terça-feira, 1 de dezembro de 2009

o analfabeto político



O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve,
não fala,
nem participa
dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão,
do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato
e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nasce a prostituta,
o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos
que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio
dos exploradores do povo.


Bertold Brecht (1898-1956)


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

postulado






Eu quero uma tira de papel
do meu tamanho
um metro e sessenta
nele um poema
que grita
quando alguém passa
e grita em letras negras
a exigir o impossível
coragem cívica por exemplo
essa coragem que nenhum animal possui
compaixão por exemplo
solidariedade em vez de rebanho
fazer nossos através de actos
esses conceitos

Homem
animal que tem coragem cívica
Homem
animal que conhece a compaixão
Homem animal-palavra animal-conceito
Animal
que escreve poemas
poema
que pede impossíveis
a quem passa
urgentemente
irrefutavelmente
como se apregoasse
“Bebe Coca-Cola”


Hilde Domin



[in: "Estende a mão ao milagre", antologia organizada e traduzida por Maria José Peixoto Lieberwirth, Cosmorama, 2008)


ver, sobre a autora

o olhar

O teu lugar é
onde olhos te olham.

Tu nasces
onde os olhos se encontram.

Suspensa por um chamar,
sempre a mesma voz,
parece haver só uma
com que todos chamam.

Caías,
mas não cais.

Olhos te prendem.


Tu existes
porque olhos te querem,
olham-te e dizem
que tu existes.



Hilde Domin



- Nascida no ano de 1909, em Colônia, Hilde Domin começou a escrever poemas somente a partir de 1951, quando já se encontrava exilada na República Dominicana, país que a fez adoptar o sobrenome do pseudónimo, em substituição a Palm, que ganhou quando casara.

Devido à distância entre os idiomas e ao facto de não ter uma boa divulgação em língua portuguesa, Domin ainda é nome de restrito prestígio .

Na Alemanha, entretanto, não se pode contornar a poeta quando se fala de pós-guerra. Ao lado de Paul Celan, Rose Ausländer, Ingeborg Bachmann, entre outros, Domin se concentra, em sua obra, nos temas do exílio – a língua estrangeira, a perda da terra natal, os choques e encontros culturais.

Essa mulher extraordinária e fora do tempo, imersa na memória da devoção por Saint-Exupéry, era Hilde Domin – uma singularíssima poeta alemã que o crítico Marcel Reich-Ranicki colocou fora das duas grandes correntes da poesia germânica:

a «solene, sacerdotal, sacra» (de Hölderlin a Paul Celan) e a «profana e racional» (de Schiller a Brecht).

Escreveu, ademais, prosa e ensaios, destacando-se o “Wozu Lyrik heute?” [Para quê poesia hoje?]. Ganhadora de diversos prémios literários e traduzida para mais de vinte idiomas, Domin faleceu em Heidelberg no mês fevereiro de 2006.

domingo, 4 de outubro de 2009

gracias a la vida



Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario;
Con el las palabras que pienso y declaro:
Madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
Con ellos anduve ciudades y charcos,
Playas y desiertos, montañas y llanos,
Y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida que me ha dado tanto;
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro al bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo te tus ojos claros.

Gracias a la vida que me ha dado tanto;
me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Con ellos distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto;
y el canto de ustedes que es el mismo canto;
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la vida,

que me ha dado tanto.

Alfonsina y el Mar (MERCEDES SOSA)





quinta-feira, 3 de setembro de 2009

do futuro da poética


"É normal encontrar-se, aqui e ali, alguma ansiedade em torno da sobrevivência da poética no tempo da rede, pelo menos no modo como (culturalmente) a entendemos desde finais do século XVIII. O problema voltou a ser aflorado numa das recentes feiras do livro onde estive presente, a de Viana do Castelo. Para expiar angústias, passo a apresentar uma possível e breve cartilha em sete pontos sobre o futuro específico da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos… vamos ver se não acertei em cheio:


1 – A vida da ciberpoética será cada vez baseada no provisório e num verdadeiro vaivém em oposição a uma vasta tradição que sempre encarou a poesia como inscrição definitiva (uma espécie de magistral ‘sinal dos tempos’). O destino da ciberpoética vai, pois, ser o movimento: fluir e navegar através de permanentes subtracções e adições.



2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individuais fixas. Assistiremos ao regresso e triunfo do palimpsesto de várias entradas e autorias. Esta sobreposição será mais sincrónica – várias autores ao mesmo tempo – do que diacrónica, no sentido em que um texto profético medieval era rescrito secularmente (por exemplo, a Sibila Tiburtina existiu intertextualmente entre os séculos III e XV, num quadro discursivo ex eventum que se ia adaptando às mais diversas circunstâncias históricas).



3 – A identidade do poético viverá cada vez mais do contraste com as zonas da rede baseadas na informação transitiva (quando a função se resume a designar, indicar, noticiar, difundir ou publicitar visando alvos tangíveis e reconhecíveis). A ciberpoética será, ao invés, aquele aquário de linguagem que não visa nenhum objecto específico e que apenas se refere a si próprio. Este contraste é parecido com o que é estabelecido no mundo offline entre as chamadas zonas funcionais e aquelas zonas onde o design se alia ferozmente à eficácia estética.



4 - A ciberpoética deixará de significar em função de um contexto prévio. Isso quer dizer que cada cibertexto poético passará a criar cada vez mais o seu próprio contexto, deixando de haver um “de fora” e “um de dentro” rígidos tal como acontecia – e acontece – na vida offline (caso de um livro ou de uma escultura no espaço público);



5 - Tal como a organização da rede não é centrada, também as linhas que organizam o cibertexto poético deixarão de estar presas a uma finalidade óbvia. Por natureza, o cibertexto poético passará cada vez mais a desdobrar-se e a irradiar nos interfaces abertos da rede e nas novas vias expressivas como a recente via ‘twitterizada’.



6 – A ciberpoética acabará com a tradição milenar que concebeu a poética como uma ocupação linear do espaço. No mundo online, a noção de sequência e de linearidade explodirá cada vez mais na direcção da multimodalidade e da coexistência dos registos que procedem das mais variadas origens.



