segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Canção de Amor da Jovem Louca




Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Syvia Plath

translated by Maria Luíza Nogueira
(in A REDOMA DE CRISTAL, Ed. Artenova, Brazil, 1971, p. 255)

domingo, 26 de outubro de 2008

poema de gonçalo de sousa


a mágoa atravessa os dias como a chuva miúda.
por ela me construo um labirinto invisível.
prova-se que não é a realidade que nos atormenta.


gonçalo de sousa
2003-04-28

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

poema XXIX




antes do tempo da pergunta voltada para trás
antes das estrelas iminentes
antes das vozes caladas na chuva
antes da rosa

dias há para perceber as alturas antiquíssimas
que viajam em vertigem


maria costa

in " ao fundo do jardim"

nocturno e elegia




Se perguntar por mim, traça no solo
uma cruz de silêncio e fria cinza
sobre o poluto nome que eu padeço.

Se perguntar por mim, diz que sou morto
e apodrecendo estou sob as formigas.
Que sou o ramo de uma laranjeira,
o simples cata-vento de uma torre.
Não lhe digas jamais que choro ainda
afagando o vazio de sua ausência,
onde ficou a sua cega estátua impressa,
sempre aguardando que regresse o corpo.
Um loureiro que canta e sofre – é a carne,
e eu em vão esperei à sua sombra.
Já é tarde. Sou um mudo peixezinho.

Se perguntar por mim, dá-lhe estes olhos,
estas grises palavras, estes dedos;
dá-lhe no lenço a gota do meu sangue.
Diz-lhe que me perdi, que estou mudado
em obscura perdiz, em falsa jóia
a uma orilha de juncos olvidados:
diz-lhe que eu ando do açafrão ao lírio.


Diz-lhe que eu quis eternizar seus lábios,
habitar o palácio de sua fronte.
Navegar uma noite em seus cabelos.
Que aprender quis a cor de suas pupilas
e apagar-me em seu peito, suavemente,
nocturnamente imerso, aletargado
em um rumor de veias e surdina.


Não posso agora ver, ainda que implore,
O corpo que vesti de meu carinho.
Em róseo caracol transfigurado,
Quedei-me fixo, roto, desprendido.
E, se de mim descredes, crede ao vento,
mirai o norte, interrogai os astros.
E vos dirão se espero ou se anoiteço.


Ah! se pergunta, diz-lhe o que sabes.
Hão de falar de mim as oliveiras,
um dia, quando eu seja o olho da Lua,
sobre a fronte da noite colocado,
adivinhando conchas das areias,
o rouxinol suspenso de uma estrela,
e das marés o amor adormecente.


Estou triste, é verdade, porém tenho
um sorriso semeado no tomilho,
em Saturno escondi outro sorriso,
e perdi um terceiro não sei onde.
Melhor será que espere a meia-noite,
O cheiro dos jasmins, extraviado,
mais a vigília do telhado, fria.


Não me recordes seu entregue sangue,
e nem que eu pus espinhos e gusanos
a morder-lhe a amizade – brisa nuvem.
Não sou o papão que lhe cuspiu na água
nem o que um lasso amor paga em moedas.
Não sou o freqüentador daquela casa
presidida por uma sanguessuga!


( Ali vai ele com um buquê de lírios
para que o aperte um anjo de asas turvas.)
não sou aquele que atraiçoa as pombas,
os pequeninos, as constelações...

Sou uma verde voz desamparada,
solícita a buscar sua inocência
com um breve silvo de pastor ferido.


Sou uma árvore, a ponta de uma agulha,
um alto gesto eqüestre em equilíbrio;
sou a andorinha em cruz, o oleoso vôo
de uma coruja, o susto de um esquilo.

Sou tudo, menos isso que debuxa
com lodo o dedo índice em paredes
de lupanares e de cemitérios.


Tudo, menos aquilo que se oculta
sob uma seca máscara de esparto.

Tudo, menos a carne que procura
anéis voluptuosos de serpente
cingindo em espiral viscosa e lenta.

Sou o que me destines, o que inventes
para enterrar meu pranto na neblina.


Se perguntar por mim, diz-lhe que habito
na folha dos acantos e na acácia.
Oh, diz-lhe, se preferes, que sou morto.
Dá-lhe o suspiro meu, dá-lhe o meu lenço:
meu fantasma na nave dos espelhos.
Talvez me chore no loureiro, ou busque
meu recordo na forma de uma estrela.

