sábado, 30 de outubro de 2010

LAMENTO PELA MINHA CABANA DESTRUÍDA PELO VENTO DE OUTONO – Tu Fu




No oitavo mês, em pleno outono, o vento ruge, colérico,
E leva num turbilhão as três camadas de palha da minha cabana.
O colmo voa, atravessa o rio, espalha-se pela ribanceira.
O que voa alto fica suspenso nos ramos da grande floresta,
o que voa baixo cai vai girando cair nas ravinas.
As crianças da aldeia do sul riem-se da fraqueza da minha velhice:
têm a audácia de me roubar às claras:
abertamente arrancam o colmo e fogem por entre os bambus.
Grito até ficar com a boca seca: não adianta nada.
Volto para casa, suspiro, apoiado ao meu bastão.
O vento cessa bruscamente, mas as nuvens continuam negras,
o céu de outono é silencioso e escurece com o vir da tarde.
Os lençóis e cobertas são velhos, frios como ferro,
as crianças, sensíveis, com repugnância, rasgaram-nos a pontapés.
Todos os leitos do aposento são úmidos: não há um lugar seco,
sinto cãibras nas pernas, não as poso entender.
Aflijo-me, lamento-me, durmo um pouco,
a noite é longa e úmida, como a poderei passar?
Quem pudesse construir um vasto edifício com milhares de peças,
imenso, que protegesse todos os que têm frio no mundo,
deixado-os de rosto feliz!
O vento e a chuva não o poderiam destruir: seria sólido como uma rocha.
Ai de mim, quando chegará o momento de ver de repente essa casa aparecer
diante dos meus olhos?
Minha cabana desmoronou-se. Aqui vou morrer do frio que entra. E tudo estará bem.

Tradução de Cecília Meireles

2 comentários:

Virgínia de Oliveira Castro disse...

Este é um dos poemas mais lindos que já li, apesar de triste.
Ele nos faz refletir o que realmente deva interessar à essência humana.
Lindo!

Establo Pegaso disse...

Maravilloso Du Fu, es uno de mis poetas favoritos