7 – A ciberpoética será cada vez mais incorpórea: a comunicação pela comunicação, a volatilidade, a corrente de ar passageira. O poeta Carlos Bessa sublinhou-o, há cinco anos, por palavras simples: “Quando cheguei/ à escola era a guerra, o/ cimento, o petróleo. Agora,/ é a comunicação, o chewing/ gum” (Desenhos em Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004).



Espero, pela primeira vez na minha via, ter alimentado uma verdadeira alma profética!"


Luis Carmelo


in PNE Literatura

TO BE ALONE

TO BE ALONE

«To be alone is one of life's greatest delights»
D. H. Lawrence

uma chávena de chá sobre a mesa
um gato de barro um castiçal
algumas flores conchas livros
um caderno dois novelos
de lã e uma revista de tricot –
espólio de uma tarde à chuva
nessas delícias da solidão
que D H Lawrence cantou

Soledade Santos


(poema publicado em DiVersos 8 ,ed.Sempre-em-pé)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

o que os meus olhos vêem



o que os meus olhos vêem, o que os teus olhos vêem,
será talvez o litigo da solidão profunda,
o ar, em suma,
num silêncio irredutível, livre, lírico , tão longínquo,
num lugar antes do tempo.



maria gomes


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Poeta em Lisboa




Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magntfico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.



António José Forte

terça-feira, 11 de agosto de 2009

de William Carlos Williams






"A man like a city and a woman like a flower – who are in
love. Two women. Three women. Innumerable women,
each like a flower. But only one man – like a city.”


William Carlos Williams, The Broken Span, 1941






sexta-feira, 17 de julho de 2009

um poema






O que não significa vai significar um dia destes. Mas significará uma coisa bastante diferente. Pensam que uma escada leva sempre a uma espécie de casa ou terraço, e são magnânimos admitindo alguma variação de formas e propósitos dentro dos termos das casas e terraços que há. Pois estão à vossa espera, senhores, casas e terraços de estranhos sistemas arquitectónicos. Há mesmo a suspeita de tratar-se de uma escada esquisita, uma escada apenas para subir.
Mas dantes havia moral, dizem eles. Havia a moral para subir e ir ao terraço. Depois via-se a paisagem.
E era bonito?
Sim, havia metafísica, política e filosofia para ver.
E para que servia ver isso?
Ora, a gente ficava contente, porque entravam e saíam ideias pela cabeça.
Uma espécie de piquenique mental, não?
A metafísica, a política, a filosofia são matérias nobres.
Sim, senhores, obrigado.
Pois, e se a gente queria a casa, subia a escada e entrava na casa.
Também nas paredes, a filosofia, e etc?
Sim, exactamente.
Olhem: não, obrigado. Vou dizer-lhes: vai ser escada para subir e depois a gente ficará lá em cima experimentando o transe do silêncio. Os senhores não percebem nada de destruições. Temos de aturar todo o aborrecimento de uma velha modernidade: Fernandos Pessoas, surrealismos, a política com metonímias, a filosofia rítmica, as religiosidades heréticas, as pequenas tradições de certas liberdades. Acabou-se.
(O verbo impregnava a terra, a energia impregnava a terra).
Tudo isto é para a grande máquina circulatória, o aparelho digestivo, o sistema respiratório. Coisas do corpo que precisa de transe, êxtase. Essa é a significação. Estamos a trabalhar com instrumentos que abalam tudo. Há uma energia geral comutada à passagem pelo corpo. É uma comutação cultural. E afastem daqui o surrealismo. Afastem a metafísica, a política, as ideiazinhas de merda. Um transe. A palavra é uma provocação destinada a uma espécie de intransigência física. E que é o corpo senão ele mesmo?
Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra.

Herberto Helder
in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim

sábado, 27 de junho de 2009

o que o jardineiro disse a Mrs. traill



_ E agora é tão pobre a poesia que publicam.
Mas nos velhos tempos não era assim,
Pois outrora foi a linguagem da dor humana,
E, na língua dos anjos, a dessa causa
Pela qual arderam grandes almas, e os carvalhos floresceram.
Eu, que sou amigo dos amarantos, reconheço
Um bálsamo nesse nome, um bálsamo para estas praias.
Mas agora usam palavras difíceis para coisas simples,
Para as flores silvestres, e para as flores do lago.
Folha da alegria, estrela em chamas, são palavras que hoje
Pouco nos tocam, embora tenham sementes em forma de asa,
Se os pobres pecadores como eu falarem
Com Deus que humildemente pronuncia esses nomes com amor.



in "AS CANTINAS E OUTROS POEMAS DE ÁLCOOL E DO MAR",
Malcom Lowry
Selecção e tradução de José Agostinho Baptista


quinta-feira, 25 de junho de 2009

a alquimia do verbo


A mim. A história de mais uma das minhas loucuras. De há muito que me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e que acho ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amei pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem caligrafia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingénuos, ritmos simplicíssimos.

Sonhei com cruzadas, com viagens de descobrimento das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, custe o que custar, a todos os sentidos. Guardei a tradução.

Era acima de tudo um esboço. Escrevi os silêncios, as noites. Anotei o indizível. Firmei vertigens.




ARTHUR RIMBAUD

quarta-feira, 24 de junho de 2009

jardim antigo




um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas

aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos

somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a vêem

à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis

as flores dormem

as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem

ROGEL SAMUEL



in ROGEL SAMUEL- novos poemas

terça-feira, 23 de junho de 2009

devíamos




Devíamos nascer velhos,
despertos, capazes de decidir
nosso destino na Terra,
saber que caminho tomar
desde a primeira encruzilhada
e que irresponsável fosse apenas
o desejo de ir mais longe.
Depois, pormo-nos a caminhar,
cada vez mais jovens,
alcançar maduros e fortes
as portas da criação,
atravessá-las e entrar apaixonados
na adolescência,
sendo crianças quando nos nascessem os filhos.
Estes seriam assim sempre mais velhos que nós,
ensinando-nos a falar
e embalando-nos para dormir,
desapareceríamos pouco a pouco,
cada vez mais pequenos,
como um grãozinho de uva, de ervilha ou de trigo...