Emilio Ballagas ( Cuba – 1910-1954 )

o presente


El present

I

No hi ha veritat. Sols present.
Pols feta aire. Muntanyes immòbils.
Però la realitat no és visible
amb els ulls de la mare.
El present com a crestall cúbic
lluu sols per una de les seves escates.
La realitat és sols un concepte. Una ficció.
Figuració de la sang. Cal•ligrama de l'ànima.



Àngel Terrón(De Ternari, 1986)

dez mandamentos para escrever com estilo


Diez mandamientos para escribir con estilo


.Lo que importa más es la vida: el estilo debe vivir.
.El estilo debe ser apropiado a tu persona, en función de una persona determinada a la que quieres comunicar tu pensamiento.
.Antes de tomar la pluma, hay que saber exactamente cómo se expresaría de viva voz lo que se tiene que decir. Escribir debe ser sólo una imitación.
.El escritor está lejos de poseer todos los medios del orador. Debe, pues, inspirarse en una forma de discurso muy expresiva. Su reflejo escrito parecerá de todos modos mucho más apagado que su modelo.
.La riqueza de la vida se traduce por la riqueza de los gestos. Hay que aprender a considerar todo como un gesto: la longitud y la cesura de las frases, la puntuación, las respiraciones; También la elección de las palabras, y la sucesión de los argumentos.
.Cuidado con el período. Sólo tienen derecho a él aquellos que tienen la respiración muy larga hablando. Para la mayor parte, el período es tan sólo una afectación.
.El estilo debe mostrar que uno cree en sus pensamientos, no sólo que los piensa, sino que los siente.
.Cuanto más abstracta es la verdad que se quiere enseñar, más importante es hacer converger hacia ella todos los sentidos del lector.
.El tacto del buen prosista en la elección de sus medios consiste en aproximarse a la poesía hasta rozarla, pero sin franquear jamás el límite que la separa.
.No es sensato ni hábil privar al lector de sus refutaciones más fáciles; es muy sensato y muy hábil, por el contrario, dejarle el cuidado de formular él mismo la última palabra de nuestra sabiduría.


Friedrich Nietzsche




ler + em "ciudad seva"

a ovelha negra



La Oveja negra

En un lejano país existió hace muchos años una Oveja negra.
Fue fusilada.
Un siglo después, el rebaño arrepentido le levantó una estatua ecuestre que quedó muy bien en el parque.
Así, en los sucesivo, cada vez que aparecían ovejas negras eran rápidamente pasadas por las armas para que las futuras generaciones de ovejas comunes y corrientes pudieran ejercitarse también en la escultura.

Augusto Monterroso. La oveja negra y demás fábulas


terça-feira, 21 de outubro de 2008

o mar chama...



Tacteio
o insondável
abismo
da ternura
no glacial

cume
dos ombros


A sua sinuosa
orografia
lembra

a textura
das algas
flutuando
à deriva
num mar

em chamas





in " A arquitectura das palavras" de Vítor Solteiro

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Calabouço



Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave, não a tenho mais.

Todos esses monstros, com seus corpos flamejantes, presos em jaulas de cobre, rogando às forças do abismo que os libertem.

Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave, a perdi naquela tarde.

Um dia, as luzes da fonte eram negras. Com uma rocha, vedaram a entrada da caverna. As cabeças em estacas marcavam o caminho.

Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave esqueceu-se na fenda da cratera.

Ontem não há mais e o que resta é essa noite interminável e a faca do vento gelado nas costas e os açoites dos gritos de dor

Quem dera pudesse dissipar a sombra
A chave, a levou o príncipe das trevas.

Hoje os astros sem céu possível, nada que emane das paredes que se fecham sobre os corpos onde as almas se escondem.


Adriana Versiani
Ouro Preto – MG, Brasil- 1963



domingo, 19 de outubro de 2008

existe uma escritura poética?


O GRAU ZERO DA ESCRITURA*
Seguido de Novos ensaios críticos
Por Roland Barthes / Tradução: João Batista do Lago.

EXISTE UMA ESCRITURA POÉTICA?

