terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poesia e a dimensão erótica da vida


Platão, o filósofo grego, explica que o nome anthropos (homem) significa “aquele que contempla o que vê”. Contemplar é extrair daquilo que é visto algo que está além do objeto: encontrar um sentido. O fascínio do poema, sua sedução, reside, justamente, na possibilidade de criar e/ou encontrar esse sentido.

Se, de um lado, temos o homem faminto por sentido e, do outro, há o poema que se abre ao desejo desse homem, fica patente o poder erótico da poesia. E, aqui, não cabe falar em poemas eróticos, pois não há poesia que não seja erótica.

O ritual erótico que resulta no poema começa com a paixão do poeta pela palavra, pelo desejo que permeia sua relação com a linguagem. Só o poema pode revelar toda a sensualidade de um idioma. Só a Poesia possui as palavras com tamanha ânsia, a ponto de arrancá-las ao controle da sintaxe, desnudá-las da roupagem da gramática e conduzi-las, num crescendo, ao gozo inevitável: o poema.

Toda poesia que mereça esta designação é erótica, no sentido de que nasce da pulsão por expressar o inominável, que, por sua intensidade, é efêmero como os sentidos pressentidos no poema, como a própria paixão.

A poesia é sempre erótica, pois o poema – entidade resultante da orgia entre o poeta e a palavra – é como o corpo que surge no momento da cópula, um outro corpo que não pertence a nenhum dos amantes, existe apenas no breve intervalo do êxtase.

Não se trata de o poema ter ‘conteúdo erótico’, mas de que sua fala se articula a partir de uma dimensão erótica presente no poeta e, mais tarde, no leitor.

Discute-se muito a carência de público leitor para a poesia. Tenho cá minhas teorias sobre isso: embora vivamos numa sociedade extremamente erotizada, tememos assumir nossa dimensão erótica, que não se sujeita à sintaxe desumanizante de quaisquer moralismos. Por isso, a grande maioria das pessoas não é capturada pela sedução do poema, por sua carne latejante e plena de sentidos que estão além da superfície porosa das palavras.

Encerro essa divagação com um poema de minha autoria, que diz mais do que toda essa prosa: “Psicopoema”: encerrado no hospício/ das palavras/ o poeta/ remexe as entranhas/ do seu mais íntimo/ dicionário/ busca o verso/ no caldo químico/ dos próprios hormônios/ e reencontra a si mesmo/ na plenitude orgásmica/ do poema.

Sandra Baldessin
Consultora em Comunicação Escrita

in portal literário coordenado por Heloisa Buarque de Holanda

2 comentários:

Mïr disse...

O poeta explora o sagrado... Do sagrado temos o adjectivo “celestial” e o substantivo “êxtase, além do verbo que “relampeia”, que sugere o brilho do sagrado…


E haveria ainda muito a dizer...

antónio quadros ferro disse...

muito interessante.