quinta-feira, 10 de julho de 2008

excerto II


Se vim para acompanhar a voz,
Irei procurá-la em qualquer lugar que fale,
montanha,
campo raso,
praça da cidade,
prega do céu __ conhecer o Drama-poesia desta arte. Sentir como bate, num latido na minha mão fechada. Como, ao entardecer, solta, tantas vezes, um grito súbito: _ Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste? _ Como me pede que não oiça, nem veja, mas deixe absorver , me deixe evoluir para pobre e me torne , a seu lado, uma espécie de poema sem-eu.

Em silêncio e cega,
deixo que me dispa da claridade penetrante,
da claridade nova,
da claridade sem falha,
da claridade densa
da claridade pensada,
me torne um fragmento completo e sem resto
para que passem a clorofila e a sombra da árvore. Assim, realizando eu própria o texto

e acompanhando-o,
constatei que a noite em breve se iria pôr,
deixando-me sem dia claro às portas da cidade. Não havia percurso, apenas um decurso e vários sonhos deitados em torno de uma mesa, sem que se visse quem dormia e estava a ser sonhado.
Eram animais que sonhavam, sonhos a preto e branco, mas mesmo assim, sonhos. Perguntaram-me se também eu os queria ter.
Como? Se a voz me transformara num poema sem eu?


Maria Gabriela Llansol
in " Onde Vais Drama-Poesia?"
edição Relógio D'Água




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