Ana Blandiana
(Trad. A.M.)

eu não voo


Eu não voo
ando

quero que me oiçam

mas também não sou
das rãs que coaxam



António Reis - Novos Poemas Quotidianos,
pág. 11, Porto, [1959]



sexta-feira, 19 de junho de 2009

a maior solidão



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


Vinicius de Moraes



sexta-feira, 5 de junho de 2009

reflexão


Basta uma lágrima cheia
De uma saudade de tudo


Afonso Lopes Vieira

cada um que passa em nossa vida


Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho ...
Porque cada pessoa é única pra nós,
E nenhuma substitui a outra...
Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho,
Mas não vai só...
Cada um que passa em nossa vida,
Leva um pouco de nós mesmos,
E nos deixa um pouco de si mesmo...
Há os que levam muito,
Mas não há os que não levam nada...
Há os que deixam muito,
Mas não há os que não deixam nada...
Esta é a mais bela realidade da vida.
A prova tremenda da importância de cada um,
É que ninguém se aproxima do outro por acaso....


Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Faz-me o favor



Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor... muito melhor! ...
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

segunda-feira, 18 de maio de 2009

No sorriso louco das mães





No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.


Herberto Helder




quarta-feira, 13 de maio de 2009

Biografia




Não pegues na colher com a mão esquerda.
Não ponhas os cotovelos na mesa.
Dobra bem o guardanapo.
Isso, para começar.

Extraia a raíz quadrada de três mil trezentos e treze.
Onde fica o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes?
Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega.
Isso, para continuar.

Parece-lhe decente que um engenheiro faça verso?
A cultura é um enfeite e o negócio é o negócio.
Se continuas com essa moça fechamos-te a porta.
Isso, para viver.

Não sejas tão louco. Sê educado. Sê correcto.

Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires.
Aí, sim, não respirar! Dar o não a todos os nãos.
E descansar: morrer.



Gabriel Celaya, 1911-1991

o limoeiro


Tínhamos atrás das grades
Um limoeiro
As frutas amareladas brilhavam como lâmpadas
As flores eram um leque cheiroso no nosso bairro

Tínhamos, atrás das grades
Um limeiro. Nosso
Mas, para fazer enfeites com seus galhos
E perfume das suas flores
O cortaram
Ficamos
Sem o nosso limoeiro
Nossos olhos
Nunca mais viram a primavera.



Mahmud Darwish


Biografia de Mahmud Darwish


Mahmud Darwish, palestino nascido no ano de 1942.
Como muitos dos poetas da resistência palestina, teve desde o princípio uma clara militância política e foi preso em Israel.
Abandonou esse país no começo dos anos 70, viveu em alguns países socialistas europeus, no Egipto, e depois vários anos em Beirute, onde se transformou em um dos membros mais destacados do Centro de Pesquisas Palestinas, dirigindo a revista Shuún Filistiyya.
Sua obra lírica é muito ampla e dela destacamos (*): Hojas de oliva, 1964; Enamorado de Palestina, 1966, um de seus livros mais representativos e emocionantes; El fin de la noche... es día, 1968; Diario de una herida palestina, 1969; Tentativa número 7, 1974; Esa es su imagen, y ésta es el suicidio del enamorado, 1975. Embora grande poeta, Darwish é também dono de uma sugestiva prosa, semi-autobiográfica, extraordinariamente fluida, singela e reflexiva ao mesmo tempo, que aparece em livros como: Algo sobre la patria,1971; Diario de la tristeza corriente, 1973; Adiós, guerra, adiós, paz, 1974. Darwish é possivelmente o poeta mais dotado, representativo e prestigiado da resistência palestina. Sem dúvida trata-se de um criador que sabe unir o verbo erguido e militante com o mais profundo lirismo, e que realiza também um cálido manejo do simbólico.




segunda-feira, 11 de maio de 2009

MALEVICH


















Malevich descobriu
que o branco tinha cor
as várias cores do branco
desde o branco cabralino
das brancas casas caiadas
até o branco indolor
dos muros dos hospitais
o branco das sepulturas
brancas, das paredes duras
brancas, das casas e flores
brancas, que orlam o lodo
de esgotos de favelas
e o mais branco das velas
dos lenços e dos lençóis
mesmo a branca imagem branca
do esvoaçar de uma garça
na revelação do meu sol
sobre praias do Nordeste
ou a doçura brancura
do açúcar no café
as cortesias alturas
da lua tiradentina
onde o branco dessas tintas
se finge de mais alvura
como neves Himalaias
ou branco das gravuras
da minha amiga artista
Lyria Palombini
ou o branco daquelas saias
engomadas onde passam
virgens ao sol sorridente
em direção das suas salas
decerto paredes brancas
de suas almas de escola




Rogel Samuel




in " Novos Poemas" de Rogel Samuel

segunda-feira, 4 de maio de 2009

procura da poesia



Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



Carlos Drummond de Andrade

anjo daltónico





Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.


Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.


Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.


Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.



Jorge de Lima


sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Desfraldar


Uma noite, o oceano entrou em minha casa
Era
um velho respirando
como uma antiga locomotiva
Convidei-o a sentar-se
junto da janela
para que se recompusesse
e eu lesse em sua honra alguns poemas
Mas ele continuou de pé, ofegante
Ofereceu-me peixes
conchas
e partiu


De manhã examinei a minha casa. não havia telhado
nem porta nem janela
nem parede
tudo estava partido e molhado
Até eu, oh meu Deus
estava partido como um vaso
Já não tinha lábios para falar
braços para cingir o tronco de uma mulher
Do meu corpo só restava
uma flor saliente,
o meu coração no meio dos escombros


IUSUF ABDELAZIZ

Poeta Palestiniano


tradução de Albano Martins

quinta-feira, 30 de abril de 2009

FRANKLIN JONES



Se pudesse ter vivido mais um ano,
teria acabado a minha máquina voadora,
tomando-me com isso um homem rico e famoso.
Faz sentido, portanto, que ao artesão que adorna a minha lápide
lhe tenha saído algo mais parecido com um frango.
O que é a vida, no fundo, senão sair do choco
para correr no quinteiro
até ao dia da degola?
A diferença é que o homem tem um cérebro de anjo
e desde o princípio vê o machado.


