terça-feira, 18 de agosto de 2009

o que os meus olhos vêem



o que os meus olhos vêem, o que os teus olhos vêem,
será talvez o litigo da solidão profunda,
o ar, em suma,
num silêncio irredutível, livre, lírico , tão longínquo,
num lugar antes do tempo.



maria gomes


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Poeta em Lisboa




Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magntfico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.



António José Forte

terça-feira, 11 de agosto de 2009

de William Carlos Williams






"A man like a city and a woman like a flower – who are in
love. Two women. Three women. Innumerable women,
each like a flower. But only one man – like a city.”


William Carlos Williams, The Broken Span, 1941