Na época clássica, a prosa e a poesia são magnitudes, sua diferença é mensurável; não se encontram nem mais nem menos distantes que dois signos distintos, são contíguos, ou seja, encontram-se ao longo do tempo ocupando lugar de proximidade, de vizinhança de adjacência. Contudo, apesar dessa contigüidade, a prosa e a poesia apresentam diferenças de quantidade. Infere-se que a Prosa é um discurso mínimo, veículo mais econômico do pensamento, e se, ao mesmo tempo infiro que a, b, c são atributos particulares da linguagem, inúteis, porém decorativos como o metro, a rima, assim como o ritual das
imagens, toda a superfície das palavras concretizará numa dupla equação de Monsieur Jourdain:
Poesia = prosa + a + b + c
Prosa = poesia – a – b – c
Conclui-se, a partir de então, que a Poesia é [e será] sempre diferente da Prosa.
Entretanto, é preciso notar que a diferença não é de essência, mas de quantidade. Isto não atenta contra a unidade da linguagem, que é um dogma clássico. Há uma quantificação diferenciada dos modos ou formas de falar segundo as especificidades: aqui prosa e eloqüência, ali poesia e preciosismo, todo um ritual mundano das expressões, porém sempre uma linguagem única refletindo as eternas categorias do espírito. A poesia clássica era sentida como uma variação ornamental da prosa, o fruto de uma arte (quer dizer: de
uma técnica), nunca como uma linguagem diferente ou como o produto de uma
sensibilidade particular. Toda poesia não é, então, mais que equação decorativa, alusiva ou saturada de uma prosa virtual que se gera em essência e em potência em qualquer modo de expressar-se. “Poética”, na época clássica, não designa nenhuma extencialidade, nenhuma densidade particular do sentimento, nenhuma coerência, nenhum universo separado, mas somente a inflexão de uma técnica verbal, isto é, a de expressar-se segundo regras mais belas, portanto esteticamente mais elaboradas que a conversação natural, quer dizer, a
projeção exteriorizada de um pensamento interno que surge organizado de dentro do Espírito, uma palavra socializada pela evidência mesma de sua convenção.
Sabemos que pouco ou quase nada – ou nada mesmo! – sobreviveu dessa estrutura
na poesia moderna, p. e., não na poesia de Baudelaire, mas na poesia de Rimbaud, a não ser que se queira retomar, segundo um modo tradicional modificado, os imperativos formais da poesia clássica: quando os poetas instituem um espírito para a palavra como se fora uma Natureza rígida, que reúne a um só tempo a função e a estrutura da linguagem. A Poesia não mais é uma Prosa ornamentada ou amputada de suas liberdades. É uma qualidade irredutível e sem heranças. Não mais é um atribuo. É substância e, por
conseguinte, pode muito bem renunciar aos signos, pois carrega consigo sua natureza, não necessitando “gritar” além de sua identidade: as linguagens poéticas e prosaicas estão suficientemente separadas para poderem prescindir dos signos de suas alteridades, ou seja, de se representarem como fato de ser um outro ou qualidade de uma coisa ser outra.
Assim sendo, as pretendidas relações entre o pensamento e a linguagem se invertem; na arte clássica, um pensamento já formado engendra uma palavra que o “expressa” e o “traduz”. O pensamento clássico não contém duração [tempo], a poesia clássica somente possui a duração necessária para a sua disposição técnica. Contrariamente, na poética moderna, as palavras processam um encadeamento formal, donde emana pouco a pouco uma densidade intelectual ou sentimental impossível de existir sem elas [as palavras]; assim é a palavra o tempo [duração] “grávida” de uma gestação mais espiritual, durante a
qual o “pensamento” é preparado, instalado pouco a pouco na fortuidade ou, melhor dizendo, na causalidade das palavras – sem rumo, nem ordem....

