sexta-feira, 17 de julho de 2009

um poema






O que não significa vai significar um dia destes. Mas significará uma coisa bastante diferente. Pensam que uma escada leva sempre a uma espécie de casa ou terraço, e são magnânimos admitindo alguma variação de formas e propósitos dentro dos termos das casas e terraços que há. Pois estão à vossa espera, senhores, casas e terraços de estranhos sistemas arquitectónicos. Há mesmo a suspeita de tratar-se de uma escada esquisita, uma escada apenas para subir.
Mas dantes havia moral, dizem eles. Havia a moral para subir e ir ao terraço. Depois via-se a paisagem.
E era bonito?
Sim, havia metafísica, política e filosofia para ver.
E para que servia ver isso?
Ora, a gente ficava contente, porque entravam e saíam ideias pela cabeça.
Uma espécie de piquenique mental, não?
A metafísica, a política, a filosofia são matérias nobres.
Sim, senhores, obrigado.
Pois, e se a gente queria a casa, subia a escada e entrava na casa.
Também nas paredes, a filosofia, e etc?
Sim, exactamente.
Olhem: não, obrigado. Vou dizer-lhes: vai ser escada para subir e depois a gente ficará lá em cima experimentando o transe do silêncio. Os senhores não percebem nada de destruições. Temos de aturar todo o aborrecimento de uma velha modernidade: Fernandos Pessoas, surrealismos, a política com metonímias, a filosofia rítmica, as religiosidades heréticas, as pequenas tradições de certas liberdades. Acabou-se.
(O verbo impregnava a terra, a energia impregnava a terra).
Tudo isto é para a grande máquina circulatória, o aparelho digestivo, o sistema respiratório. Coisas do corpo que precisa de transe, êxtase. Essa é a significação. Estamos a trabalhar com instrumentos que abalam tudo. Há uma energia geral comutada à passagem pelo corpo. É uma comutação cultural. E afastem daqui o surrealismo. Afastem a metafísica, a política, as ideiazinhas de merda. Um transe. A palavra é uma provocação destinada a uma espécie de intransigência física. E que é o corpo senão ele mesmo?
Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra.

Herberto Helder
in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim

1 comentário:

antonior disse...

Este é um espaço em que como na vida e em tudo, menos é mais, desde que se perceba. Adornos e imagens de suporte não fazem falta desde que as palavras as dispensem. Como acontece. Aqui.
Exige é que se pare e....leia...LEIA. O que dá trabalho!
O comportamento típico, neste mundo de blogs, é correr o espaço em busca de coisas pouco exigentes, que se apreendam com um olhar rápido e uma leitura "diagonal". Sente-se que o tempo não abunda, e é necessário comentar muito, sem correr riscos, para tentar assegurar o máximo possível de retorno, em forma de visitantes-comentadores, que é a maior ambição de grande parte de quem por cá anda.

Ora, este espaço está repleto de pérolas, que escorrem pelos dedos dos desatentos, sem que se apercebam...

Já conhecia o conteúdo deste post, que aprecio particularmente. Socrático, no que tem de intemporal. De alguma forma fala de um tema que evoco amiúde, o vazio do discurso na sociedade contemporânea. No entanto há um paradoxo, quase uma perversidade que vive no facto de precisarmos de palavras para dizermos que as palavras estão vazias. É como tentarmos lidar com o pensamento de U.G. Krishnamurti. A sua filosofia é a ausência da mesma. É necessário que se perceba que não há nada para perceber.

Gostei de passar por aqui.

Voltarei. Breve.