gastas, loiça em cacos, o balde
cheio de pregos tortos, aguarelas refeitas
pela chuva, baús que guardam segredos,
estantes rendidas à poeira, um par de asas
falsas, a túnica com rasgões e duas malas
de couro manchadas pelo tempo, vazias.
Ao canto, o relógio partido e os
ponteiros soltos. Um deles
aponta para as nuvens, lá
muito ao alto. O outro aponta para
nós, para aqui, para estes inumeráveis labirintos.



José Mário Silva, in Nuvens & Labirintos, 2001


quinta-feira, 10 de julho de 2008

excerto II


Se vim para acompanhar a voz,
Irei procurá-la em qualquer lugar que fale,
montanha,
campo raso,
praça da cidade,
prega do céu __ conhecer o Drama-poesia desta arte. Sentir como bate, num latido na minha mão fechada. Como, ao entardecer, solta, tantas vezes, um grito súbito: _ Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste? _ Como me pede que não oiça, nem veja, mas deixe absorver , me deixe evoluir para pobre e me torne , a seu lado, uma espécie de poema sem-eu.

Em silêncio e cega,
deixo que me dispa da claridade penetrante,
da claridade nova,
da claridade sem falha,
da claridade densa
da claridade pensada,
me torne um fragmento completo e sem resto
para que passem a clorofila e a sombra da árvore. Assim, realizando eu própria o texto

e acompanhando-o,
constatei que a noite em breve se iria pôr,
deixando-me sem dia claro às portas da cidade. Não havia percurso, apenas um decurso e vários sonhos deitados em torno de uma mesa, sem que se visse quem dormia e estava a ser sonhado.
Eram animais que sonhavam, sonhos a preto e branco, mas mesmo assim, sonhos. Perguntaram-me se também eu os queria ter.
Como? Se a voz me transformara num poema sem eu?


Maria Gabriela Llansol
in " Onde Vais Drama-Poesia?"
edição Relógio D'Água




na página



mas o amor continua pela hora da morte...
ouve,
eu tenho uma lua nova,
dobro-a com os dedos,
na página.
o mar apagou-se não sei porquê!
e os sinos ousam no deserto, nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.



mariagomes
23.out.2005


poema


A poesia está guardada nas palavras-é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as
nossas).
Por esta pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.



Manoel de Barros


poema enviado por José di Cavalcanti Jr

na vida


Na vida,
é preciso tanto seriedade
quanto delírio.
Se tiveres mais de um pão,
vende um
e compra um lírio.


Li Tai Po

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O Jardineiro Míope



O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"Que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.



Sidónio Muralha (nasceu em Portugal, morreu no Brasil, em Curitiba)

campo de flores


Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.



Carlos Drummond de Andrade

o sal da língua



Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade


visitações , ou o poema que se diz manso



De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luisa Amaral


segunda-feira, 7 de julho de 2008

a mim filhos da viúva


viu-se de relâmpago e era negra
e como se uma chave fosse
uma chave foi
abrindo a porta do grande
palácio das buganvílias e dos loendros
lá dentro
sobre um pavimento de mosaicos
brancos e negros
duas colunas
suportavam sem esforço um globo celeste
e outro terrestre
duas esferas romãs
abertas e expostas à sua multitude
era uma espada de ferro quente
ondulada
: flamejante a invocadora de todos os sortilégios
entre colunas –
onde reinava o silêncio
,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui
não haverá espaço para a defesa porque
não haverá espaço para o ataque»



nisto uma bicéfala águia branca pousou
sobre a coroa do trono
e no tecto do palácio se escreveu
num ouro muito azul: «ordo ab chao»



Frederico Mira George, tempo do verão da era vulgar de 2006

domingo, 6 de julho de 2008

o fim do mundo


No fim do mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.


Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que as cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.


O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.



in "O Engenheiro" de João Cabral de Melo Neto
( enviado por Adelaide Amorim)

***



'A maior parte das pessoas realmente não nos interessa, pensei eu o tempo todo, quase todas as que nós encontramos não nos interessam, não têm para nos dar senão a sua mesquinhez das massas e a sua estupidez das massas e com isso nos aborrecem sempre e por toda a parte e naturalmente não temos por elas o mínimo interesse.'



Thomas Bernhard (1931-1989)
in Derrubar Árvores - uma irritação.
Lisboa: Assírio&Alvim, 2007


sábado, 5 de julho de 2008

basta-me


Basta-me
Basta-me morrer nesta terra
Ser nela enterrada
Dissolver-me e desaparecer no seu solo
Para então brotar como uma flor
E ser colhida pela mão de uma criança do meu país.
Basta-me permanecer
Abraçada ao meu país,
Como um punhado de terra,
Como um ramo
Como uma flor!


Fadwa Tuqan - poetisa
palestina


enviado por José P. di Cavalcanti Jr.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

queria falar do mar


queria falar do mar
gostava de ter dito algo como isto:
- foi o mar
que me fez começar a pensar no amor,
mais do que noutra coisa;
quero dizer,
num amor por que valha a pena morrer,
num amor que consuma uma pessoa.


yukio mishima

***


Volta o meu filho a casa.
Brisa marinha ainda nos cabelos.
Há medo conquistado
No seu andar e no prazer da viagem.

E de salgada espuma
Ainda arde em brilho a face requeimada.
Tão já fruto maduro
No odor bravio e ardor de estranhos sóis.

O seu relance é denso
De um segredo que nunca saberá
De leve enevoado
Ao vir da primavera ao nosso inverno.


Tanto o botão se abriu
Que o fito agora quase com terror
E a mim mesmo proíbo
A boca que outra boca já escolheu.

Os meus braços rodeiam
Quem para além de mim cresceu alhei
Entregue a um outro mundo —
Algo que é meu e tão de mim distante.




STEFAN GEORGE, trad. Jorge de Sena

***
Poeta e tradutor alemão, Stefan Anton George nasceu na aldeia de Büdesheim, Bingen (Alemanha), a 12 de Julho de 1868, e faleceu em Minusio, Locarno (Suiça), a 4 de Dezembro de 1933.
Nascido no seio de uma família católica, aos cinco anos de idade (1873), muda-se para a cidade de Bingen, onde o pai ganha a vida como taberneiro e negociante de vinhos. É na pequena cidade do Reno que Stefan faz a instrução primária, prosseguindo os estudos secundários no Liceu de Darmstadt (1882-1888). Nos anos seguintes faz as primeiras viagens pela Europa: Inglaterra, Itália, França. Em Paris, o convívio com os poetas Albert Saint-Paul, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé inicia-o na estética simbolista, tendo, inclusive, escrito diversos poemas em francês. Dedica-se também à tradução para a língua alemã do livro Les Fleurs du Mal, de Baudelaire (publicado em 1891), de excertos da Divina Comédia, de Dante, e dos sonetos de Shakespeare
.

***


Certa vez, perguntaram a Anaxágoras porque nascera. E ele respondeu sem vacilações:
_ Para ver o sol, a lua e as estrelas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

versos tolos III


Às vezes me pergunto:__ O que vim fazer neste planeta?
Não encontro resposta. Sequer sei a música daquela tarde de
janeiro, num lugarejo chamado Olhos d'Água, no sertão das
Gerais, onde nasci, durante um temporal, numa tarde de verão.
Tantos momentos perdidos nas lembranças, tantas histórias
vividas. Outras tantas, inventadas
Algumas paixões de terra, tantas de árvores e estrelas.
E essa saudade de luas, pedras e oceanos.
__Tem uma rocha de poemas no olhar das minhas mãos.
Amanhã dito o poema final.
Às vezes as palavras traem o sentido, e desviam a rota do
navio que conhece os perfumes do coração.
Sou náufrago, com todos os barulhos, icebergs,
recifes e cantigas de corais perfumados.
__ O que vim fazer aqui neste planeta?
Sequer conheço a canção dos Salmos!
Conheço somente as palavras que levam os meus medos
para os templos da paixão.
Quem é vocè, mulher de prosas, versos livres e sonetos?
Muito prazer! O meu nome não diz nada!
Diz somente um estilhaço da poesia que me habita.
Grande mentira! Já não carrego a maca da esperança!
Cala a boca, poeta!
Deixa-me dormir em paz com os meus pesadelos!



© Nathan de Castro

enviado por José P. di Cavalcanti Jr.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

no espelho dos teus lábios


Photobucket



o silêncio que agora se mira
no espelho dos teus lábios
trouxe-me ao mundo

porta para outra vereda
que me recolherá na morte
- minha mãe -

devo ser a luz de um sonho antepassado
os dias que viajam em vertigem



maria costa

união no poema


Algumas palavras
nunca precisam ser ditas
Alguns poemas
nunca ser pronunciados
Os olhos a lamber, a beijar, a sugar
certos versos embebidos
de puro sentir
No silêncio se aprofunda
o abismo
entre poema e leitor
Nele epicamente se ergue
a ponte divina da salvação, etérea
construída palmo a palmo, arquitetonicamente,
sofregamente,
de palavras escolhidas
e colhidas ao vento
para unir inabalável
e por todo o sempre
o coração do poeta
ao coração do leitor.


Laeticia Jensen Eble


a aranha e o poeta


A aranha tece a teia
Eu o poema
Há milênios fazendo-a perfeita
Eu aprendendo
Todos os pequenos bichos se
enredam no poema-ceia
Só rato, barata, cupim, traça(m) minha teia
A aranha mata a fome na rede
Meu poema tem a fome fiada nos milênios
Diferenças à parte,
a aranha não suporta minha indisciplina


Carlos Gildemar Pontes

presença no dia


Eu fui
Eu fui apenas a amiga
daquele anunciado
à luz das águas tão claras
sua presença no dia
sobre o corpo tatuado
os arabescos de fera
no pasto
Assim veio-me ele
belo e impulsivo no rastro


Terêza Tenório

terça-feira, 1 de julho de 2008

poesia política


Se matam os poetas, é porque temem a Poesia.