_____

Esta “árvore” verbática, donde cairá o fruto maduro de uma significação, supõe, por certo, um tempo poético que já não é o de uma “fabricação”, mas o [tempo] de uma aventura possível, o encontro de um signo e de uma intenção. A Poesia moderna se opõe a arte clássica por uma diferença que capta toda a estrutura da linguagem e que não deixa entre essas duas poesias outro ponto comum que não seja o de uma mesma intenção sociologia.
A economia da linguagem clássica (Prosa e Poesia) é relativa [relacional], ou seja, as palavras são as mais abstratas possíveis em proveito das relacionalidades. Nenhuma palavra contém em si toda a massa suficientemente capaz de traduzir todo conteúdo ou profundidade [de si mesma], posto que ela [a palavra] é apenas o signo de uma coisa e, muito mais que isso, o caminho de um vínculo. Longe de se submergir numa realidade interna consubstancial, isto é, “que es de la misma sustancia, naturaleza indivisible y esencia que outro”, ao seu pensamento, se extiende, apenas proferida, em direção [movimento] a outras palavras, formando uma cadeia superficial de intenções.
Analogamente, se pousarmos o olhar sobre a linguagem matemática acabar-se-á por compreender - possivelmente! – a natureza relacional entre a prosa e a poesia clássicas: sabe-se que na escritura matemática não somente cada quantidade prevê um signo, mas também que as relações que ligam essas quantidades estão transcritas também por meio de uma marca operacional de igualdade [=] ou de diferença [≠]; pode-se dizer que todo o movimento da obra matemática provém de uma leitura explícita desses relacionamentos.
Do mesmo modo, a linguagem clássica está dotada desse mesmo movimento, contudo, sem o mesmo rigor: suas “palavras”, neutralizadas, ausentadas pela apelação severa duma tradição que absorve sua serenidade ou fertilidade não sofrem com o acidente sonoro ou semântico que concentraria num ponto o sabor da linguagem e deteria o movimento intelectual em proveito de uma mal distribuída voluptuosidade. A obra clássica é uma sucessão de elementos de igual densidade, submetida a uma mesma pressão emotiva na qual se liberta toda tendência em direção a uma significação individual e inventiva. O léxico poético é um léxico de uso, não de invenção: as imagens são particulares corporativamente, não isoladamente, geralmente interpretam os atos e usos da vida social, não o movimento criativo. A função do poeta clássico não é a de encontrar palavras novas, com mais conteúdo e profundidade ou mais deslumbrantes, mas a de inscrevê-las de acordo com um plano ou modo convenientemente rígido, protocolar, como se fora um código sagrado, lhas dando maior grau de bondade ou excelência dentro dum perfeccionismo simétrico de concisão e de relação, ou seja, levar o pensamento ao limite exato de um metro. Os “concetti” clássicos são “concetti” de relações, não de palavras; é
uma arte da expressão, não da criação; aqui as palavras não reproduzem, como veremos adiante – por uma espécie de altura violenta e inesperada – a profundidade e a singularidade de uma experiência; são tratadas em sua superfície, segundo as exigências de uma economia elegante e decorativa. Fica-se fascinado ante a formulação que as reúne, não ante seu poder ou sua beleza próprios. Sem dúvida, a palavra clássica não alcança a perfeição funcional do sistema matemático: as relações não estão manifestadas por signos especiais, mas somente por acidentes de forma ou disposição. A retração das palavras, assim como sua alienação realiza a natureza funcional do discurso clássico; utilizadas num limitado número de relações sempre semelhantes, as palavras clássicas se encaminham na direção de um corpo algébrico: a figura retórica, o clisé, são os instrumentos virtuais de uma relação; perderam sua massa em prol dum estádio mais solidário do discurso; operam no modo de valências
químicas, delineando superficialmente a figura de um corpus verbal prenhe de conexões simétricas, de estrelas com os nós e enlaces às novas estrelas surgentes, sem ter jamais o descanso duma grande admiração, de novas intenções de significações. As parcelas do discurso clássico apenas entregam seu sentido, se transformam em veículos ou anúncios, levando sempre mais longe um sentido que não quer se depositar no fundo de uma palavra, mas expandir-se num modo de um gesto total de compreendidade, de intelectualidade, ou seja, de comunicabilidade.
Surge daí a distorção intentada por Hugo, de submeter o alexandrino, o mais
relacional de todos os metros, numa contenda futura com toda a poesia moderna, posto que se trata de reduzir a nada uma intenção de relações para substituí-la por uma explosão de palavras. Com efeito, a poesia moderna, já que é necessário opô-la à poesia clássica, assim como a toda à prosa, destrói a natureza espontaneamente funcional da linguagem e só deixa subsistir os fundamentos lexicais. Conserva das relações pura e tão-somente o
movimento, a sua música, não a sua verdade. A Palavra vive aquém ou por debaixo duma linha de relações enterradas sob os pés duma figura de adornamento vazio, a gramática é desprovida de sua finalidade, se faz prosódia, já não é mais que inflexão que perdura para manifestar “relaciones vaciadas”. As relações não estão suprimidas totalmente, são “sujeitos” aleijados, paródias de relações desnecessárias, pois a densidade da Palavra deve elevar-se fora de um “corpo” vazio, como um ruído e um signo sem fundo, como um “furor
e um mistério”.
Na linguagem clássica as relações arrastam a palavra e a levam imediatamente para um sentido sempre projetado; na poesia moderna as relações são apenas extensões da palavra. A Palavra é uma “morada” e está implantada como origem na prosódia das funções, contudo ausentes. Aqui as relações fascinam, a Palavra alimenta e sobressalta como o súbito desvelamento de uma verdade; dizer que essa verdade é de ordem poética é somente admitir que a Palavra poética jamais pode ser falsa [ou falseada] porque ela é total; brilha com infinita liberdade de se presta a irradiar na direção de mil e uma relações incertas e possíveis. Abolidas as relações fixas, a palavra somente tem um projeto vertical, é como um bloco, um pilar que se rompe numa totalidade de sentido, de reflexos e de permanência: é signo erguido. A palavra poética é aqui um ato sem passado imediato, um
ato sem entornos, propondo tão-somente a sombra espessa dos reflexos de todas as classes que estão vinculadas com ela. Assim, sob cada Palavra numa poesia moderna ocorre uma corrente, ou seja, um encadeamento geológico de existencialidade, onde se encontram todos os componentes dos signos referentes ao seu significado, onde se reúne o conteúdo total do Substantivo, e no seu conteúdo eletivo como na prosa ou na poesia clássica. A palavra já não está encaminhada de antemão na intenção geral de um discurso socializado;
o consumidor de poesia, privado do “código” de relações seletivas, desemboca na Palavra, frontalmente, e a recebe como uma quantidade absoluta acompanhada de todas as suas possibilidades. A Palavra é aqui enciclopédica; contem em si simultaneamente todas as acepções [e concepções] entre as que um discurso relacional “hubiera impuesto uma elección”. Realiza, pois, um estado possível só no dicionário e na poesia, donde o substantivo pode viver privado de seu artigo[1], levado a uma circunstância de estado zero, grávido de todas as especificações passadas e futuras. Aqui a palavra tem uma forma
genérica, é uma categoria. Cada palavra poética é, assim, um objeto inesperado, caixa de Pandora donde surgem todas as categorias de linguagens, produzida e consumida com extrema curiosidade, uma espécie de gula sagrada. Esta Hambre de la Palabra, comum a toda poesia moderna, faz da palavra poética uma palavra terrível e inumana. Institui um discurso saciado de palavras, um discurso “lleno de agujeros e de luces, lleno de ausências y de signos”.

