terça-feira, 9 de novembro de 2010

HOTEL TOFFOLO




E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.

Como se a cidade não servisse o seu pão
de nuvens.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior,
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.


Carlos Drummond de Andrade
(Brasil, 1902 – 1987)
Claro Enigma
(Record, 2006)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

as crianças de Israel



As crianças de Israel
Brincam às horas do ágape
Sob o incêndio da alegria



Maria Costa
in " ao fundo do jardim"


http://aofundodojardim.blogspot.com/


sábado, 30 de outubro de 2010

LAMENTO PELA MINHA CABANA DESTRUÍDA PELO VENTO DE OUTONO – Tu Fu




No oitavo mês, em pleno outono, o vento ruge, colérico,
E leva num turbilhão as três camadas de palha da minha cabana.
O colmo voa, atravessa o rio, espalha-se pela ribanceira.
O que voa alto fica suspenso nos ramos da grande floresta,
o que voa baixo cai vai girando cair nas ravinas.
As crianças da aldeia do sul riem-se da fraqueza da minha velhice:
têm a audácia de me roubar às claras:
abertamente arrancam o colmo e fogem por entre os bambus.
Grito até ficar com a boca seca: não adianta nada.
Volto para casa, suspiro, apoiado ao meu bastão.
O vento cessa bruscamente, mas as nuvens continuam negras,
o céu de outono é silencioso e escurece com o vir da tarde.
Os lençóis e cobertas são velhos, frios como ferro,
as crianças, sensíveis, com repugnância, rasgaram-nos a pontapés.
Todos os leitos do aposento são úmidos: não há um lugar seco,
sinto cãibras nas pernas, não as poso entender.
Aflijo-me, lamento-me, durmo um pouco,
a noite é longa e úmida, como a poderei passar?
Quem pudesse construir um vasto edifício com milhares de peças,
imenso, que protegesse todos os que têm frio no mundo,
deixado-os de rosto feliz!
O vento e a chuva não o poderiam destruir: seria sólido como uma rocha.
Ai de mim, quando chegará o momento de ver de repente essa casa aparecer
diante dos meus olhos?
Minha cabana desmoronou-se. Aqui vou morrer do frio que entra. E tudo estará bem.

Tradução de Cecília Meireles

domingo, 17 de outubro de 2010

exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Serguei Iesseênin (Rússia, 1895-1925)




A Anatoli Marienhof


Até logo, até logo, meu companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

Iessiênin


Tradução do poema . Augusto de Campos
gentilmente enviado por Amélia Pais

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mundo





Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.


Carlos Drummond de Andrade



entre-vistas - Alberto Manguel




«ESTAMOS A DESTRUIR O VALOR DO ACTO INTELECTUAL»



Ensaísta, escritor de ficção - mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magnífica biblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside. De passagem por Lisboa, Alberto Manguel falou com o Ípsilon.

Ana Gerschenfeld


02.07.2010


“Os livros e a leitura sempre nortearam - e ainda norteiam - a vida de Alberto Manguel. Aprendeu a ler por volta dos três anos e nunca mais parou. Quan­do era adolescente, leu em voz alta, durante vários anos, para Jorge Luís Borges, que tinha ficado cego. Mais tarde, começou a escrever sobre li­vros, leituras e leitores - e o seu "Uma História da Leitura" (publicado em Portugal em 1999 pela Presença) tor­nou-se um best-seller mundial.

Nasceu em Buenos Aires em 1948, criou-se em Israel, fez o liceu na Ar­gentina, viveu em sítios longínquos como Taiti. Nos anos 1980 mudou-se para Toronto, no Canadá, e tornou-se cidadão canadiano. De há 10 anos pa­ra cá, vive no Sul de França.

