sábado, 29 de maio de 2010

II Soneto para Cesário







Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há emmedir
a distância entre asmãos e as estrelas,
comlágrimas de pedra nos sapatos
e umcansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos amorte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
comretratos e flores damadrugada
a boiarem na água das sarjetas.


Dinis Machado,




domingo, 2 de maio de 2010

é difícil dizer com palavras de filho






É difícil dizer com palavras de filho
aquilo a que intimamente bem pouco me pareço.

És a única no mundo que sabe o que esteve sempre
no meu coração, antes de qualquer outro amor.

Por isso tenho de dizer-te o que é horrível saber:
é na tua graça que nasce a minha angústia.

És insubstituível. Por isso está condenada
à solidão a vida que me deste.

E eu não quero estar só. Tenho uma fome infinita
de amor, do amor de corpos sem alma.

Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha servidão:

vivi a infância como escravo desse sentimento
supremo, irremediável, de um fervor imenso.

Era a única maneira de sentir a vida,
a única cor, a única forma: agora terminou.

Sobrevivemos: e é o caos
de uma vida que renasce fora da razão.

Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…


Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo