quinta-feira, 3 de setembro de 2009

do futuro da poética


"É normal encontrar-se, aqui e ali, alguma ansiedade em torno da sobrevivência da poética no tempo da rede, pelo menos no modo como (culturalmente) a entendemos desde finais do século XVIII. O problema voltou a ser aflorado numa das recentes feiras do livro onde estive presente, a de Viana do Castelo. Para expiar angústias, passo a apresentar uma possível e breve cartilha em sete pontos sobre o futuro específico da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos… vamos ver se não acertei em cheio:


1 – A vida da ciberpoética será cada vez baseada no provisório e num verdadeiro vaivém em oposição a uma vasta tradição que sempre encarou a poesia como inscrição definitiva (uma espécie de magistral ‘sinal dos tempos’). O destino da ciberpoética vai, pois, ser o movimento: fluir e navegar através de permanentes subtracções e adições.



2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individuais fixas. Assistiremos ao regresso e triunfo do palimpsesto de várias entradas e autorias. Esta sobreposição será mais sincrónica – várias autores ao mesmo tempo – do que diacrónica, no sentido em que um texto profético medieval era rescrito secularmente (por exemplo, a Sibila Tiburtina existiu intertextualmente entre os séculos III e XV, num quadro discursivo ex eventum que se ia adaptando às mais diversas circunstâncias históricas).



3 – A identidade do poético viverá cada vez mais do contraste com as zonas da rede baseadas na informação transitiva (quando a função se resume a designar, indicar, noticiar, difundir ou publicitar visando alvos tangíveis e reconhecíveis). A ciberpoética será, ao invés, aquele aquário de linguagem que não visa nenhum objecto específico e que apenas se refere a si próprio. Este contraste é parecido com o que é estabelecido no mundo offline entre as chamadas zonas funcionais e aquelas zonas onde o design se alia ferozmente à eficácia estética.



4 - A ciberpoética deixará de significar em função de um contexto prévio. Isso quer dizer que cada cibertexto poético passará a criar cada vez mais o seu próprio contexto, deixando de haver um “de fora” e “um de dentro” rígidos tal como acontecia – e acontece – na vida offline (caso de um livro ou de uma escultura no espaço público);



5 - Tal como a organização da rede não é centrada, também as linhas que organizam o cibertexto poético deixarão de estar presas a uma finalidade óbvia. Por natureza, o cibertexto poético passará cada vez mais a desdobrar-se e a irradiar nos interfaces abertos da rede e nas novas vias expressivas como a recente via ‘twitterizada’.



6 – A ciberpoética acabará com a tradição milenar que concebeu a poética como uma ocupação linear do espaço. No mundo online, a noção de sequência e de linearidade explodirá cada vez mais na direcção da multimodalidade e da coexistência dos registos que procedem das mais variadas origens.



7 – A ciberpoética será cada vez mais incorpórea: a comunicação pela comunicação, a volatilidade, a corrente de ar passageira. O poeta Carlos Bessa sublinhou-o, há cinco anos, por palavras simples: “Quando cheguei/ à escola era a guerra, o/ cimento, o petróleo. Agora,/ é a comunicação, o chewing/ gum” (Desenhos em Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004).



Espero, pela primeira vez na minha via, ter alimentado uma verdadeira alma profética!"


Luis Carmelo


in PNE Literatura

1 comentário:

Vieira Calado disse...

De tantos blogs que tem, hoje escolhi este.
É interessante e variado.

Cumprimentos meus.