sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

GRATIDÃO QUE NEM SABE A QUEM DEVE SER GRATA







Gratidão de ser
por estes anos
e partículas restantes.

Pela amizade,
que chega a confundir o amor.

Pela bondade,
que torna a solidão desvalida.

Pela hombridade,
à altura do céu.

Pela beleza,
que só à santidade
sobrepassa.

E é flagrante, perdulária,
noutros renascente.

Gratidão
que nem sabe
a quem deve ser grata.

Pelas aves nutrindo os filhos
de penugem e voo.

Pela lentidão escrupulosa
da tartaruga, igual à de Plutão.

Pela leveza materna do vento
transportando pólen.

Pelo calor humílimo
da joaninha sobre a nossa mão.

E por estar na terra
uma só vez, ao sol,
nada pedindo, nenhum segredo,
como um velho lobo-do-mar.


* António Osório (n. 1933)


Poeta e ensaísta, António Osório de Castro nasceu em Setúbal, a 1 de Agosto de 1933.
Concluído o curso de Direito, fixou-se em Lisboa, onde se dedicou ao exercício da advocacia. Foi bastonário da Ordem dos Advogados entre 1984 e 1986, administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente. Dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território, que fundou, e é director de Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas.
Colaborador de várias revistas literárias, publicou textos e poemas em publicações como O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice, Colóquio/Letras e Revista Anteu de 1954. A Raiz Afectuosa (1972) foi a sua primeira obra publicada. Seguiram-se A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva e o Mais (1983), obtendo com os dois últimos títulos o Prémio de Poesia do Município de Lisboa.
Tem livros publicados no Brasil, em Espanha, em França e em Itália e está também traduzido em revistas para francês, inglês e catalão. Tem participado em recitais de poesia no país e no estrangeiro, designadamente em Londres, Paris, Clermont-Ferrant, Roma, Madrid, Cuenca, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Barcelona, Salzburgo, Viena e Frankfurt.
Tendo-se estreado como poeta apenas na década de 70, embora já em 1954 colaborasse na revista Anteu, António Osório sai de algum modo da geração poética de que provém, sem contudo se integrar nas correntes literárias que por então se impunham: mais próximo da claridade antiga das vozes suas contemporâneas (Sophia, David Mourão-Ferreira, Ramos Rosa...) do que de certo formalismo de estruturas que caracterizaria a poesia portuguesa dos anos sessenta e setenta, a sua poesia representa nesse sentido uma inflexão nos caminhos do que então se tinha por modernidade. A Raiz Afectuosa determina em boa parte a tonalidade de uma voz que se assume como vocação primordial, íntima e natural para uma espécie de canto da criação e do mistério da vida e da morte, do animal e do humano. Profunda, instintivamente afectuoso, este é um canto de grata, "inabalável ternura pelas criaturas" (Carlos Nejar, Prefácio a Emigrante do Paraíso, São Paulo, 1981), onde a morte figura sempre como escândalo, ainda assim parte integrante de um universo essencialmente uno e por essa unidade apaziguado. "Dizer com claridade o que existe em segredo" (Cecília Meireles, epígrafe a Planetário e Zoo dos Homens, 1990) é o expediente da força reveladora desta poesia que tem tanto de religiosa na capacidade de diálogo com os deuses e o universo como de pagã na sua proximidade dos animais. Esse o sentido muito particular das últimas obras do António Osório, mas em especial de Ofício dos Touros (1991), talvez a mais elegíaca, mas também - surpreendentemente na tranquila harmonia cósmica do conjunto da sua poesia - das mais violentas nessa intimidade e nesse respeito pela dignidade de um muito humano medo animal. Neste contexto deve ainda mencionar-se o título mais recente - Bestiário (1997) -, a respeito do qual, e depois de lhe salientar "esta reverência para com o real", Eugénio Lisboa refere: «O poeta fala deles [dos animais] com a mesma emoção discreta, com a mesma ligação 'de ordem afectiva indissolúvel' que o liga aos humanos de todos os ofícios» (cfr. JL de 1 de Julho de 1998). Mas já antes, e talvez sobretudo desde Aforismos Mágicos (1986), a poesia de António Osório tendia para o poema breve, tenso, e para a expressão contida de uma essencialidade vital: aforística é tendencialmente a escrita não apenas desse mas da generalidade dos livros de António Osório, onde os poemas se inscrevem ao ritmo do hai-ku, num despojamento de ressonância oriental e muitas vezes firmados por uma espécie de moralidade de fábula. Mais do que de discursos poéticos, trata-se de inscrições poéticas que parecem ser o resultado de uma grande e humilde disponibilidade para a atenção a uma secreta, calada evidência das coisas: «Essa arte vestigial, esse manejo delicado, amoroso e vigilante das pequenas coisas, essa vibrátil pulsação do que parece não ter peso ou relevância, eis um dos notáveis atributos desta obra que reconhece com lucidez a sua vocação prestável: 'O pequeno rebocador ajuda silenciosamente o grande petroleiro' (Aforismos Mágicos, 19) e, com efeito, o ínfimo, o insignificante, o humílimo, adquirem um estatuto muito particular nesta poesia capaz de devotar-se 'a um mirto' (A Raiz Afectuosa, 42) ou a 'uma lupa' (Décima Aurora, 94), capaz de atentar na rasteira beleza de um 'buxo' (A Ignorância da Morte, 75), no 'último segundo de uma larva' (A Ignorância da Morte, 39), na graça que os milénios preservaram em duas pequenas 'tanagras' (A Ignorância da Morte, 83) ou na textura de uma 'gota de água' em cujo interior nos convida a penetrar (cfr. Décima Aurora, 83). Não devemos espantar-nos, pois desde a abertura de A Raiz Afectuosa fora acentuada essa vontade de não esquecer o ínfimo: 'Com os anos/ a pouco e pouco/ a raiz afectuosa/ penetrou/ no fundo da terra/ até chegar/ ao mais pequeno/ e mais antigo/ veio de lágrimas' (A Raiz Afectuosa, 13)'» (cfr. Fernando Pinto do Amaral, "António Osório: O Humano e Humilde Labor da Poesia", in O Mosaico Fluido). Os últimos livros de António Osório configuram-se muitas vezes como poemas em prosa ou desenvolvem-se como pequenas narrativas ou crónicas da notação sensível de uma realidade onde ainda assim ressaltam aquelas mesmas características.

Poesia:

A Raiz Afectuosa, 1972
A Ignorância da Morte, 1978)
Emigrante do Paraíso (antologia), 1981
O Lugar do Amor, 1981
Décima Aurora, 1982
Adão, Eva e o Mais, 1983
António Osório (antologia), 1984
Aforismos Mágicos, 1986
Planetário e o Zoo dos Homens, 1990 [Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia]
Inquirição / Ênquete, 1991
Ofício dos Touros, 1991
Antologia Poética, 1994
Felicidade da Pintura, 1996
Junto ao Sado e Arrábida, 1996
Crónica da Fortuna, 1997
Bestiário, ilust. de Graça Morais, 1997
Aforismos Mágicos / D. Quixote e os Touros (edição conjunta de Aforismos Mágicos e Ofício dos Touros), com reproduções de pinturas de Júlio Pomar, 1998
Libertação da Peste, 2002


Ensaio:

A Mitologia Fadista, 1974
O Amor de Camilo Pessanha, 2005

(recebido de "OS SONS FÉRTEIS")

1 comentário:

lupussignatus disse...

a imagem

de fundo


a palavra

profunda


"raíz

afectuosa"



[húmus do
pensamento]