As suas primeiras línguas foram o inglês e o alemão e só mais tarde viria o espanhol, explicou Manguei em Lis­boa, durante uma conversa pública na semana passada com Francisco José Viegas, no âmbito do Festival Si­lêncio. "Os meus pais quiseram que eu tivesse uma aia checa de língua ale­mã que me falasse inglês. Eles, por seu lado, falavam espanhol e francês - o que significa que eu não falei com os meus pais até aos oito anos..." Sentido de humor e simpatia irresistíveis.

O eclectismo de Manguel não se li­mita à geografia e à linguística. Eterno leitor de Homero ou Dante, adora no­velas policiais e ficção científica e não alinha nas modas nem nos cânones estabelecidos. "Há grandes obras, que reconheço que são grandes obras, mas que a mim não me interessam."

Gosta muito de ler na cama e está "sempre a ler". Todos os dias, antes de tomar o pequeno almoço, lê um canto de `A Divina Comédia" ("é o meu yoga"). Fala dos 40 mil livros que compõem a sua imponente bibliote­ca, instalada numa ruína medieval restaurada, como se de 40 mil filhos se tratasse (ele próprio tem três, já crescidos).

O ebook, explicou ainda, não é mais do que "uma tábua de argila com mais memória", acrescentando que - cú­mulo da ironia -, depois de termos abandonado os rolos de pergaminho para adoptar o codex com as suas pá­ginas encadernadas, muito mais prá­tico de ler, voltamos.., a fazer scroll às páginas nos ecrãs de computador...

Não usa telemóvel, nem Internet, não tem email. Não os acha úteis. Os amigos ofereceram-lhe um site pes­soal nos seus 60 anos (alberto.man­guel.com), que "ao que parece, fun­ciona muito bem". No fundo, a Inter­net é como uma grande biblioteca - e ele já tem a dele.

A sua obra está toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paixão pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora?

Penso que somos animais leitores. Viemos ao mundo com uma certa cons­ciência de nós próprios e do que nos rodeia e temos a impressão de que tudo nos conta histórias: a paisagem, o rosto dos outros, o céu, em tudo en­contramos linguagem. Tentamos de­sentranhá-la, tentamos lê-la. Nesse sentido, não podemos existir enquan­to seres humanos sem a leitura. Inven­támos a linguagem escrita, a lingua­gem oral, para tentarmos comunicar essa experiência do mundo, para nos contarmos histórias e através delas, falar dessa experiência.

No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma infância um pouco particu­lar: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplomático fez com que viajás­semos muito e que eu não tivesse ne­nhum sítio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regres­sar à noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso alivio que o mesmo conto continuava na mesma página, com a mesma ilustra­ção, dava-me uma certa segurança e um certo sentido do lar.



Mas nem toda a gente é leitora...

Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circuns­tâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nos. 0 que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixo­nam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pes­soas que não têm uma certa experi­ência do mundo. E da mesma manei­ra, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.

A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande - seja na Idade Média, seja no Renasci­mento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exem­plo, todos os espectadores de um úni­co jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.

Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?

O que está a perder terreno é a inte­ligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa so­ciedade na qual temos de ser consu­midores para que essa sociedade so­breviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga ras­gadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.

Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.



É reversível?

Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando ape­nas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transfor­maram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a ha­ver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resis­tência - que também passa, por exem­plo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.



Estamos a ler de forma diferente?

Penso que o que está a acontecer, co­mo acontece em tempos de crise, não é o facto de termos passado a ler de forma diferente, mas de estarmos a tornar-nos mais conscientes do que significa ler, ser leitor, do que é a lite­ratura. Estamos a interrogar-nos sobre essa actividade simplesmente porque ela está ameaçada. Antes de o urso polar entrar na lista das espécies em perigo, ninguém falava dos ursos po­lares - não era um tema de conversa corrente [ri-se]. Surgiu porque os ur­sos polares estão em perigo. É porque os leitores sentem um perigo que co­meçaram a reflectir sobre o que sig­nifica o acto de ler.



Alguém disse que quando ganhámos o elevador, perdemos as escadas. O que perdemos quando passamos do livro em papel para o ebook?

