terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Por Favor, me Chame pelos Meus Verdadeiros Nomes





Não diga que partirei amanhã
pois eu chego todos os dias.

Olhe profundamente; eu chego em cada segundo
para ser um botão num galho da primavera,
para ser um pequeno passarinho, com asas ainda frágeis
aprendendo a cantar em meu novo ninho,
para ser uma lagarta no coração da flor,
para ser uma jóia escondendo-se numa pedra.

Eu ainda chego, para rir e para chorar,
para ter medo e ter esperança,
o ritmo do meu coração é o nascimento e a morte
de tudo o que está vivo.

Eu sou a efemérida metamorfoseando
na superfície do rio,
eu sou o pássaro que, quando chega a primavera,
aparece a tempo de comer a efeméride.

Eu sou o sapo nadando feliz da vida
na água clara do lago,
e sou a cobra, que, aproximando-se
em silêncio, alimenta-se do sapo.

Eu sou a criança em Uganda, de pele e osso,
de pernas finas como bambu,
eu sou o mercador de armas,
vendendo armas mortíferas para Uganda.

Eu sou a garota de doze anos de idade,
refugiada dentro de um pequeno bote,
que atira-se no oceano
depois de ser estrupada por um pirata do mar,
eu sou o pirata,
meu coração ainda não é capaz de ver e de amar.

Eu sou um membro do Politburo
com plenos poderes nas mãos,
e sou o homem
que tem que pagar o débito de sangue
ao meu povo que morre lentamente num campo de trabalho forçado.

Minha alegria é como a primavera, tão quente que faz
as flores desabrocharem-se em todos os passeios da vida.
Minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio
que enche os quatro oceanos.
Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa ouvir todos os meus gritos e risos ao mesmo tempo,
Do modo que eu possa ver que minha dor e minha alegria são uma só.

Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa acordar e assim a porta de meu coração
possa ser deixada aberta,
a porta da compaixão.


Thich Nhat Hahn
(professor budista e vietnamita)


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