terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O MEU PAÍS FICA AQUI



 Reza a Deus  quando está só  
 E a Maria na multidão

 O  meu país fica aqui
 È velho como uma  espada
 Pequeno como  altar  de troca   
  

O  meu  país  serve a demência
Com paciência  bovina
Fica  aqui  ao pé  do mar


Chora  com um trevo  na mão
 A  busca  da  sorte
 A  ciência  da escuridão


 O  meu pais fica aqui
 Onde  o vizinho  morto
 Dá  dois rostos  de  televisão  

José Ribeiro Marto
in http://vaandando.blogspot.com/

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Retornos




Voltou. Não disse nada.
Parecia muito perturbado.
Deitou sem tirar a roupa.
Escondeu se debaixo do cobertor,
as pernas dobradas.
Tem quarenta anos, mas não neste momento.
Está vivo - mas como no ventre materno
atrás de sete peles, na escuridão que o defende.
Amanhã dá palestra sobre homeostasis
na cosmonáutica metagalática.
Por enquanto se encolhe, adormece.
Os filhos da época

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida, que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.

WISLAWA SZYMBORSKA
Tradução: Ana Cristina Cesar

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Clarice Lispector






Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos



Adília Lopes

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A propósito de "A Sombra da Romã" - um Inédito em "CASAL DAS LETRAS"

Inédito

O TORMENTO DA NEVE


Numa cadeira de rodas que não rodava
Vi uma mulher coroada por uma montanha de neve.
Na relva do tapete uma criança de joelhos
Com um pássaro morto no centro da cabeça.
É ela que escreve esta página suja de terra
Com pancadas vivas de violência de sangue e uma gazela.
Não sei se Deus estava presente ou chorava
Mas as janelas sem estrelas e esta beleza sem nexo
Gritaram ouro cortado entre os dedos e o sexo
Cuspiram enxofre para dentro do poema.



Maria Azenha



cartas do amor urgente





entrego-te a folha escrita
mas és tu que a vais entregar
tu não sabes
mas levas a minha vida na tua mão

confio-te o melhor de mim
porque as minhas palavras
ganham-me sempre em concurso
com os meus atos tresloucados

leva à tua irmã as minhas letras
ainda não é dia dos namorados
mas eu já a namoro
com o normal romantismo
de um coração que envia mensagens

não acredito nas soluções avançadas
para sentimentos antigos
o meu coração pode vir a ter
um pace maker
mas não pode
digitalizar
porque ama mas não é lógico

então espero espero
que a carta vá e volte outra
perfumada amorosa
em papel seda

este processo da produção
da carta de amor
não me sai da mente
por isso chamo a este poema
cartas * do amor * urgente


c peres feio