Eu não prescindiria do elevador nem das escadas. Se tivesse de passar seis meses no Pólo Norte, dava-me muito jeito levar um livro electrónico - se houvesse baterias que durassem seis meses. O problema não está na inven­ção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são pro­movidos por razões puramente eco­nómicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.

A indústria faz constantemente isso e é o que está a acontecer com os li­vros. Existe actualmente nos Estados Unidos um movimento para acabar com os livros em papel nas bibliotecas das universidades. São tontices: o pro­blema não tem a ver com a electróni­ca nem com o livro impresso, tem a ver com um comerciante ganancioso que quer vender computadores.



Mas os editores não querem vender computadores, têm medo deste fenómeno.

Têm medo, mas cada vez mais os con­tratos de edição incluem os direitos para o ebook. Não acho que isso seja um problema. Paulo Coelho, que não é uma pessoa conhecida pelas suas ideias filantrópicas, colocou todos os seus livros na Internet porque perce­beu que as pessoas que liam os livros em formato electrónico iam a seguir comprar o verdadeiro livro.

O livro electrónico é mais uma for­ma de ler e tudo depende de como queremos ler. Se quiser apenas ler um texto, conhecer um texto, tanto me faz que seja num ecrã ou num livro electrónico. Mas se quiser ler como costumo ler - eu, Alberto Manguel -, fazendo anotações nas margens, pas­sando da página 74 para a página 32 para depois ir espreitar a página 3, não posso fazer isso com um livro electrónico - ou talvez possa, mas é mais complicado. A mim o ebook não me é útil - mas percebo perfeitamen­te que o seja para outros.



Gostemos ou não, o futuro não será electrónico na mesma?

O futuro não - o presente. O futuro, esse, não sei como vai ser. O meu filho utiliza hoje a electrónica para tudo, para ouvir música, para falar ao tele­fone, para ler, para comprar bilhetes de avião - tudo passa pela electrónica. Mas também lê livros, também ouve CD de música e discos de vinil. Esta­mos num presente cuja tecnologia é electrónica - é absurdo negá-lo. Mas daqui a 10 ou 20 anos, vamos dizer: "Ainda usas um computador? Não tens um pffttt?" (não sei que nome iremos dar a tecnologia que virá a se­guir).

Estamos a mudar de objectos quo­tidianos a um ritmo impressionante. Mas nada disso me assusta; faz parte da nossa realidade. O que me assusta é a nossa utilização desses instrumen­tos e a falta de liberdade com a que os utilizamos. Estamos a transformar-nos cada vez mais em meros consu­midores. É essencial reflectirmos so­bre isso, porque estamos a perder uma liberdade que define a nossa condição humana.

É muito importante sabermos por que usamos uma coisa. Eu não uso telemóvel, não uso a Internet, não tenho email, mas é uma escolha, não é uma resistência contra algo que me poderia servir. A mim, essas coisas não me servem. Percebo perfeitamen­te que um cirurgião, que pode ser chamado de urgência, precise do te­lemóvel, mas a ideia dessa presença constante, dessa comunicação cons­tante, dessa urgência constante, é totalmente falsa. E nós aceitámo-la - mas espero que consigamos reagir. Já chega, já brincámos com todos es­ses brinquedos e agora vamos pensar um pouco para saber se realmente precisamos deles.



A Internet permite associar ideias, inclusive literárias, quase como se fosse por acaso. Não pensa que isso pode expandir a imaginação?

Essa é precisamente a forma como usamos uma biblioteca. Há mesmo uma biblioteca - que para mim é o arquétipo das bibliotecas -,que é a de Aby Warburg [historiador, 1866-19291. Foi instalada em Hamburgo em inícios do século XX e é uma biblioteca "as­sociativa" no sentido em que Warburg colocava os livros na ordem em que ele os associava. Ele desenvolveu, por exemplo, uma "lei do leitor", e em particular uma "lei do bom vizinho", segundo a qual a informação de que estamos à procura se encontra sempre no livro ao lado daquele que tirámos para consulta [ri-se). A leitura é uma actividade associativa, sempre foi. Procuramos uma informação, lemos um livro e ao lado desse livro há outro e é assim que construímos as nossas bibliotecas e as nossas cronologias.

