sexta-feira, 8 de agosto de 2008

astronomia


Pastor, que entre nuvens pastoreias,
seguindo na terra os teus rebanhos
de estevas e pinheiros;


imagem, que atrais o hálito dos seres
vivos, renascidos ou inertes;



bebida, que o mar bebe, e incha
a maré, levanta a onda, solta
a maresia desde o eterno início;


manto, que me aquece o corpo nu
ou o mostra num halo de esplendor;


vento, igual ao vento, mas que sopra
matéria, amor, magnetos;



cabelos de ouro, espargidos na terra,
em parras de outono avermelhadas
ou em clareiras abertas para a luz;


coluna de puro brilho, que sustém
os dias entre manhãs e noites;


rosto, que tem o riso e o olhar ubíquos
até ao fundo das raízes e até aos cumes;


corola, que repete a órbita dos astros,
vendo as outras corolas humílimas ante si;



lâmpada, de silêncio inatingível,
entre os sons mais próximos das criaturas
que, em silêncio também, com ela cantam;


mão decepada que afaga o mundo
como se os dedos caídos fossem raios;


espelho, que ao ser olhado é opaco,
como uma fonte que jorra, sem imagens,
para dentro a turva água do seu bojo;


ave, sem beiral onde poisar ardendo
a figura da antiga fénix imolada;


Sol é teu nome, o teu ser e a tua face.
Ó Sol, eu só, poeta deste século, sei
que no futuro irás tornar-te nada.


Meu Sol, levarás em ti todos os versos
dos poetas, em livros, em lápides.





Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)


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