* Esta tradução decorre de [A844] Barthes, Roland [BAR] El grado cero de la escritura: seguido de Nuevos ensayos críticos. – 1ª. Ed – Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2003. pp.
46-57. ISBN: 987-1105-48-7

[1] Em francês o substantivo jamais pode ocorrer sem a presença do seu artigo (N. do T. Argentino).


sábado, 18 de outubro de 2008

poema



deve ter sido o amor mais puro, numa outra primavera.
- assim pensei, a ouvir as ondas no seu ritmo terrestre.

em tudo houve uma forma evidente, um verde,
uma paisagem esdrúxula
onde se ajusta o silêncio, em filigrana,
ao despojado luar libidinal.




mariagomes
out.2008

XXVIII


caminho para todos os lugares
lágrima para todas as saudades
lâmpada para toda a claridade
e a isto eu chamo 'coração sem muros '



Maria Costa

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

soubesse eu que eras ténue!



soubesse eu que eras ténue!
brisa dos cinco elementos.
formada no rompimento dos tecidos humanos
ou em desejos momentâneos.
já idos! em Março.

vislumbrei-te sem halo.
intacta!
como a lua despida ao Outono.
e aceitaste-me com um sorriso de estrelas.

foi no hausto do instante,
inebriado pela miríade dos sentires,
que me deixei,
despercebidamente, sucumbir.
o tempo foi-se, exausto.
e nem sequer, os teus lábios provei.

Soubesse eu que eras ténue!
mas não soube.
e despojando-me das vestes artificiais,
fui pregar às areias do vento.

o voo das aves corria no fluir das lágrimas
ou na força vital que pulsa nas artérias,
e foi nas águas do deserto
que reencontrei a dupla hélice da vida.

a lembrança? deixou de estar corrompida.

falhei o teu breve partir.
mas sei-te ténue, sei-te minha.
no profundo das sequóias vermelhas.



in Comentários na face da Noite

do Inatingível

levaram da casa um cofre



levaram da casa um cofre.
cofres-fortes... rio-me deles
servem só para guardar
valores de segunda:
ouro, jóias, papéis...

pois carrego comigo
cá dentro e bem seguro
um cofre de verdade
onde guardo sentimentos.


