terça-feira, 24 de maio de 2011

Poeta




Está a trabalhar agora, numa sala
que não é diferente desta,
onde escrevo, ou aquela em que lês.
A mesa está coberta com papéis.
A luz do candeeiro seria
suavizada por um abajur, onde
a sua crueza única se pudesse diluir,
mas não é; ela tirou-o.
Os seus poemas? Nunca os perceberei bem,
embora sejam aqueles de que mais preciso.
Nem o próprio alfabeto que ela usa
eu consigo decifrar. A sua cadeira -
imaginemos se é de pele
ou lona, de vinil ou verga. Deixemos
que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur,
a mesa. Que um ou dois daqueles que ama
estejam no quarto ao lado. Porta fechada
e de boa saúde os que dormem.
Dêmos-lhe tempo, e silêncio,
papel que chegue para cometer erros e continuar.



Jane Hirshfield
tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho


 http://www.triplov.org/novaserie.revista/numero_15/jane_hirshfield/index.html

1 comentário:

Mar Arável disse...

Na verdade

os rios insistem

correr para o mar