Edgar Lee Masters - Spoon River


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Já não somos mais poetas





Já não somos mais poetas
Somos corvos

Já não somos mais poetas
Somos corvos

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos as linhas de cima

telefónicas

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos-te

por cima dos fios

de electricidade

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E nós vemos-te

empuleirados nas antenas

de televisão

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E vemos-te lá dos campos onde nós respigamos
Assim que tu passas com

o teu carro e vais
pagar-te o direito
de circular
num carro

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E vemos-te entrar nas escolas nos Domingos de Maio
E pisar onze papeis
Para designar o chefe de uma multidão
Somos corvos

Não temos chefe

As estações
conhecem-nos
Elas nunca te viram

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E ao que parece vivemos muito tempo, hein!

Tu nunca o vais saber

Preferes meter entre ti e nós

um pára-choque
de aplausos, de razões de ser
conselheiros do Findo de Desemprego, fios, fios, fios,

Preferes meter entre ti e nós

livros
dias
e René Char sob o plástico

debaixo de dois DVD porno

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E as línguas não nos prendem
As línguas desligam-nos e nós desligamo-las
É impossível fazerem-nos reféns ao mesmo tempo que uma língua

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E, às vezes, encontramo-vos

A três, a sete ou a cem mil

Lá onde tu nunca irias imaginar

Uma algazarra doida

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E estoiramo-nos os olhos a nós próprios
Para escapar à tirania do arco-iris
E para libertar o espectro

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E andamos atrás de ti
Quando estás seguro do teu caminho com o teu fio
Quando tu lhe explicas a vida

Já não somos mais poetas
Somos corvos

E entraremos pela tua janela uma noite

Para que te tornes louco
E a todas as tuas perguntas
Responderemos

Nevermore


Thomas Nispola


(Tradução do francês de Tânia Ribeiro)



Obs.Thomas Nispola, voz contemporânea de Toulouse, dá-nos a conhecer os seus versos repletos de inquietude.

vale a pena ler


Um poeta provinciano


Os Prémios recebidos revolucionaram a vida pacata deste autor que se define como um "poeta provinciano ". Participante na Guerra Civil Espanhola, António Gamoneda garante que agora procura buscar momentos de tranquilidade no meio de todas as suas viagens e actos honoríficos. "Agora, acontece que me encapsulo para trabalhar até nos comboios", comenta. Uma destas viagens acaba por o trazer a São Roque (Andaluzia), antes de seguir para a Grécia, Itália e para alguns países Árabes. Gamoneda pesa bem as suas palavras antes de falar, controla o seu vocabulário com um ritmo lento. Todavia, a sua lucidez contraria o rosto enrrugado. Rugas provocadas por décadas de literatura e das lembranças de infância, cujo registo – sob forma de memórias – verão a luz do dia nas semanas que se seguem. « Elas estão teoricamente acabadas, mas eu conheço-me bem e sei que a qualquer momento posso não as corrigir, mas voltar a reescreve-las novamente. O texto espera pela chegada de um relatório jurídico favorável, porque nestas memórias, onde as verdades não se escondem – mesmo aquelas que jogam contra mim -, falam também de factos impotáveis a terceiros», confessa. Que pensa este poeta já com alguma idade dos fenómenos como a internet ou a globalização? «Nunca vi uma única página da Internet. Não sei o que é. Creio que no campo, um poeta pode encontrar a medida justa da solidão que precisa. Sem que para isso se desprenda ou se oponha aos sentimentos de amizade e de solidariedade intrínsecos às relações humanas, em geral. » No entanto, a solidão é predominante na sua vida. « penso que um poeta tem necessidade de solidão, de silêncio, de folhas em branco. »



Testemunho da Guerra Civil Espanhola


Dos tempos difíceis da Guerra, este homem de letras lembra que via passar, debaixo da sua janela, todos os dias, longas filas de prisioneiros. «mas nunca os via regressar”. António Gamoneda recorda, ao mesmo tempo, o choro inconsolado das mulheres, quando, a meio da noite, lhes desviavam os maridos. Estas experiências, aliadas a condições de vida modestas, levaram António Gamoneda, a forjar uma visão particular de existência, que o conduziu, nos anos 50 do século passado, à geração da poesia social espanhola, para depois de separar dela e desligar-se de todos os movimentos ou etiquetas do universo da escrita. « A poesia é uma arma carregada de futuro, ecrevia o mítico poeta espanhol Gabriel Celaya. O pobreGabriel Celaya, excelente pessoa, aliás, não se dava conta, que ele dizia praticamente a mesma coisa que José Antonio Primo de Rivera, o principal pensador do fascismo espanhol e que afirmava que só os poetas eram capazes de mudar os povos’. As duas coisas são falsas. Gostava que fosse assim, mas a realidade é outra. A poesia não é capaz de inspirar as mudanças sociais ou históricas. Não é um instrumento. A poesia lima e intensifica as consciências. Ela cria uma qualidade de pensamento ligada à observação e à critica, com o desejo que isso seja simultaneamente bonito e justo. »


A vida dos cheiros


No seu mundo privado, nas suas memórias intituladas Un armario lleno de sombras (Um armário cheio de sombras ) surge sempre uma imagem , um cheiro, que torna a vida um ser já morto. Um perfume sai deste armário e António não hesita em recorda-lo: «A minha mãe morreu e este armário ficou fechado durante dois ou três anos. Certo dia em estava em casa e decidi abri-lo. O que estava lá dentro era uma grande escuridão. O próprio quarto estava emergido na escuridão, não recebi um único foco de luz, estava cheio de sombras. Mas o que eu recebi desse armário, foi uma sensação, uma das experiências mais marcantes da minha vida. Mal enfiei a cabeça lá dentro, pude recuperar imediatamente o cheiro da minha mãe quando ela estava viva. O cheiro dela tinha ficado lá, impregnado. A minha mãe tinha morrido há três anos e eu pude sentir o seu cheiro Foi muito comovente. De uma forma ou de outra, a redescoberta do conteúdo desse armário, permitiu-me recuperar as minhas próprias memórias. »


in " Balão de poesia"

as quantidades de tempo



As quantidades de tempo
situam as quantidades de sons.
Oiço-os para lá da morte.