Anna Ahkmátova


segunda-feira, 30 de junho de 2008

solidão


Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite.



Clarice Lispector

domingo, 29 de junho de 2008

roupa no varal em tarde de vento


Uma calça azul, pendurada
no varal da varanda sem cor
parece querer voar
parece uma pipa chinesa
que meninos empinassem
parece querer mostrar
que em outro lugar, talvez
a leste do vento sul
há outras cores, outras vidas,
outras idéias e amores.


E eu que cheguei a pensar, no meu
rústico sem-modo, que uma calça
fosse apenas uma calça: uma calça
– coisa só de se vestir.


Walter Cabral de Moura

o infinito precisa de dois



no ondular da brisa
moldam-se as curvas das dunas.

frescuras diárias.
breves afagos.
verbos soltos.

e assim escorre o relógio da vida.

o infinito precisa de dois.




Vicente Ferreira da Silva

sábado, 28 de junho de 2008

Qual de nós ficou nos limites da luz


Qual de nós ficou nos limites da luz
lutando entre o anjo e a beleza
para que os pássaros de jade
pudessem voar no dia da transfiguração?


Escuta:o vento
que toma com a noite a tua casa
e faz sugir o abandono
a solidão a cólera
nestas montanhas que crescem
na fronte do céu
é o caminho do sol,
transforma os homens em animais de esperança
nas mãos do áspero escultor


- e só assim cada um de nós
poderá entrar no enigma que é.




HENRIQUE DÓRIA-Círculo da Terra

a mais clara estrela


os olhos vão tão longe

procuram-te no rasgo do espaço
na mais clara estrela

já na lâmina acesa
do meu sono pergunto:
- onde pousa a voz?

de súbito desliza o branco
iluminado
no secreto sopro



Maria Costa
representada na Revista nº 13- DiVersos,Julho 2008

deito fora as imagens


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho (1920-1984)

como fazer versos


"Mais uma vez, insisto muito na seguinte observação: eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta, para que escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Damos o nome de poeta justamente à pessoa que cria essas regras poéticas. (...) Na obra poética, a novidade é obrigatória. O material das palavras e dos grupos de palavras de que dispõe o poeta deve ser reelaborado. Se para a elaboração do verso se utiliza o velho entulho vocabular, ele deve estar em rigorosa correlação com a quantidade de material novo. Da qualidade e quantidade deste novo vai depender o emprego de semelhante liga. (...) A novidade, está claro, não pressupõe que se digam constantemente verdades até então desconhecidas. O iambo, o verso livre, a aliteração, a assonância, não se criam todos os dias. Pode-se trabalhar mesmo pela sua continuação, penetração e divulgação. (...) Material. As palavras. Fornecimento constante aos depósitos, aos barracões de seu crânio, das palavras necessárias, expressivas, raras, inventadas, renovadas, produzidas, e toda outra espécie de palavras."


(Do ensaio de Vladimir Maiakovski, Como Fazer Versos?, traduzido por Boris Schnaiderman e incluído no livro A Poética de Maiakovski, Perspectiva, 1971.)

aurora


A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.


Adolfo Casais Monteiro
in Voo sem Pássaro Dentro, 1954

quinta-feira, 26 de junho de 2008

para fazer um soneto


Em "Para fazer um soneto" descreve Carlos Pena Filho como se deve escrever um poema.
Mas a receita é difícil de seguir.
Pois o primeiro passo diz: "Tome um pouco de azul, se a tarde é clara". Sorver o azul da tarde, tarefa complicada de realizar à risca. Mas é aí que aparece a "palavra inicial" (dada por Deus). Depois, segure bem esta palavra (divina) com uma "atitude avara", ou seja: a partir daí passe a usar apenas o sol que bate na sua cara! Claro, o poeta é de Recife, terra do sol.
Com esta palavra primeira, com o sol e com um pedaço do quintal o poema se constrói.
Mas se não der certo, há uma solução de emergência.
Em vez da luz clara e azul, passe a trabalhar com o tom cinzento e meio obscuro e vago, com o pó que ainda resta em nossas vidas, com os resíduos da memória, a combustão, a borralha de certas substâncias da nossa memória.
Ali está o aniquilamento da nossa infância, o luto da lembrança, a destruição, a humilhação, a dor cinza dessa coisa vaga que são as lembranças da infância.
Não, não se apresse. O curso do rio da voz vai levá-lo ao cerne do poema, àquela escuridão onde se tece a certeza.
Aí sim. Aí o poema começa. Eis:


“Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.”



De meu querido Amigo Rogel Samuel


entre-textos

preparação para a morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
daqui-enviado por minha Amiga Soledade- Poeta

carta-da-corcunda-ao-serralheiro


"Senhor António:


O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer.

Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega.

Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que

gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.

Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.

Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

(...)

- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm batizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aí tem e estou a chorar."

Texto de Fernando Pessoa, sob o seu único heterónimo feminino, Maria José, escolhido por Dina La-Salette.



(enviado por Amélia Pais)

INCLUÍDA NO ÚLTIMO Nº DA REVISTA EGOÍSTA (JUNHO DE 2008)