O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não signi­fica que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que faze­mos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma ac­tividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação. Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam ás bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem de in­formação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aqui­lo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comen­tá-lo, associá-lo ou resumi-lo - e sobre­tudo, memorizá-lo -, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.

Isso não é mais a culpa da escola do que da Internet?

A escola não tem culpa, é a nossa so­ciedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende apensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de trei­no. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.

Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capa­cidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir so­breviver até chegar à reforma - que também já lhes estão atirar. O que estamos a fazer é horrível.

Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um con­junto. Somos culpados enquanto so­ciedade.



Você é um leitor que escreve livros? É mais leitor do que escritor? Não devia, pelo contrário, ser mais escritor do que leitor, depois tantos livros escritos?

Eu comecei por ser leitor. No que­ria escrever. Depois, tornei-me um leitor que escrevia livros. Mas quando comecei a escrever ficção - um ro­mance intitulado "Notícias dei Extran­jero" [vai em breve ser editado em Portugal pela Teorema sob o título "Novas chegaram de outro país"] -, a situação mudou. É que, para escrever ficção - embora continuemos a escre­ver com esse fundo que acumulámos como leitor, com a visão do mundo que nos dão as nossas leituras - e criar um mundo fictício, temos de nos re­tirar da nossa biblioteca e passar a trabalhar sozinhos.

Não podemos escrever romances a partir de outros romances, porque acabaríamos por parodiar os roman­ces que nos inspiraram. Enquanto o escritor de ensaios trabalha a partir de informação recebida e de uma re­flexão acerca dessa informação, o escritor de ficção tem de estar só, num espaço em que se torne possível inventar o mundo praticamente de raiz - as personagens, o espaço, a his­tória. No início, essa ideia metia-me muito medo; agora, é o que mais gos­to de fazer.

Acho que a ficção é um instrumen­to excelente para dar forma a certas perguntas. O ensaio é útil, claro, mas é por vezes demasiado preciso. A fic­ção permite uma ambiguidade que pode ser mais útil para determinadas perguntas muito complexas. Por exemplo, o tema que me persegue desde o início é a relação entre ver­dade e ficção, mentira e ficção, men­tira e verdade.

Um dia percebi que, desde as mi­nhas primeiras leituras, o que me in­teressava era saber como distinguimos uma experiência que nos traduz o mundo de uma experiência que atrai­çoa o mundo. Como distinguimos a ficção da mentira, a ficção da verdade? Não penso que nos seja possível ter­mos uma visão verdadeira, total, do mundo. Acho que podemos ter acesso a um certo ponto de vista - e é esse ponto de vista que vai sendo definido através das histórias que contamos.



E isso tem a ver com a escrita ficcional?

Sim. Quando temos uma experiência do mundo, o nosso impulso é transpô-la em palavras para a perceber. Por vezes, encontramos nos escritos que lemos as palavras que nos parecem justas. Mas, doutras vezes, queremos ser nós próprios a nomear essa expe­riência. O problema é que, ao mesmo tempo, sabemos que a linguagem é imprecisa, que nunca chega para de­finir sequer as coisas mais simples. Então recorremos não apenas à lin­guagem, mas também à história que contamos através da linguagem. E assim, através dessa experiência que inventamos, criamos uma espécie de espelho da experiência que queremos contar.

Por exemplo, todos temos medo do desconhecido. Temos medo do que pode ser falso, da aparência das coi­sas. Mas como explicar esse medo? Inventando o conto do Capuchinho Vermelho. Dessa forma, sem necessa­riamente nomear esse medo, o conto transmite-no-lo através de uma expe­riência que sabemos ser fictícia, mas que no entanto conseguimos viver através da linguagem.