A música eleva-se
de um poço de silêncio;
é lavoura de ar
em tímpanos de fogo

e isso entrou em mim.
E agora a música é o meu pensamento


António Gamoneda


Caí sobre uma mãos



Caí sobre uma mãos
quando não sabia
ainda que vivia nas mãos
Elas passaram sobre o meu rosto e o meu coração.

Senti que a noite era doce
como um leite silencioso. E grande.
Muito mais que a minha vida.

Mãe :
Eras as tuas mãos e a noite juntas.
Aqui está o porquê da solidão gostar de mim.

Eu não me lembro, mas está comigo.
Existe, no esquecimento
Encontram-se as mãos e a noite.

Ás vezes,
Quando a minha cabeça se debruça sobre a terra
Não posso mais e está vazio
o mundo. Algumas vezes, sobe o esquecimento
até ao coração.

Eu ajoelho-me
Para poder respirar sobre as tuas mãos.

Eu desço
e tu escondes o meu rosto; e eu sou tão pequenino;
e as tuas mãos tão grandes; e a noite
vem mais uma vez, vem mais outra.

Eu descanso
de ser um homem, eu descanso de ser um homem.


António Gamoneda


sábado, 25 de abril de 2009

lamento de menino triste




O azeite ainda se agarra
às paredes do frasco depois de esvaziado.
A água, leve, esvazia-se rápido,
às vezes até evapora, e não deixa resíduo,
nada se gruda à parede do frasco.
Ó mãe, faz permanecer em mim a água da alegria
e me livra do azeite do desengano.

Ronaldo Costa Fernandes


(poema enviado gentilmente por Walter Moura)

antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero o esplêndido de onde emerge a sintaxe,os sítios escuros onde nasce o "de",
o "aliás",o "o" o "porém", e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia.
Quem entender a língua entende Deus cujo filho é o verbo.
Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça,infrequentíssimos, se poderá apanhá-la:
um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.



Adélia Prado

quarta-feira, 22 de abril de 2009

nunca soube lançar o pião


Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores:aprendizes
de ladrões, de proxenetas,

arrumadores. nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma

a mão,acima do solo
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. e foi tudo.



in " A Irresistível Voz de Ionatos" de Victor Oliveira Mateus


Grandes são os desertos




Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.


Álvaro de Campos

sabedoria


"O mérito verdadeiro é como um rio: quanto mais profundo, menos ruidoso é".

Lord Halifax

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pedro Foyos



Sobre o autor

Pedro Foyos

Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1945. Perfazendo uma carreira profissional de mais de quarenta anos como jornalista e director de publicações, se dedica também, atualmente, à literatura de ficção e de divulgação de temas das Ciências da Natureza. De entre os órgãos de informação onde trabalhou se destacam o diário República (único jornal de oposição à ditadura de Salazar) e o Diário de Notícias. Neste jornal de referência na imprensa portuguesa integrou a direção de redação, sendo responsável, nomeadamente, pela revista dominical e edições especiais. Fundou a revista Nova Imagem, da qual foi director durante seis anos, e mais tarde a coleção Grande Reportagem.
Foi presidente durante uma década da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, tendo nesse período fundado e dirigido o Anuário Português de Fotografia.
É autor dos livros O Jornal do Dia e A Vida das Imagens. Organizou, a convite da Imprensa Nacional, uma antologia histórica, em dois volumes, consagrada a grandes momentos do jornalismo português no século XX. Estreou-se na ficção com O Criador de Letras ,um romance inspirado no tema da criação do alfabeto, tendo como cenário a vida quotidiana no Antigo Próximo Oriente.

Interessado desde muito novo pelos temas científicos, fundou o Centro de Estudos das Ciências da Natureza, ao qual continua ligado honorariamente e prestando colaboração na área da Botânica.
No campo do ensino e formação tem vindo a orientar estágios profissionais de Tecnologias de Comunicação na especialidade de Psicologia da Leitura.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CONFISSÃO A MAAT






"Honra a Ti Grande Deus, Mestre de toda Verdade!
A Ti venho, meu Deus, e me ponho na Tua presença
a fim de tomar consciência dos Teus decretos,
Eu Te conheço e comungo Contigo e com as Tuas quarenta e duas leis
que existem Contigo nesta Câmara de Maat...
É em Verdade que venho comungar Contigo e Maat está presente
no meu pensamento e na minha alma.
Por Ti destruí a maldade.
Não fiz mal à humanidade.
Não oprimi os membros de minha família.
Não forjei o mal em lugar da Justiça e da Verdade.
Não me relacionei com homens indignos.
Não pedi para ser considerado o primeiro.
Não obriguei ninguém a um trabalho excessivo para mim.
Não coloquei o meu nome na frente, para ser elevado às honrarias.
Não privei os oprimidos dos seus bens.
Não fiz nenhum ser humano passar fome.
Não fiz nenhum ser humano chorar.
Não infligi nenhum sofrimento a qualquer ser humano ou a animal.
Não privei os templos das suas oblações.
Não falseei as medidas.
Não me apossei das terras de outrem.
Não fraudei nenhuma terra.
Não alterei os pesos da balança para enganar o vendedor.
Não falseei a indicação da agulha para enganar o comprador.
Não tirei o leite da boca das crianças.
Não reprimi a água no momento em que ela devia correr.
Não apaguei a chama quando ela devia brilhar.
Não repeli Deus nas Suas manifestações.

Eu sou puro!
Eu sou puro!
Eu sou puro!
Minha pureza é a pureza da Divindade do Templo Sagrado. Por isso o mal não me atingirá neste mundo, porque eu, eu mesmo, conheço as leis de Deus, que são Deus.

Cro-Maat!"


domingo, 12 de abril de 2009

VII - A vida gira







a vida gira como tudo gira
e tem cores
como as do céu
árvores em chamas verdes

um polén
que faz dormir o vento



o amanhecer do lótus
que perfuma
a morte





in " escrito na pedra"

quarta-feira, 18 de março de 2009

soneto





Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.





