quinta-feira, 21 de maio de 2009

Faz-me o favor



Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor... muito melhor! ...
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

segunda-feira, 18 de maio de 2009

No sorriso louco das mães





No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.


Herberto Helder




quarta-feira, 13 de maio de 2009

Biografia




Não pegues na colher com a mão esquerda.
Não ponhas os cotovelos na mesa.
Dobra bem o guardanapo.
Isso, para começar.

Extraia a raíz quadrada de três mil trezentos e treze.
Onde fica o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes?
Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega.
Isso, para continuar.

Parece-lhe decente que um engenheiro faça verso?
A cultura é um enfeite e o negócio é o negócio.
Se continuas com essa moça fechamos-te a porta.
Isso, para viver.

Não sejas tão louco. Sê educado. Sê correcto.

Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires.
Aí, sim, não respirar! Dar o não a todos os nãos.
E descansar: morrer.



Gabriel Celaya, 1911-1991

o limoeiro


Tínhamos atrás das grades
Um limoeiro
As frutas amareladas brilhavam como lâmpadas
As flores eram um leque cheiroso no nosso bairro

Tínhamos, atrás das grades
Um limeiro. Nosso
Mas, para fazer enfeites com seus galhos
E perfume das suas flores
O cortaram
Ficamos
Sem o nosso limoeiro
Nossos olhos
Nunca mais viram a primavera.



Mahmud Darwish


Biografia de Mahmud Darwish


Mahmud Darwish, palestino nascido no ano de 1942.
Como muitos dos poetas da resistência palestina, teve desde o princípio uma clara militância política e foi preso em Israel.
Abandonou esse país no começo dos anos 70, viveu em alguns países socialistas europeus, no Egipto, e depois vários anos em Beirute, onde se transformou em um dos membros mais destacados do Centro de Pesquisas Palestinas, dirigindo a revista Shuún Filistiyya.
Sua obra lírica é muito ampla e dela destacamos (*): Hojas de oliva, 1964; Enamorado de Palestina, 1966, um de seus livros mais representativos e emocionantes; El fin de la noche... es día, 1968; Diario de una herida palestina, 1969; Tentativa número 7, 1974; Esa es su imagen, y ésta es el suicidio del enamorado, 1975. Embora grande poeta, Darwish é também dono de uma sugestiva prosa, semi-autobiográfica, extraordinariamente fluida, singela e reflexiva ao mesmo tempo, que aparece em livros como: Algo sobre la patria,1971; Diario de la tristeza corriente, 1973; Adiós, guerra, adiós, paz, 1974. Darwish é possivelmente o poeta mais dotado, representativo e prestigiado da resistência palestina. Sem dúvida trata-se de um criador que sabe unir o verbo erguido e militante com o mais profundo lirismo, e que realiza também um cálido manejo do simbólico.




segunda-feira, 11 de maio de 2009

MALEVICH


















Malevich descobriu
que o branco tinha cor
as várias cores do branco
desde o branco cabralino
das brancas casas caiadas
até o branco indolor
dos muros dos hospitais
o branco das sepulturas
brancas, das paredes duras
brancas, das casas e flores
brancas, que orlam o lodo
de esgotos de favelas
e o mais branco das velas
dos lenços e dos lençóis
mesmo a branca imagem branca
do esvoaçar de uma garça
na revelação do meu sol
sobre praias do Nordeste
ou a doçura brancura
do açúcar no café
as cortesias alturas
da lua tiradentina
onde o branco dessas tintas
se finge de mais alvura
como neves Himalaias
ou branco das gravuras
da minha amiga artista
Lyria Palombini
ou o branco daquelas saias
engomadas onde passam
virgens ao sol sorridente
em direção das suas salas
decerto paredes brancas
de suas almas de escola




Rogel Samuel




in " Novos Poemas" de Rogel Samuel

segunda-feira, 4 de maio de 2009

procura da poesia



Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



Carlos Drummond de Andrade

anjo daltónico





Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.


Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.


Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.


Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.



Jorge de Lima


sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Desfraldar


Uma noite, o oceano entrou em minha casa
Era
um velho respirando
como uma antiga locomotiva
Convidei-o a sentar-se
junto da janela
para que se recompusesse
e eu lesse em sua honra alguns poemas
Mas ele continuou de pé, ofegante
Ofereceu-me peixes
conchas
e partiu


De manhã examinei a minha casa. não havia telhado
nem porta nem janela
nem parede
tudo estava partido e molhado
Até eu, oh meu Deus
estava partido como um vaso
Já não tinha lábios para falar
braços para cingir o tronco de uma mulher
Do meu corpo só restava
uma flor saliente,
o meu coração no meio dos escombros


IUSUF ABDELAZIZ

Poeta Palestiniano


tradução de Albano Martins