quarta-feira, 29 de abril de 2009

Caí sobre uma mãos



Caí sobre uma mãos
quando não sabia
ainda que vivia nas mãos
Elas passaram sobre o meu rosto e o meu coração.

Senti que a noite era doce
como um leite silencioso. E grande.
Muito mais que a minha vida.

Mãe :
Eras as tuas mãos e a noite juntas.
Aqui está o porquê da solidão gostar de mim.

Eu não me lembro, mas está comigo.
Existe, no esquecimento
Encontram-se as mãos e a noite.

Ás vezes,
Quando a minha cabeça se debruça sobre a terra
Não posso mais e está vazio
o mundo. Algumas vezes, sobe o esquecimento
até ao coração.

Eu ajoelho-me
Para poder respirar sobre as tuas mãos.

Eu desço
e tu escondes o meu rosto; e eu sou tão pequenino;
e as tuas mãos tão grandes; e a noite
vem mais uma vez, vem mais outra.

Eu descanso
de ser um homem, eu descanso de ser um homem.


António Gamoneda


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