Carlos de Oliveira in
A Leve Têmpera do Vento,
Quasi

Mania da Solidão




Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.


Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite,
Livros Cotovia








terça-feira, 17 de março de 2009

Você, antes e depois






Antes,
era a exuberancia que te atraia
Você idolatrava a exuberancia
- rolava na exuberancia.
Se alimentava da exuberancia - e,
do alimento em você,
a exuberancia,
você não precisava de mais nada...
A exuberancia não estava
em seu coração,
em seu pensamento...
jazia em seu sexo,
e eu me sentia feliz,
enjaulada em seu sexo.
Num momento
em que por instantes,
fugi,
você dividiu nossas vidas.
Hoje,
estamos um diante do outro.
Mas,
nossas sombras,
nossas almas,
se sorvem mais que a exuberancia,
porque agora,
nem o Tempo, nem a Historia,
nem existe Vida,
que nos separe.


clarisse de oliveira

sábado, 14 de março de 2009

não nos peças a palavra




[NÃO NOS PEÇAS A PALAVRA]
Eugenio Montale





Não nos peças a palavra que acerte cada lado
de nosso ânimo informe, e com letras de fogo
o aclare e resplandeça como açaflor
perdido em meio de poeirento prado.

Ah o homem que lá se vai seguro,
dos outros e de si próprio amigo,
e sua sombra descura que a canícula
estampa num escalavrado muro!

Não nos peças a fórmula que possa abrir mundos,
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Hoje apenas podemos dizer-te
o que não somos, o que não queremos.

(Tradução: Renato Xavier)




Eugenio Montale - Non Chiederci la Parola: videoclipe no YouTube
com a voz do ator Vittorio Gassman lendo o poema.
Clique na seta para assistir ao clipe.


[NON CHIEDERCI LA PAROLA]

Non chiederci la parola che squadri da ogni lato
l'animo nostro informe, e a lettere di fuoco
lo dichiari e risplenda come un croco
perduto in mezzo a un polveroso prato.

Ah l'uomo che se ne va sicuro,
agli altri ed a se stesso amico,
e l'ombra sua non cura che la canicola
stampa sopra uno scalcinato muro!

Non domandarci la formula che mondi possa aprirti,
sì qualche storta sillaba e secca come un ramo.
Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.




daqui

quem pensa na casa





QUEM PENSA NA CASA



Morar numa casa. Numa casa com asas. Voar lá dentro, para fora. A casa em que você mora, em que você ri e chora, em que você ama e dorme, come e brinca, lê e escreve, pensa e morre. A casa para a qual você corre no fim do dia. Na casa, teto e paredes, escada e jardim, banheiro e cozinha, quintal e copa, sala e quartos, janelas e portas.

Na casa, você conversa com aqueles que ama e admira. Você faz versos. Você se veste e se despe. Você recepciona e se despede. Na casa, você anda descalço, toma remédio, toma café, troca lâmpada, lava louça, tira soneca, vê TV, xinga político, beija filhos, faz de tudo um pouco.

Não há casas perfeitas. Em toda casa falta um copo, falta uma linha, um motivo a mais de segurança. Em toda casa há um fantasma, pequeno que seja, num canto, gemendo, assombrando nossa imaginação.

Quem pensa na casa já está morando ali. Quem pensa na casa leva o pensamento longe demais. A casa voadora atravessa o tempo, bebe do passado, afugenta o presente, pisca um olho para o futuro.

Minha casa não é esta ou aquela. A casa definitiva não se deve construir no meio da ponte. A vida é ponte que nos leva para além do poente. Mas enquanto estamos a caminho, é bom ter uma casa onde possamos entrar para descansar as pernas.

A casa possível jamais será a casa ideal. A ideal não tem nada de mau. A casa ideal já existe. Eu é que ainda não recebi as chaves. A casa ideal foi edificada com materiais eternos. A casa ideal flutua divinamente.

Por enquanto, preciso da casa possível. A imperfeita casa, na qual baratas entrarão. Na qual encontrarei rachaduras. Na qual sentirei por vezes calor excessivo, frio, tédio, medo, solidão, angústia.

Casa, casinha, casarão. Casa pedindo reforma. Casa vulnerável. Casa aconchegante. Casa que um dia cairá, casa à mercê da podridão, à mercê da maldade humana.

Estou pensando na casa, cheia de luz, livros, crianças, quadros, cores, sabores, perfumes, palavras, silêncios, verdades.

A casa também pensa em nós. Está aberta e trancada, vigiada e inocente, na rua movimentada, no beco, necessitada e indiferente, cercada de flores, no meio do deserto, habitada por segredos, cobiçada e desprezada, imagem perdida e reencontrada no horizonte.



Gabriel Perissé, in -Entre-textos

terça-feira, 10 de março de 2009

vazio




A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.


Augusto Frederico Schmidt



alguma poesia

sacode as nuvens





Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner Andressen

sexta-feira, 6 de março de 2009

GERÊS




Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram


Jorge de Sousa Braga


( gentilmente enviado por Amélia Pais)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Desfolh(e)ar o mar...


pétala a pétala
o mar
desfolha
o véu
de espuma
à areia
oferece
um jardim
de búzios


V Solteiro



in A Arquitectura das Palavras

queria


Quería remontar o misterio do mar,
Como um barco que o cruza,
Recolhendo peixes do infinito,
Como pérolas incrustadas.
Brisas nas ondas brancas,
Que rumoreiam um segredo azul.
Mar em remoinhos,
que abre a visão das marés.


Luís Enrique

in MI PLANETA X

poema de Hanshan


Se você quiser um lugar para descansar o corpo,
A Montanha Fria é boa para uma longa preservação.
Uma brisa subtil sopra no pinheiral denso;
Ouvido de perto, o som é ainda mais bonito,
Sob as árvores está um homem com o cabelo cinza
Furiosamente lendo livros Taoístas.
Por dez anos não pude voltar –
Agora esqueci por qual estrada vim.


