quarta-feira, 29 de abril de 2009

vale a pena ler


Um poeta provinciano


Os Prémios recebidos revolucionaram a vida pacata deste autor que se define como um "poeta provinciano ". Participante na Guerra Civil Espanhola, António Gamoneda garante que agora procura buscar momentos de tranquilidade no meio de todas as suas viagens e actos honoríficos. "Agora, acontece que me encapsulo para trabalhar até nos comboios", comenta. Uma destas viagens acaba por o trazer a São Roque (Andaluzia), antes de seguir para a Grécia, Itália e para alguns países Árabes. Gamoneda pesa bem as suas palavras antes de falar, controla o seu vocabulário com um ritmo lento. Todavia, a sua lucidez contraria o rosto enrrugado. Rugas provocadas por décadas de literatura e das lembranças de infância, cujo registo – sob forma de memórias – verão a luz do dia nas semanas que se seguem. « Elas estão teoricamente acabadas, mas eu conheço-me bem e sei que a qualquer momento posso não as corrigir, mas voltar a reescreve-las novamente. O texto espera pela chegada de um relatório jurídico favorável, porque nestas memórias, onde as verdades não se escondem – mesmo aquelas que jogam contra mim -, falam também de factos impotáveis a terceiros», confessa. Que pensa este poeta já com alguma idade dos fenómenos como a internet ou a globalização? «Nunca vi uma única página da Internet. Não sei o que é. Creio que no campo, um poeta pode encontrar a medida justa da solidão que precisa. Sem que para isso se desprenda ou se oponha aos sentimentos de amizade e de solidariedade intrínsecos às relações humanas, em geral. » No entanto, a solidão é predominante na sua vida. « penso que um poeta tem necessidade de solidão, de silêncio, de folhas em branco. »



Testemunho da Guerra Civil Espanhola


Dos tempos difíceis da Guerra, este homem de letras lembra que via passar, debaixo da sua janela, todos os dias, longas filas de prisioneiros. «mas nunca os via regressar”. António Gamoneda recorda, ao mesmo tempo, o choro inconsolado das mulheres, quando, a meio da noite, lhes desviavam os maridos. Estas experiências, aliadas a condições de vida modestas, levaram António Gamoneda, a forjar uma visão particular de existência, que o conduziu, nos anos 50 do século passado, à geração da poesia social espanhola, para depois de separar dela e desligar-se de todos os movimentos ou etiquetas do universo da escrita. « A poesia é uma arma carregada de futuro, ecrevia o mítico poeta espanhol Gabriel Celaya. O pobreGabriel Celaya, excelente pessoa, aliás, não se dava conta, que ele dizia praticamente a mesma coisa que José Antonio Primo de Rivera, o principal pensador do fascismo espanhol e que afirmava que só os poetas eram capazes de mudar os povos’. As duas coisas são falsas. Gostava que fosse assim, mas a realidade é outra. A poesia não é capaz de inspirar as mudanças sociais ou históricas. Não é um instrumento. A poesia lima e intensifica as consciências. Ela cria uma qualidade de pensamento ligada à observação e à critica, com o desejo que isso seja simultaneamente bonito e justo. »


A vida dos cheiros


No seu mundo privado, nas suas memórias intituladas Un armario lleno de sombras (Um armário cheio de sombras ) surge sempre uma imagem , um cheiro, que torna a vida um ser já morto. Um perfume sai deste armário e António não hesita em recorda-lo: «A minha mãe morreu e este armário ficou fechado durante dois ou três anos. Certo dia em estava em casa e decidi abri-lo. O que estava lá dentro era uma grande escuridão. O próprio quarto estava emergido na escuridão, não recebi um único foco de luz, estava cheio de sombras. Mas o que eu recebi desse armário, foi uma sensação, uma das experiências mais marcantes da minha vida. Mal enfiei a cabeça lá dentro, pude recuperar imediatamente o cheiro da minha mãe quando ela estava viva. O cheiro dela tinha ficado lá, impregnado. A minha mãe tinha morrido há três anos e eu pude sentir o seu cheiro Foi muito comovente. De uma forma ou de outra, a redescoberta do conteúdo desse armário, permitiu-me recuperar as minhas próprias memórias. »


in " Balão de poesia"

1 comentário:

vaandando disse...

Miguel Hernández não foi poupado , morre depois de sair da masmorrra , morre tuberculoso , mas também ele nos deixa poesia intensa e comovente do mesmo período, fiquei assim a ler Gamoneda com o fundo das nanas de cebolla de Miguel Hernández e llegó con tres heridas de Joan Baez ...
_ abraço
__________ JRMARTO