sábado, 9 de agosto de 2008

discurso de fulano de tal sobre seu bairro




O prédio em que moro tem cinco andares.
Todas as suas janelas bocejam, replicantes, para as janelas do prédio em frente
como os rostos dos que se olham no espelho.

Setenta linhas de ônibus circulam em minha cidade,
autorizados, cheirando a suor.
Viajam
viajam
viajam ao coração da cidade,
como se não fosse possível morrer de tédio
aqui mesmo no bairro.

Meu bairro é muito pequeno
mas possui todos os tipos de nascimentos e mortes
e tudo o que há entre vida e morte,
tudo o que possui qualquer metrópole gigante.

Há até crianças que passeiam maravilhosamente de disco voador
e três salas de cinema.
Se não fosse suficiente o tédio de casa
iria a uma delas.

O prédio em que moro tem cinco andares.
Para a garota que saltou do prédio em frente
bastaram três.

Abraham Shlonski (Ucrânia, 1900-1973)


(poema enviado por Adelaide Amorim )

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