Hanshan



terça-feira, 3 de março de 2009

Sacerdotisa



Sacerdotisa,
tu és o Santo Graal
com a Essência de Cristo.
Portadora de um Deus
sobre a Terra,
teus olhos não têm pupila,
são duas brasas numa tez de porcelana.
Seus longos dedos,
brancos como as penas das asas
da cegonha,
têm sempre as pontas unidas
diante de teu peito
onde encarcerado, palpita teu coração.
Não podes te ajoelhar diante do Cristo
que amas.
porque, portadora da Sua Essência,
tu és o imenso estojo em que o
embalas,
de um extremo a outro do Universo,
incenssando a Criação
com o perfume de seu Espirito
e fecundando as Almas,
com o Pólen de seu Renascimento Divino.



Clarisse


in- Clarisse de Oliveira

domingo, 1 de março de 2009

poema XLII



XLII

pesam as pedras em meus olhos
e sei que as fogueiras da noite
fazem crescer o pólen do coração


Maria Costa



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

mesa de solidão


Mortas na boca as palavras demoram
A refluir aos lábios

Elas esperam que o Amor as ajude
Que o Amor lhes sirva
De ponte

Que o Amor lhes dê a conhecer
A boca que as espera


A ofegante boca que as espera .


RAUL DE CARVALHO
RAUL DE CARVALHO



Poeta português, natural do Alvito. Foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades. A obra deste poeta, onde se encontram evocações da sua infância alentejana, revela a sua ligação ao neo-realismo. A fidelidade ao humano e o estilo enumerativo e anafórico são marcas da sua poesia.

Os seus títulos englobam As Sombras e as Vozes (1949), Poesia, (1955), Mesa de Solidão (1955), Parágrafos (1956), Versos - Poesia II (1958), A Aliança (1958), Talvez Infância (1968), Realidade Branca (1968), Tautologias (1968), Poemas Inactuais (1971), Duplo Olhar (1978), Um e o Mesmo Livro (1984) e Obras de Raul de Carvalho — I — Obra Publicada em Livro (editada postumamente em 1993). Recebeu, em 1956, o Prémio Simón Bolívar, do concurso internacional de poesia realizado em Siena, Itália.Fonte da biografia: www.astormentas.com/

coração sem imagens


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ainda assim


toda saudade é bruma
e ainda assim
dói

saudade é como viajar
num barco que se perdeu


Adelaide Amorim



in "INSCRIÇÕES"

poema para a Maat



Mulher bela de coração aberto,
Tua mirada é clara e perfeita.
Na tua poesia quase onírica, quase etérea,
Convergem todas as coisas,
Rosas vermelhas como feridas.
Desertos e campos em flor.
Música das mais altas esferas.
Mulher de uma só peça.
Criatura anjo, sempre eterna.
Mulher de uma cristalina sapiência.
Mulher, em toda sua substância e beleza.


Luis Enrique


in MI PLANETA X

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

da Poesia



"A fala aponta sempre uma coisa, como um dedo ou aceno. Só que, se a coisa é muito importante e nova de dizer, a fala nunca chega exactamente àquilo que visava de início. O que chega pode ser até muito importante, e novo também. Mas fica ao lado da primeira coisa. E todas essas coisas mal ou bem apontadas ou agarradas – existem. É como o amor que nunca erra: só fica, quase sempre, mesmo ao lado, porque nunca há perfeita correspondência dual. Por isso é que é precisa a poesia, pois a correspondência social tem mais probabilidades de, ocasionalmemte, ficar mais perto do indigitado, ou de encontrar sucedâneos melhores: é um amor transitivo, continua sempre avante, de pessoa em pessoa."


Óscar Lopes


do blog TERREAR

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

BOUDU SALVO DAS ÁGUAS


O meu caminho é o caminho do vento
Que nunca sabe de si próprio.



Construir para quê
Se a casa será sempre uma prisão
Onde habitam três estrelas tristes
E o ruído da lua



E a vida e o amor
Têm o tempo de um
Relâmpago?


Henrique Dória

contemplação da nuvem



A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem passando.
E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens.

A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem. Passando.

António Brasileiro



“Poeta e pintor: é assim que Antônio Brasileiro gosta de se definir. Mas não são essas poucas palavras que melhor o definem. Nome expressivo da poesia brasileira atual, ensaísta e ficcionista, Brasileiro é também figura de destaque como agitador cultural. Mente multifacetada, o seu raio de acção inclui, além da literatura e das artes plásticas, um sólido estudo de filosofia. Com vinte e duas obras publicadas (poesia, ensaio, conto, romance, teatro), divide o resto do tempo entre o amor pelos livros e a música, a prática do ténis e o cultivo do ócio.”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

não leias odes, meu filho




não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito

e são meticulosos por ti.


«Para um Livro de Leituras Escolares»
Hans Magnus Ensenberger

Poesia do século XX
(de thomas hardy a c.v. cattaneo)
Editorial Inova - 1978
Tradução: Jorge de Sena.


Magnus Enzensberger (11 de novembro, 1929 em Kaufbeuren) é poeta, ensaista, tradutor e editor alemão. É também escritor sob o pseudônimo de Andreas Thalmayr, Linda Quilt, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang
Entre 1965 e 1975 foi membro do Grupo 47.
Em 1965 criou a revista «Kursbuch» e desde 1985 edita a série literária Die andere Bibliothek.

( enviado por Amigo)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

FINALMENTE



Demorou...
mas agora sei que sou
vidoeiro e elefante,
couve-flor e cotovia,
carvão, terra e borboleta,
eucalipto e pantera,
cebolinho e peneireiro,
granito e libelinha,
acácia e cavalgadura,
pojo, cardo e andorinha,
pedra mármore e formiga,
palmeira e rinoceronte,
mocho, papoila, urubu, ...
até sou o horizonte!

Demorou...
mas agora sei que sou...
que sou vento,
sol e chuva
e excremento,
ar,
montanha e mar.
Sou tudo o que já acabou,
tudo o que há-de começar.
Agora sei o que sou,
finalmente.

Pobre de quem é só gente!



Sérgio O.Sá
In: "Diário de um Marginal"
Dezembro de 2005

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

os mortos


os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça


Ferreira Gullarouvir Aqui

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Auto-retrato falado




Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.


