segunda-feira, 6 de outubro de 2008

a Palavra


... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que
sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas,
persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As
inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de
repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam
como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas
palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ...
Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as,
preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas,
vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ...
E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as,
liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de
madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ...
Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de
lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não
a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas,
pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de
tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e
recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ...
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ...
Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas
encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro,
ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no
mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às
que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava
arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das
ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui
resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o
ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo...
Deixaram-nos as palavras.


Pablo Neruda

1 comentário:

Léo Mandoki, Jr. disse...

Adorei o teu blog...os teus textos. Acho que é o blog mais sofisticado que eu já vi até hj. Bonito msm. Neruda é sempre Neruda.
Beijos