Walter Cabral de Moura

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

eu não escrevo em português



Eu não escrevo em português.
Escrevo eu mesmo.


Fernando Pessoa


terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poesia e a dimensão erótica da vida


Platão, o filósofo grego, explica que o nome anthropos (homem) significa “aquele que contempla o que vê”. Contemplar é extrair daquilo que é visto algo que está além do objeto: encontrar um sentido. O fascínio do poema, sua sedução, reside, justamente, na possibilidade de criar e/ou encontrar esse sentido.

Se, de um lado, temos o homem faminto por sentido e, do outro, há o poema que se abre ao desejo desse homem, fica patente o poder erótico da poesia. E, aqui, não cabe falar em poemas eróticos, pois não há poesia que não seja erótica.

O ritual erótico que resulta no poema começa com a paixão do poeta pela palavra, pelo desejo que permeia sua relação com a linguagem. Só o poema pode revelar toda a sensualidade de um idioma. Só a Poesia possui as palavras com tamanha ânsia, a ponto de arrancá-las ao controle da sintaxe, desnudá-las da roupagem da gramática e conduzi-las, num crescendo, ao gozo inevitável: o poema.

Toda poesia que mereça esta designação é erótica, no sentido de que nasce da pulsão por expressar o inominável, que, por sua intensidade, é efêmero como os sentidos pressentidos no poema, como a própria paixão.

A poesia é sempre erótica, pois o poema – entidade resultante da orgia entre o poeta e a palavra – é como o corpo que surge no momento da cópula, um outro corpo que não pertence a nenhum dos amantes, existe apenas no breve intervalo do êxtase.

Não se trata de o poema ter ‘conteúdo erótico’, mas de que sua fala se articula a partir de uma dimensão erótica presente no poeta e, mais tarde, no leitor.

Discute-se muito a carência de público leitor para a poesia. Tenho cá minhas teorias sobre isso: embora vivamos numa sociedade extremamente erotizada, tememos assumir nossa dimensão erótica, que não se sujeita à sintaxe desumanizante de quaisquer moralismos. Por isso, a grande maioria das pessoas não é capturada pela sedução do poema, por sua carne latejante e plena de sentidos que estão além da superfície porosa das palavras.

Encerro essa divagação com um poema de minha autoria, que diz mais do que toda essa prosa: “Psicopoema”: encerrado no hospício/ das palavras/ o poeta/ remexe as entranhas/ do seu mais íntimo/ dicionário/ busca o verso/ no caldo químico/ dos próprios hormônios/ e reencontra a si mesmo/ na plenitude orgásmica/ do poema.

Sandra Baldessin
Consultora em Comunicação Escrita

in portal literário coordenado por Heloisa Buarque de Holanda

havia na minha rua


Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste)


Saúl Dias (1902-1983)

sobre este poeta

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

a Palavra


... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que
sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas,
persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As
inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de
repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam
como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas
palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ...
Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as,
preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas,
vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ...
E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as,
liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de
madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ...
Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de
lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não
a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas,
pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de
tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e
recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ...
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ...
Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas
encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro,
ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no
mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às
que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava
arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das
ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui
resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o
ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo...
Deixaram-nos as palavras.


Pablo Neruda

sonhos sem ilusões


Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.


Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'


sonetos


Seja falar, escrever, olhar sequer
Sempre inaparentes somos. Nosso ente
Não pode, verbo ou livro, em si conter.
A alma nos fica longe infindamente.
Pensamentos que dermos ou quisermos
Ser alma nossa em gestos revelada
Coração cerrado fica o que tivermos,
De nós mesmos é sempre ignorada.
Abismos de alma intransponíveis
Por pensar ou manha de o parecer.
Ao mais fundo de nós irredutíveis
Quando ao pensar o ser queremos dizer.
Sonhos de nós, as almas lucilantes,
E duns pra outros sonhos doutros antes.



Fernando Pessoa in poemas ingleses
Trad. de José Blanc de Portugal


domingo, 5 de outubro de 2008

Sóis Interiores



árvores de luz do futuro
iluminaram a via do grande plantador.

o Palácio das Águas leves ainda é
o enigma do vento.

almas brancas,
nuvens soltas.



in In-finito Azul