Manoel de Barros

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

***



Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou

de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me

deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses do sufoco, o vento chegava em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.

O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas por
homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,

refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?


Victor Oliveira Mateus (Lx, 09/2/6)
.
in a dispersa palavra

sábado, 7 de fevereiro de 2009

aniversário da morte de Dante



Aniversário da morte
de Dante – no meu cabelo
estrelas, rosas e centopéias


Nana Naruto



Haicai traduzido por Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi,
publicado na Revista Poesia Sempre,
da Biblioteca Nacional,
ano 10, número 18.


( enviado por uma Amiga )

sábado, 24 de janeiro de 2009

NATURALEZA ORIGINARIA





El pequeño lago transparente
de cristalinas aguas.
Refleja las blancas nubes
y el azul del cielo.
Interrogado el lago
por la pureza de sus aguas respondió:
Renovándome constantemente
conservo la Naturaleza Originaria.

Chu-Shi
Poeta Chino
Dinastía Sung

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

poesia budista



Prefiero poemas
que son
pequeñas visiones budistas
momentos de conciencia
textos, que suben rápido
a la mente

saco la puntuación
y llego
al Nirvana


Robert Gurney
-St. Albans, Inglaterra-


Do livro" El cuarto oscuro y otros poemas"
(febrero, 2008)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

omar khayam (Pérsia,1048 a 1131)



Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me importa nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.

Ninguém pode compreender o que é misterioso.
Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra.
Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.

A tua vida não terá sido inútil,
se tiveres enxertado no teu coração a rosa do Amor
ou se tiveres procurado ouvir a voz de Alá
ou ainda se tiveres empunhado a tua taça sorrindo ao prazer.

Dizem-me:«Não bebas mais, Khayyam!»
Eu respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as túlipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada.

Retóricos e silenciosos sábios morreram
sem terem podido entender-se sobre o ser e o não ser.
Ignorantes, meus irmãos, continuemos a saborear o sumo dos cachos
e deixemos esses grandes homens regalarem-se de uva-passas.

Senta-te e bebe. Gozarás de uma felicidade que Mahmud nunca conheceu.
Escuta as melodias que exalam os alaúdes dos amantes:
são os verdadeiros salmos de David.
Não mergulhes no passado nem no futuro.
Que o teu pensamento não ultrapasse o momento presente.
Esse é o segredo da paz.


Omar Khayam, Rubayat


© Estampa (tradução de Fernando Castro)


(enviado por Amélia Pais )

Edgar Allan de Poe


"Os que sonham de dia sabem muitas coisas que escapam aos que sonham de noite"


Edgar Allan de Poe


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

história das palavras




As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cansado. Os que estavam maravilhados abriam a boca, os que se tinham cansado também abriam a boca. Ambos abriam a boca.
Houve um homem sozinho que se pôs a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cansadas.
Depois ainda espreitou melhor: Todas as pessoas estavam maravilhadas, depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cansadas.
As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.
O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença. Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra.
Este homem sozinho era da minha raça - era um Egípcio!
Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessoas, chamaram-se hieróglifos.
Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes sinais ainda mais fáceis. Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas as combinações que há ao Sol.
Este homem sozinho era da minha raça - era um Fenício.
Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra. Cada combinação de letras uma palavra.
Todos dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

José de Almada Negreiros

ode a fernando pessoa

ODE A FERNANDO PESSOA



Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.
De verdade e de feito só não foste tu.
A Portugal, a voz vem-lhe sempre
depois da idade
e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade
e aqui erraste tu,
não a tua voz de Portugal
não a idade que já era hoje.
Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz
de Portugal
o teu sonho de ti
o teu sonho dos portugueses
só sonhado por ti.
Tu sonhaste a continuação do sonho português
somados todos os séculos de Portugal
somados todos os vários sonhos portugueses
tu sonhaste a decifração final
do sonho de Portugal
e a vida que desperta depois do sonho
a vida que o sonho predisse.
Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Tu ficaste para depois
e Portugal também.
Tu levaste empunhada no teu sonho
a bandeira de Portugal
vertical
sem pender pra nenhum lado
o que não é dado pra portugueses.
Ninguém viu em ti, Fernando,
senão a pessoa que leva uma bandeira
e sem a justificação de ter havido festa.
Nesta nossa querida terra onde ninguém
a ninguém admira
e todos a determinados idolatram.
Foi substituído Portugal pelo nacionalismo
que é a maneira de acabar com os partidos
e de ficar talvez partido de Portugal!
mas não ainda talvez Portugal!



Portugal fica para depois
e os portugueses também
como tu.


José de Almada Negreiros
(ilha de s.Tomé, 1893-1970)






here

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

BASTA!




Nas ruas envermelhadas
pelo sangue de tanta gente
andam vidas obrigadas
a ver a morte de frente.

É o sionismo em acção.
Nem olha a meios, pensando
que só pode ter razão
se mais gente for matando.

E a pobre Palestina,
que foi Terra Prometida,
em vez de Paz tem ruína
e uma guerra fratricida.

Porque quem foi perseguido
em tempos que já lá vão
prefere estar só, consigo,
a juntar-se ao Povo Irmão!

6 de Janeiro de 2009, Sérgio O. Sá


mais referências

de repente


na casa da minha infância ouço passos de anos
cá dentro espreitam as janelas as árvores e um balouço
a dar à corda com a tábua do assento
para lá e para cá
numa mingua qualquer de vento

não sei olhar senão por um olhar fundo de câmara lenta
sentindo o calor das sombras de hastes inseguras
sentindo as árvores folheando ao tempo

só o silêncio pressinto

nem um cão ladra não há passagem de ninguém
nem de outro bicho ou de outra gente

mas há uma fotografia que se completa tão longe
tão nítida na folhagem do arvoredo doce de descanso
chego a mim e não dou pelo meu rosto

inclinado para o passado com uma trégua com o movimento escrito
com os meus olhos perdidos no balouço
ainda ouço um grito um enorme grito de espanto
eu ando e vagueio por aí e estou distante


José Ribeiro Marto


José Ribeiro Marto