O seu amor pelas bibliotecas vem de onde? Da sua juventude, quando lia para Borges (que era uma espécie de biblioteca ambulante e anotada), da biblioteca da casa do seu pai em Buenos Aires, onde se escondia para ler?

Não. A minha relação começou quan­do tinha três, quatro anos. Por um lado, é uma relação fetichista - o ob­jecto - livro apaixona-me - e por outro, é uma relação de conhecimento. O conhecimento do mundo vem-me, em primeiro lugar, dos livros.

Para Borges, o conhecimento do mundo também passava pelos livros, mas ele não tinha qualquer relação fetichista com os livros. Não estava interessado em guardar livros - oferecia-os, tinha poucos livros. Eu ofereço muitos livros, mas compro livros para os oferecer. Por vezes, ofereço livros da minha biblioteca - mas o que nun­ca faço é emprestar livros, porque isso é um apelo ao roubo.



Disse que quando de leitor passou a escritor, teve de sair da sua biblioteca.

Não é bem isso, uma vez que escrevo na minha biblioteca. Há uma secção, com dois andares, onde também há livros, mas onde tenho o meu escri­tório, com os meus objectos dispostos de uma certa maneira. Sou muito pi­cuinhas nesse sentido. O que quis di­zer é que, quando escrevo, preciso de esquecer-me daquilo que li. Posso ler certos livros; há autores que não me contagiam. Mas há outros que não posso ler de forma alguma - Borges, Calvino, Chesterton - porque são co­mo aquelas melodias que nos ficam na cabeça e que passamos o dia a can­tarolar. Tento ler textos mais neu­tros.



Mais distantes dos temas sobre os quais está a escrever?

Não necessariamente, apenas os que têm uma voz menos imponente. Há grandes escritores cuja voz é muito mais suave. Autores como Conrad, por exemplo, de quem gosto muito, ou Bioy Casares, cuja voz não é con­tagiosa.



A sua biblioteca parece ela própria como uma personagem de romance: imponente, secreta, maravilhosa. Contém 40 mil livros e está instalada num presbitério.

Sim. O presbitério, que era a casa do padre, está colado à igreja [da aldeia]. E tem um enorme jardim, onde havia um estábulo de pedra que tinha sido demolido há três séculos. Nós recons­truímo-lo e foi aí que instalei a biblio­teca.



É caótica ou organizada?

É muito organizada. Sei onde está ca­da livro. A ordem principal é a da lín­gua em que o livro foi escrito. Há uma secção de inglês, de castelhano, de italiano... E dentro dessa ordem, a or­dem alfabética. Mas depois há muitas excepções, com secções sobre a Bíblia, sobre mitologia, lendas do Judeu Er­rante, cozinha, romances policiais... Não sente frustração quando pensa que há jóias literárias que lhe passam ao lado?

Não. Quando era adolescente, angus­tiava-me pensar que nunca iria poder ter nem ler todos os livros que queria. Mas essa angústia passa-nos e trans­forma-se numa espécie de alívio [ri-se]. É óbvio que não vou ler tudo o que é publicado, é óbvio que nem vou ter conhecimento de tudo aquilo que é publicado. Aliás, prefiro concentrar-me em certos livros.

O tipo de leitura que pratico agora, nesta idade - embora continue a ler algumas coisas novas - é a releitura. Por exemplo, há já mais de dois anos que leio um canto de Dante todas as manhãs, antes de tomar o pequeno almoço [ri-se] - com um comentário diferente, tomando notas.

Já completei esse percurso umas dez vezes. É um tipo de leitura que faço por prazer - e que me parece in­finito. Nunca vou conseguir saber o suficiente acerca da "Divina Comé­dia", mas felizmente, já não tenho aquela angústia. É como pensar em sítios que nunca visitarei, pessoas que nunca conhecerei. Que alívio! [ri-se] Lê sobretudo ficção, ou também não ficção?

Leio principalmente ensaios - porque escrevo ensaios e portanto certos te­mas me interessam em particular. Também leio ficção, mas acho que, aí, preciso de uma certa distância crono­lógica, de sentir-me numa geração muito posterior ao texto. É-me difícil ler os meus contemporâneos. Há al­guns autores actuais de quem gosto muito - entre os argentinos, Eduardo Bei-ti, Edgardo Cozarinsky; em Fran­ça, Pascal Quignard, Jean Echenoz; na Alemanha, Daniel Kehlmann; entre os americanos Cynthia Ozick (gosto mesmo muito dela), Richard Ford.

Mas não gosto de nenhum escritor daquela geração [norte-americana] de [Jonathan] Franzen, [Dave] Eggers. Parecem-me todos saídos da mesma máquina, com romancezitos bem montados que soam modernos e que toda a gente terá esquecido daqui a 10 ou 20 anos.



E os romances policiais, a ficção científica?

Gosto imenso. A ficção científica — e eu diria que o romance policial tam­bém — já não são os romances de gé­nero que foram no passado. Os escri­tores que acabei de nomear escrevem romances policiais; [Margaret] Atwood escreve ficção científica, Doris Lessing também. Há umas gerações uma pes­soa não erudita, mas culta, tinha a obrigação de ter lido certos livros. Ho­je, essa ideia parece ter sido esqueci­da.

A questão é que deixámos cair a no­ção de "ser culto". Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa po­de admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas ho­je é espantoso ver o número de pesso­as adultas que jogam jogos totalmente imbecis.



Há leitores que só querem ler coisas novas.

Mas essa é a tal política do supermer­cado. Não vamos ao supermercado comprar um produto do ano passado, mas coisas que ainda não passaram do prazo. É o mesmo com os livros: agora, têm um prazo de caducidade. Passadas três semanas, o que não foi vendido desaparece. É uma politica muito perigosa.



Mas ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. "Os Lusíadas" de Camões, por exemplo.

Claro que continua. Os grandes clássi­cos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores - e muita gente - não o reconheçam.

As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Que­rem aprender a pensar. Na Idade Mé­dia, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma.

Se me confiarem uma turma de crianças, comprometo-me a fazer com que elas leiam Camões com muitíssi­mo entusiasmo. É preciso dizer-lhes que são inteligentes e que vão conse­guir ler essa obra. As crianças adoram palavras complicadas, termos difíceis, histórias onde não se percebe tudo. Mas a indústria não quer isso, quer tornar as coisas mais simples - e então fazem resumos, simplificam, publicam coisas idiotas para crianças e acabam por não publicar nada. Apenas jogos de vídeo.

A nova geração continua a ter gosto pela leitura. Para o ser humano, o ins­tinto de sobrevivência não se resume à necessidade de comer e beber; tam­bém inclui a necessidade de pensar. E isso é verdade seja onde for - aconte­ceu nos campos de concentração, acontece nas favelas mais pobres, acontece nas situações mais extremas. Continuamos a pensar, a criar, a inter­rogarmo-nos. E temos de lutar por isso. Não somos cegos; podemos dizer que não.



Diz que se sente mais canadiano do que outra coisa. Porquê?

Ser canadiano foi uma escolha. Che­guei ao Canadá sem saber o que era o Canadá. Fui lá porque um dos meu livros foi publicado lá e teve muito êxi­to. Podia ter sido na China. Ora, no fundo, eu nunca tinha realmente vivi­do numa democracia. E de repente cheguei a um país onde votar tinha significado, onde a voz de um indiví­duo na sociedade tinha significado, onde existia uma responsabilidade cí­vica. Queria pertencer a esse país!

Para mais, cheguei lá em finais dos anos 1970, inícios dos anos 1980, no meio de um verdadeiro boom cultural. Queriam criar uma cultura canadiana, que até lá tinha sido inglesa, britânica ou americana. Por isso, se uma pessoa quisesse montar uma peça de teatro, fazer um filme, escrever um livro, não havia qualquer problema. Foi assim que, eu, um estrangeiro, comecei a fazer rádio, televisão, todo o tipo de coisas. Isso nunca me tinha acontecido nem nunca me aconteceu depois em mais sítio algum.

Não acredito nas nacionalidades im­postas. O facto de nascer num sítio é um puro acaso, não define nada. En­fim, se nos criarmos lá, se estudarmos lá, então sim. No meu caso, a Argenti­na foi importante por causa de minha educação secundária. Fui aluno do Colégio Nacional de Buenos Aires [li­ceu que depende da Universidade de Buenos Aires] e isso definiu-me. É uma parte de mim próprio que aceito. Mas o Canadá foi uma escolha. Por isso, continuo a declarar-me canadiano - apesar de haver lá agora um governo de direita imundo.



A leitura e a escrita vão desaparecer? Há quem pense que vamos regressar a uma espécie de tradição oral high-tech graças a computadores capazes de comunicar através da fala.

A tradição oral não tem nada de mau. O problema é quando a tradição não é oral, mas feita apenas de conversas que nunca chegam a ter lugar. Já eliminá­mos até os locais onde conversar. Ain­da há alguns cafés, mas todos têm te­levisão, música. E mesmo esses estão a desaparecer.

Nós também iremos provavelmente desaparecer. Mas se sobrevivermos como seres humanos - o que não é se­guro - fá-lo-emos com a linguagem escrita, com a linguagem falada e com a linguagem lida. Vamos sobreviver com os nossos livros. Se desaparecer­mos, os livros também desaparecerão. E no fundo, isso talvez seja uma coisa óptima para o planeta - para as árvo­res, para as formigas, para os ursos polares...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O DESTINO DAS ROUPAS






No cesto da roupa suja
de qualquer quarto do mundo
uma mãe saberia reconhecê-las.


Suportaram as investidas do tempo,
as agressões do lixo,
os estragos do primeiro amor
os rasgos da primeira contenda,
as nódoas da fruta,
os espinhos da rosa,
a rosa do amor,

o vómito amargo de sábado à noite,
o sangue do amigo no carro desfeito.



© 2006, Rui Lage

De: Revólver
Ed.Quasi, V. N. Famalicão, 2006
ISBN: 989-552-221-5

quinta-feira, 15 de julho de 2010

o cúmplice






Crucificam-me e eu devo ser a cruz e os cravos.
Passam-me o cálice e eu devo ser a cicuta.
Enganam-me e eu devo ser a mentira.
Incendeiam-me e eu devo ser o inferno.
Devo louvar e agradecer cada instante do tempo.
Meu alimento é todas as coisas.
O peso preciso do universo, a humilhação, o júbilo.
Devo justificar aquilo que me fere.
Não importa minha ventura ou desventura.
Sou o poeta.

Jorge Luiz Borges
trad. josely vianna baptista

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo






sábado, 29 de maio de 2010

II Soneto para Cesário







Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há emmedir
a distância entre asmãos e as estrelas,
comlágrimas de pedra nos sapatos
e umcansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos amorte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
comretratos e flores damadrugada
a boiarem na água das sarjetas.


Dinis Machado,




domingo, 2 de maio de 2010

é difícil dizer com palavras de filho






É difícil dizer com palavras de filho
aquilo a que intimamente bem pouco me pareço.

És a única no mundo que sabe o que esteve sempre
no meu coração, antes de qualquer outro amor.

Por isso tenho de dizer-te o que é horrível saber:
é na tua graça que nasce a minha angústia.

És insubstituível. Por isso está condenada
à solidão a vida que me deste.

E eu não quero estar só. Tenho uma fome infinita
de amor, do amor de corpos sem alma.

Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha servidão:

vivi a infância como escravo desse sentimento
supremo, irremediável, de um fervor imenso.

Era a única maneira de sentir a vida,
a única cor, a única forma: agora terminou.

Sobrevivemos: e é o caos
de uma vida que renasce fora da razão.

Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…


Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Eu sei, mas não devia



Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
E a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ónibus porque não pode perder tempo da viajem.
A comer sanduíche porque não dá p'ra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ónibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo o dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a gastar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

A salas fechadas de ar condicionado e de cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
A não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.


Em doses pequenas, tentando não perceber, vai-se afastando uma dor aqui,
Um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola, pensando no fim-de-semana.
E se no fim-de-semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo
e ainda fica saisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

quinta-feira, 18 de março de 2010

Tentativa de Solidão





Por meus lados adormecidos, sempre atrás de uma claridade
desci até olhar-me frente a frente.
Escrevo as tristezas com minha velha flauta de sombras
enquanto nos copos de vinho bebo meus diversos rostos.
Sem chorar despojando-me de tantos estigmas mortais
aguardo a alma que fugitiva vem do seu passado
em busca de uma fonte adormecida para descer para a noite.
Quero estar sozinho em meu grande espectro, meus olhares desertos,
meus cantos doem-me porque não findam em seu próprio delírio,
mal reluzo neles, mal vou escorrendo
como o orvalho desce dos olhos das sombras.
Quero ser meu próprio testemunho, a realidade de meu signo,
mas, - que povoado imenso galopa, respira, sofre?
O peito de raiz perturbado está com substâncias alheias.
Vacila esta veia que entra à minha frente vinda do crepúsculo,
tão vasta como o passado de fogo de uma estrela,
deixa-me seus sinais de luz mas seu esconjuro não consegue
que esta fronte asile também nós malignos.
Ah, a alma volte a fugir com os pés gelados do susto,
no meu interior com cilício estou para devolver ao dia.



Humberto Díaz Casanueva

Tradução de José Bento

terça-feira, 9 de março de 2010

poeta no supermercado



Poeta no Supermercado

1.

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
ergeur-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2.

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.



Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos (1968), em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006,

segunda-feira, 1 de março de 2010

aprende a voar



Aprende a voar,
a apanhar pedras da rua,
a subir e a descer degraus .
A luz é uma casa sem varandas com uma labareda de sol.
Com o uso das mãos considera que todos somos incapazes
de escrever

qualquer palavra imortal.



maria azenha




in " os poemas vêm em silêncio pelos dedos dos lírios


vozes de crianças






O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.




Joan Margarit, Casa de Misericórdia, ed. ovni, Lisboa,2009

Empilhando Lenha




O homem costuma recolher do bosque
os troncos caídos com a tempestade.
Empilha-os nas traseiras da casa.
De cada um recorda
o que o fez cair e onde o recolheu.
Nas noites frias, a contemplar as chamas,
vai queimando o que resta do que ama.




Joan Margarit

sábado, 30 de janeiro de 2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

DIA DE CHUVA EM CASA CHINESA





A chuva fria de inverno
deslizava sobre os telhados
de ceramica verde

O chão quente de madeira
enviava mensagem de viver,
não se sabe porque
nem para onde

Jade Vermelho pegava um vaso
revestido de palha trançada
e o levava para a mesa
de laca preta

os potes de ceramica de
beber chá
ela os arrumava na bandeja
de porcelana e bronze

o mais, era ouvir a chuva cair
com seu barulho ininterrupto
de cascata aprisionada,
e um eco em vida aberta
nos jardins dos homens



clarisse de Oliveira

CLARISSE DE OLIVEIRA

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

a Harmonia



L'harmonie fut ma mère dans la chanson des arbres et c'est parmi les fleurs que j'ai appris à aimer.
***
A harmonia foi a minha mãe na canção das árvores e foi entre as flores que aprendi a amar.



Friedrich Hölderlin